Internacionalismo

Celia Sánchez, memória viva da Revolução Cubana

Primeira mulher combatente do Exército Rebelde e criadora do pelotão feminino “Las Marianas”, Celia Sánchez tornou-se uma das figuras centrais da Revolução Cubana

Foto: Reprodução

Por Milena Vitória
Da Página do MST

Celia Esther de los Desamparados Sánchez Manduley, conhecida como Celia Sánchez Manduley (Media Luna, 9 de maio de 1920 – Havana, 11 de janeiro de 1980), foi uma guerrilheira da Revolução Cubana e uma das colaboradoras mais próximas de Fidel Castro, de 1957 até sua morte. Foi a primeira mulher a ocupar a posição de soldado combatente nas fileiras do Exército Rebelde e a principal impulsionadora da criação do pelotão feminino conhecido como “Las Marianas”, em homenagem a Mariana Grajales, em 1957. Em 1962, foi nomeada secretária da Presidência do Conselho de Ministros de Cuba.

Nasceu na cidade açucareira de Media Luna, na casa que, em 1913, o doutor Manuel Sánchez Silveira comprou ao casar-se com Acacia Manduley, onde nasceram os nove filhos do casal. Ali, Celia viveu com sua família por 20 anos, até 1940, quando se mudou para Pilón junto com o pai, onde passou outros quase 16 anos, até o desembarque dos expedicionários do iate Granma, liderados por Fidel, em 2 de dezembro de 1956.

Sua mãe morreu quando ela ainda era jovem. Com seu pai, Manuel Sánchez Silveira — médico rural, homem culto e comprometido com o Partido Ortodoxo liberal —, teve seu primeiro contato com a política. Foi sua assistente e viu, de perto, os efeitos da pobreza sobre os pacientes atendidos por ele. Desde pequena, esteve influenciada pelo pensamento de José Martí e, ainda jovem, vinculou-se à luta popular.

Trajetória revolucionária

Uniu-se ao Partido Ortodoxo de Eduardo Chibás, mas, após o golpe de Estado de 10 de março de 1952, envolveu-se com várias organizações de perfil insurrecional. Foi uma das primeiras mulheres a pegar em armas durante a Revolução Cubana. Seu principal papel nessa guerra foi desempenhado na preparação do desembarque do Granma na província de Oriente, onde trabalhou arduamente na cidade de Manzanillo.

A pedido de Manuel Echevarría, durante sua viagem ao México, Fidel Castro afirmou certa vez:

…se essa mulher é como você diz, o melhor lugar para ela é Manzanillo, porque ali será mais útil…

Em Manzanillo, junto com Frank País, organizou os camponeses da região para oferecer apoio aos expedicionários.

No Movimento 26 de Julho, nunca ocupou cargos diretivos, embora tenha assumido tarefas relevantes. Com seu nome de guerra, Norma, tornou-se figura fundamental nos preparativos da expedição do Granma e no início da luta guerrilheira na Serra Maestra.

Guerra de Libertação

Por orientação do Movimento, organizou uma rede de colaboradores camponeses nas proximidades do local onde deveria desembarcar a expedição dirigida por Fidel Castro, o que foi fundamental para a continuidade da luta. Enviou o primeiro destacamento armado para a Serra a partir de El Marabuzal, em Manzanillo.

Em 1957, na Cuba de Fulgencio Batista, Sánchez foi a mulher mais procurada do país. Em 19 de março, subiu à Serra Maestra e incorporou-se como combatente ao Exército Rebelde. Foi a principal impulsionadora da criação do pelotão feminino “Mariana Grajales”.

Nos momentos mais difíceis da guerrilha dirigida por Fidel Castro, em fevereiro de 1957, marchou ao encontro do grupo na companhia de Frank País, Faustino Pérez e outros membros da Direção Nacional do Movimento 26 de Julho, para coordenar o apoio vindo da planície (“el llano”) e a chegada, via Havana-Manzanillo, do jornalista do New York Times, Herbert Matthews, até Fidel, em plena Serra Maestra. A publicação da entrevista feita pelo jornalista ao líder guerrilheiro desmontou a propaganda batistiana baseada na suposta morte de Fidel. No final de abril, voltaria à Serra guiando o jornalista estadunidense Bob Taber, que desejava entrevistar Fidel.

Foto: Reprodução

Em 28 de maio de 1957, Celia participou, pela primeira vez, de um combate: a batalha de El Uvero, como integrante do pelotão de comando, tornando-se a primeira mulher a ocupar a posição de soldado combatente nas fileiras do Exército Rebelde.

Las Marianas

Em 4 de setembro de 1958, na Serra Maestra, após uma reunião de sete horas entre Fidel e seu Estado-Maior, e por incentivo de Celia, foi criado em La Plata o pelotão Mariana Grajales, formado por mulheres decididas a incorporar-se como combatentes e conhecido como “Las Marianas”. A brigadeiro-general e guerrilheira Teté Puebla foi sua segunda comandante.

Como muitos homens não tinham confiança em nós, Fidel não foi apenas quem nos ensinou a atirar, mas também nos nomeou sua escolta pessoal. Por isso, quando chegávamos aos lugares, as pessoas diziam: ‘Chegaram as Marianas? Com certeza Fidel vem atrás!’ (…) No dia em que a Revolução triunfou, parte das Marianas estava em Holguín com o comandante Delio Gómez Ochoa, chefe da IV Frente, e Fidel nos mandou buscar. (…) Celia, assim como na Serra, mal descansava para estar sempre atenta a tudo. Ela era assim: não tinha descanso.

Explica Teté Puebla, que, após a Revolução, tornou-se uma das colaboradoras mais próximas de Celia.

Revolução no poder

Em 23 de março de 1962, foi nomeada secretária do Conselho de Ministros de Cuba (1962–1976) e, posteriormente, ministra da Presidência. Quando morreu, era membro do Comitê Central do Partido Comunista de Cuba, secretária do Conselho de Estado e deputada do parlamento pelo município de Manzanillo, na província de Granma.

Faleceu de câncer de pulmão em Havana, em 11 de janeiro de 1980.

Salvaguardando a memória histórica da Revolução Cubana

Em 4 de maio de 1964, por iniciativa de Celia, foi fundado o Escritório de Assuntos Históricos do Conselho de Estado, com o objetivo de salvaguardar a memória histórica da luta insurrecional — uma preocupação constante em sua vida. Em 2014, o acervo contava com mais de 159 mil fotografias distribuídas em 28 coleções e 56 mil documentos, muitos deles supervisionados pessoalmente por ela.

Ela esteve o tempo todo atenta à história de Fidel e dos revolucionários na Serra e depois do triunfo. Desde os primeiros anos da década de 1960 começou a acumular os documentos em seu apartamento na rua 11, entre as ruas 10 e 12, no Vedado. Os da Serra permaneciam guardados nos mesmos pacotes preparados durante a guerra; os demais — obtidos por meio de suas gestões com combatentes e familiares dos mártires após o triunfo — foram depositados em grandes sacos de lona”, explicou o diretor da instituição em 2014, Eugenio Suárez Pérez.

*Editado por Leonardo Correia