Ajude Cuba!

Campanha de Solidariedade envia mais de 7 toneladas de medicamentos a Cuba

Diante da crise humanitária sem precedentes, campanha "Ajude Cuba" mobiliza trabalhadores, movimentos populares e a sociedade brasileira em apoio ao povo cubano

Foto: Lionel Chamoiseau/ AFP

Por Fernanda Alcântara
Da Página do MST

Cuba atravessa um dos momentos mais difíceis de sua história recente, diante da combinação devastadora do bloqueio econômico e agravado por Donald Trump nos últimos meses, com novos bloqueios e a escassez crônica de medicamentos, que empurrou o sistema de saúde cubano ao limite. Atualmente, hospitais funcionam com estoques mínimos de suprimentos, famílias buscam remédios que simplesmente não existem nas prateleiras, e um povo de longa resistência enfrenta, neste momento, uma emergência que exige resposta imediata do mundo.

Diante desse cenário, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) lançou, ainda no ano passado, a campanha “Ajude Cuba”. Mais do que uma ação humanitária, a iniciativa nasceu como um grito político de internacionalismo de que a solidariedade internacionalista não é retórica, mas prática concreta que salva vidas. Assim, o Movimento, com sua trajetória histórica de luta e cooperação com Cuba, assumiu a tarefa de transformar indignação em ação organizada.

Cuba resiste há mais de seis décadas ao bloqueio econômico norte-americano, uma das políticas mais cruéis e duradouras de punição coletiva já aplicadas contra uma nação. O bloqueio não atinge apenas a economia, mas também sabota o acesso a combustíveis e medicamentos, equipamentos médicos, peças de reposição, insumos agrícolas e todo o aparato tecnológico que poderia chegar por canais comerciais normais.

Foto: Peter Kraayvanger/ Pixabay

Em poucos meses, a Campanha “Ajude Cuba” mobilizou doadores de todas as regiões do país, entre trabalhadores do campo e da cidade, estudantes, professores, profissionais de saúde, militantes e cidadãos comuns que entenderam que apoiar Cuba hoje é defender a soberania dos povos e resistir ao modelo de dominação que condena nações inteiras à miséria.

Conforme relatos dos coordenadores da campanha, há uma aceitação da campanha de modo geral na sociedade, principalmente no meio progressista, de esquerda e humanista, e o MST “busca ampliar a divulgação por meio de podcasts, redes sociais e eventos culturais para sustentar essa mobilização”, enfatizam.

Prestação de contas

A distribuição dos medicamentos obedece a uma lógica de prioridade definida pelo próprio MINSAP – Dirección General de Salud Pública de La Habana (Ministério de Saúde Pública Cubano). Tudo o que chega na ilha é recebido diretamente pelo ministério, que possui uma lista de necessidades atualizada constantemente conforme a realidade dos hospitais. A partir dessa lista, os insumos são direcionados às unidades de maior carência, garantindo que o apoio chegue em locais com maior urgência. Não há desvio ou desperdício, afinal, é humanitarismo com método e compromisso.

“Inicialmente, as doações eram entregues diretamente a organizações sociais, policlínicos e hospitais parceiros. Com o fortalecimento da relação com o Estado cubano, os medicamentos passaram a ser destinados ao MINSAP. Porém, a falta de combustível dificulta a distribuição em regiões mais distantes de Havana, especialmente no centro e oriente da ilha, levando o ministério a orientar o envio direto às províncias, como ocorreu na campanha passada, que destinou 1,4 toneladas de medicamentos ao Oriente cubano”, afirma Marcelo Durão, coordenador da brigada do MST em Cuba.

Foto: Pexels/Pixabay

Até o momento, como parte da Campanha “Ajude Cuba”, foram arrecadados R$ 2.170.471,99, dos quais R$ 2.020.546,71 foram destinados à compra de medicamentos e ao pagamento das taxas de transporte e embarque das duas grandes remessas realizadas. A transparência na prestação de contas é parte do compromisso político da campanha. “A campanha tem enorme importância porque visa suprir a necessidade de medicamentos gerada pelo bloqueio, que impede Cuba de obter as matérias-primas para a produção destes medicamentos”, explicou Durão.

A operação logística contou primeiro com o envio oficial da campanha, que consistiu em 13 caixas despachadas por agência transportadora, totalizando 213,63 kg de medicamentos. Em seguida, com a estruturação de um canal direto com laboratórios fornecedores, foi possível aumentar o tamanho da ajuda, uma vez que a primeira grande remessa via laboratório chegou a impressionantes 1,7 toneladas, entregue diretamente aos hospitais do oriente de Cuba, justamente à região mais devastada pelo furacão Melissa.

Agora, a segunda remessa de grande escala está finalizada e pronta para o embarque. São aproximadamente 4,6 toneladas de medicamentos adquiridos diretamente do laboratório, que chegarão a Cuba. Esse segundo envio representa, além de um salto quantitativo, a consolidação de uma estrutura sólida de solidariedade entre Brasil e Cuba, capaz de responder com escala à dimensão da crise.

Além das remessas massivas, a campanha contou com uma rede viva de solidariedade que percorreu caminhos menores, mas igualmente importantes. Ao longo do período, 25 malas também foram levadas por pessoas que viajaram até a ilha, transportando medicamentos de forma direta e pessoal. Cada mala pesava em média 23 quilogramas, somando 575 quilogramas no total. Essas malas chegavam primeiro às mãos da brigada do MST em Cuba e, de lá, eram repassadas ao MINSAP. Somadas todas as formas de envio, o total já entregue ao povo cubano e em processo de embarque chega a aproximadamente 7,1 toneladas.

