Enchentes

Moradores de Canoas (RS) denunciam casas de bombas sem operadores e medo de novas cheias na cidade

Comunidade cobra agilidade nas obras de reconstrução em ato realizado nesta segunda-feira (4)

Durante o ato, moradores denunciaram lentidão nas obras de reconstrução e falta de informações claras sobre o andamento das intervenções | Foto: @josi_marchese

Por Clara Aguiar
Do Brasil de Fato

Dois anos após a enchente de 2024 que marcou a história de Canoas (RS), moradores do bairro Mathias Velho voltaram às ruas na tarde de segunda-feira (4), em um ato marcado por memória, indignação e cobrança por ação. A mobilização ocorreu em frente à Casa de Bomba 6, estrutura considerada estratégica no sistema de drenagem da região.

Dois anos após a enchente de 2024 que marcou a história de Canoas (RS), moradores do bairro Mathias Velho voltaram às ruas na tarde de segunda-feira (4), em um ato marcado por memória, indignação e cobrança por ação. A mobilização ocorreu em frente à Casa de Bomba 6, estrutura considerada estratégica no sistema de drenagem da região.

O cenário ainda é de incerteza para quem vive nas áreas mais atingidas. Durante o ato, moradores denunciaram a lentidão nas obras de reconstrução e a falta de informações claras sobre o andamento das intervenções. A sensação predominante, segundo os relatos, é de insegurança diante da possibilidade de uma nova enchente.

Presidenta da Cozinha Solidária da Associação de Moradores da Vila Getúlio Vargas, Carmen dos Reis, relembrou os dias mais críticos da enchente e destacou o impacto prolongado na vida da comunidade. Ela afirmou que a região ficou submersa por 30 dias e que, desde então, os moradores convivem com medo e incerteza.

“Estamos aqui para reivindicar o direito de saber sobre as obras. Não sabemos quando vão terminar, nem exatamente o que está sendo feito. O risco que corremos é constante. Podemos deitar em casa e precisar sair correndo durante a madrugada ou ao anoitecer”, disse.

Segundo Reis, há angústia e sensação de abandono entre os moradores. Ela questiona a demora na conclusão das intervenções, mesmo com a existência de recursos destinados às obras, e reforça que a mobilização é uma forma de pressionar por respostas concretas.

O cenário ainda é de incerteza para quem vive nas áreas mais atingidas | Foto: @josi_marchese

Moradores criticam lentidão e abandono nas obras

Fabíola Silva, coordenadora do Instituto Malvado Favorito, que acompanha a situação das famílias em vulnerabilidade no bairro, relatou que a organização monitora com frequência a área da Bomba 6 e que, na avaliação dela, não há equipes suficientes atuando no local. Segundo ela, a ausência de trabalhadores e de uma empresa responsável visível reforça a sensação de descaso.

“Estamos aqui com dor e aflição, porque precisamos de algo básico: deitar na cama e dormir. Precisamos de paz, respeito e atitudes reais”, afirmou.

Ela também criticou o andamento das obras, mencionando que o dique ainda apresenta 42% do solo comprometido. Para Silva, esse percentual, após dois anos, representa um medo constante para as famílias.

A coordenadora destacou que os moradores querem retomar uma vida com tranquilidade, o que, segundo ela, ainda não é possível diante da falta de fiscalização efetiva e de uma construção segura.

Ato também homenageou vítimas da enchente de 2024

Moradora do bairro, Josiane Marchese afirmou que o ato reúne pessoas que enfrentaram situações extremas durante a enchente de 2024. Segundo ela, há uma mobilização coletiva por meio de um abaixo-assinado com diversas reivindicações, entre elas a conclusão das obras do dique, a liberação de áreas ainda interditadas e a garantia de moradia para famílias que permanecem desabrigadas.

“Nós estamos aqui reunidos com esse povo de luta, esse povo que passou por um inferno”, declarou. Ela também cobrou maior atenção do poder público municipal e estadual às demandas da comunidade. “Que eles venham e olhem pelo bairro, olhem pelas nossas pessoas”, disse.

A sensação predominante, segundo os relatos, é de insegurança diante da possibilidade de uma nova enchente | Foto: @josi_marchese

Marchese ainda destacou o caráter de memória do ato, que homenageia as vítimas da tragédia. “Nós estamos aqui para lembrar também todas as pessoas que perderam a vida nessa fatídica enchente de 2024. O povo clama. Não dorme, o povo ainda tem medo”, completou.