Internacionalismo

Imagem: Jukka Niittymaa por Pixabay

Para além do envio de medicamentos, “contribuímos para o desenvolvimento da produção agroecológica, envio de sementes e projetos de produção em comum. Também realizamos formações e intercâmbios entre os países e temos uma brigada permanente em Cuba, e fortalecemos ações no Brasil em apoio a Cuba tanto na sociedade quanto em diálogos com ministérios e embaixadas”, afirma um dos coordenadores da campanha.

O laço entre o MST e Cuba nasceu de décadas de cooperação e agora se fortalece diante do novo desafio, uma vez que a revolução cubana sempre enviou médicos e conhecimento ao mundo e hoje “os povos que lutam pela soberania se reconhecem e se apoiam mutuamente”. Na visão dos brigadistas do MST na ilha, a resistência cubana ensina lições valiosas: “O povo cubano tem muito a nos transmitir, desde a forma organizativa da sociedade para enfrentar tantos anos de bloqueio, até o sentimento de pertencimento à pátria”, apontam. “Mesmo com críticas e descontentamentos, eles se mantêm com o pensamento de pátria”.

A solidariedade internacionalista que temos realizado vem proporcionando um mínimo de condições de respiro à sociedade cubana. Entendemos que temos o dever político de retribuir a Cuba por tudo o que este povo já realizou pelos trabalhadores do mundo, e nossa contribuição está centrada no aumento da produção de alimentos com a doação de sementes de hortaliças e grãos, nos intercâmbios no campo da agroecologia e da agricultura, no campo da educação, medicina, inovação tecnológica, entre muitas outras”,

– Marcelo Durão

É com este pensamento que se constrói unidade na ação. Diante da falta de combustível, por exemplo, o país se reorganizou: “escolas públicas e centros de trabalho passaram a rodar em regime misto presencial/remoto, sem paralisar as atividades educativas. As escolas de ensino básico, fundamental e pré-universitário não pararam”, relatam militantes. Acima de tudo, preservam o humanismo: “Uma questão é a humanidade desse povo, a relação de solidariedade e de humanismo entre eles, não só para fora de Cuba. Os cubanos sofrem com a dor do outro, se indignam e se organizam para dar respostas coletivas às dificuldades”, complementa Durão. Essa lição fortalece o projeto popular brasileiro: não basta querer ajudar, é preciso agir.

Chamada à ação

Médicos brasileiros formados em Cuba são aprovados pelo Revalida
Médicos brasileiros formados em Cuba são aprovados pelo exame do Revalida, para atuar no Brasil. Foto: Arquivo MST

Os remédios enviados representam tratamentos, alívio da dor, cirurgias realizadas, vidas mantidas. Cada comprimido que embarca do Brasil para Cuba carrega consigo a memória de décadas de parceria entre os dois povos e, cada dia de atraso é um paciente sem tratamento, uma criança sem antibiótico, um idoso sem a medicação que mantém seu coração funcionando. Essa é a resposta que o MST e tantos doadores brasileiros precisa continuar garantindo. O segundo envio de 4,6 toneladas de medicamentos é uma vitória, mas a crise em Cuba não acabou e a campanha não pode parar.

“A campanha precisa continuar pois Cuba resiste sob o jugo do bloqueio há mais de seis décadas e jamais estará sozinha”, lembra explica Durão. As doações podem ser feitas em qualquer momento por se tratar de uma longa campanha, realizada de forma permanente, cada real se converte em remédio para uma família cubana. Fortalecer essa corrente de solidariedade internacionalista é uma escolha de humanidade e de unidade popular: como repete o lema da campanha, “Cuba vive e resiste!” – e resistirá com a força de todo um continente.

Assim, os movimentos sociais e populares convocam cada um de nós a uma escolha. Podemos observar à distância ou podemos agir. Não importa o valor da doação, já que qualquer contribuição se converte em medicamentos. Mais de dois milhões de reais arrecadados, sete toneladas de medicamentos enviados, e isso foi possível porque milhares de pessoas decidiram que sua contribuição importava. O canal está aberto, a estrutura está montada e a necessidade é imensa. Precisamos fortalecer a campanha e garantir que mais remessas possam ser realizadas, que mais hospitais cubanos recebam o suporte de que precisam, que mais vidas possam ser salvas.

A história da relação entre o MST e Cuba é uma história de respeito mútuo, aprendizado e luta compartilhada. Cuba formou quadros, compartilhou conhecimento médico e mostrou ao mundo que é possível construir uma sociedade baseada na solidariedade e na dignidade humana, mesmo sob pressão permanente. Devolver parte disso na forma de medicamentos, neste momento crítico, é honrar essa história e afirmar, com convicção, que a solidariedade internacionalista é o elo mais forte que une os povos que resistem e constroem um mundo diferente.


Como ajudar?

Foto de alguns dos 1.700 quilos de remédios enviados a Cuba na primeira leva da campanha. Foto: Yuri Gringo

Cada contribuição, de qualquer valor, faz a diferença e se transforma em alívio e esperança para o povo cubano. Sua solidariedade atravessa fronteiras e ajuda a salvar vidas. Participe desta corrente de apoio e faça sua doação através dos canais abaixo:

Beneficiário: Instituto Nacional para o Desenvolvimento Social e Cultural do Campo
Chave Pix (CNPJ): 11.586.301/0001-65
Dados Bancários: Agência: 1231 | Operação: 1292 | Conta Corrente: 000577559399-1

Participe! Sua doação salva vidas e fortalece a resistência!

*Editado por Solange Engelmann