Comunidade cobra moradia, saúde e reconstrução do território

Já Aline Machado, também moradora do bairro, afirmou que a mobilização tem como foco a garantia de direitos básicos ainda não atendidos. Segundo ela, a comunidade cobra transparência e andamento nas obras do dique, que seguem sem informações claras sobre prazos e responsáveis.

“Estamos reivindicando a conclusão da obra do dique, que até hoje a gente não viu nenhuma placa mostrando quando começou, quando vai terminar, quem é o responsável”, afirmou. Ela também denunciou a falta de manutenção na estrutura existente. “Estamos reivindicando as limpezas dos bueiros e do nosso dique, que tá totalmente obstruído pelo lixo”, disse.

Machado ressaltou ainda a urgência por moradia digna para as famílias afetadas, além da necessidade de políticas públicas nas áreas de alimentação, educação e saúde. Segundo ela, muitas pessoas ainda não conseguiram retornar para suas casas, enquanto escolas seguem destruídas e o acesso ao atendimento médico é precário.

“Quando alguém aqui fica doente, até chegar no Hospital Nossa Senhora das Graças, muitas dessas pessoas acabam chegando lá sem vida”, relatou.

A moradora concluiu reforçando o objetivo do ato: “Hoje nós estamos aqui para cobrar, para reivindicar aquilo que é nosso de direito”.

Brasil de Fato RS procurou a Prefeitura de Canoas para solicitar posicionamento sobre as reivindicações apresentadas pelos moradores. Até a publicação deste texto, não houve retorno. O espaço segue aberto para manifestação.

Carta de reivindicações

Uma carta com reivindicações foi escrita pelos moradores de Canoas. Leia na integra:

DECLARAÇÃO – ATO PELA VIDA – BOMBA 06 MATHIAS VELHO

Cidadãos e cidadãs de Canoas e, por que não, da região metropolitana, da qual fazemos parte. Autoridades competentes. Hoje é dia de memória, de dor, de coragem e esperança.

Ontem, dia 03 de maio de 2026, completou-se dois anos da maior tragédia da história recente de Canoas. No final de abril e início de maio de 2024 foi para todo o nosso Estado uma tragédia anunciada que levou casas, sonhos e principalmente VIDAS.

Hoje lembramos, com respeito, das 185 pessoas que perderam a vida. E não esquecemos: 23 seguem desaparecidas. Também lembramos daqueles que partiram depois nos abrigos, ao voltar para suas casas ou por não suportarem mais o medo da chuva. Esse evento climático tornou-se tragédia que não acabou. Ela continua viva dentro de nós.

Há um ano, dissemos: “o abandono continua. ” E hoje, repetimos: dois anos depois, o abandono continua. Seguimos sem HPS na Mathias, sem bombeiros, pois, nos abandonaram. Sem a Escola Tereza Franchescuti. O Centro Social Urbano está sendo destruído.

Em Canoas, as Casas de bombas sem operadores. Bianchini sem contenção. Bueiros entupidos. Hidrojatos que não existem. Seguimos sem respostas. Não temos acesso aos projetos. Não sabemos prazos, nem etapas. Não há transparência. Não há fiscalização. Enquanto isso, bilhões estão disponíveis. E os projetos estão prontos? Como está o cronograma? Temos previsões claras? Falta o quê?

Falta respeito. Falta compromisso. Falta fazer acontecer. Nós não estamos aqui por políticos. Estamos aqui por sobrevivência. Porque quem passou, tem pressa.

Cada chuva traz o medo de volta. Cada trovão lembra que nada foi resolvido. E nós perguntamos: onde estão as obras?  Onde está o dinheiro? Onde está o respeito com o povo?

Hoje não é só um protesto. É novamente um grito. Um grito por dignidade. Por segurança. Pela vida.

Nós exigimos: Obras reais; Transparência; Fiscalização; Respeito.

CHEGA DE DESCASO. CHEGA DE PROMESSAS. ARRUMEM OS DIQUES. MODERNIZEM CORRETAMENTE NOSSAS CASAS DE BOMBAS. DESOBSTRUAM A INFRAESTUTURA PLUVIAL DE NOSSAS RUAS.

Por quem se foi, por quem ainda sofre, por todos nós, canoenses e região metropolitana. Nossa dor virou luta. E não vamos nos calar.

Canoas, 04 de maio de 2026.

Editado por: Marcelo Ferreira/ BdF