Reforma Agrária Popular

MST transforma um dos maiores latifúndios do sul do Brasil em território da Reforma Agrária 

Há 30 anos, mais de 83 mil hectares de terras griladas pela madeireira Giacomet Marodin/Araupel começaram a ser ocupados por famílias Sem Terra. Hoje é uma terra de vida digna para cerca de 5.500 famílias camponesas

Sebastião Salgado viajou até o Paraná para registrar a ocupação realizada por mais de 15 mil pessoas. O fotógrafo batizou o que viu como “a marcha da coluna humana”. Foto: Sebastião Salgado

Por Ednubia Ghisi, do Setor de Comunicação e Cultura do MST no PR
Da Página do MST

O pequeno município de Rio Bonito do Iguaçu, na região centro-sul do Paraná, ganhou sua emancipação no início dos anos 1990, com pouco mais de 5 mil habitantes. Na contramão da maioria das cidades pequenas do estado, em poucos anos a população triplicou de tamanho. A explicação para este fenômeno tem data marcada na história. Foi há 30 anos, na madrugada de 17 de abril de 1996, quando mais de 15 mil homens, mulheres e crianças marcharam pela rodovia BR-158 durante 3 horas, vindos de Laranjeiras do Sul, e também com caminhões e carros que partiram de Saudade do Iguaçu. 

O ponto de encontro estava à beira da estrada, próximo da ponte do rio Xagu (que faz parte da bacia hidrográfica do Rio Iguaçu), local que ficou conhecido como “Buraco”. “A gente desceu do ônibus, eu trazia um dos meus irmãos enrolado num cobertor. Era uma noite muito fria. Minha mãe trazia meu outro irmão, que era bebezinho, no colo”, lembra Sandra Padilha Alves, que tinha 17 anos. “Eu lembro muito bem desse dia, foi quando a gente começou essa luta dentro do Movimento, que eu nem sabia o que era, nem sabia que existia”. 

Ali, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) firmou o que viria a ser o primeiro acampamento nos mais de 83 mil hectares de terras públicas griladas pela madeireira Giacomet Marodin, atual Araupel. Desde a chegada da empresa madeireira na região, em 1972, o território passou a ser marcado pelo despejo de famílias posseiras, com queima de casas e assassinatos. Pesquisas mostram relação estreita entre pistoleiros, empresários e o aparato de segurança pública. 

A quebra do cadeado da porteira foi imortalizada pelo fotógrafo Sebastião Salgado, na época já consagrado mundialmente por seus trabalhos humanistas mundo afora. Ele viajou a Rio Bonito para acompanhar a marcha de perto. A imagem da entrada das milhares de pessoas porteira à dentro recebeu de Salgado o título “A luta pela terra: a marcha de uma coluna humana”, e simbolizou o início da democratização das terras no país. 

O dia já clareava quando os barracos de lona começaram a ser erguidos rapidamente, um ao lado do outro. Antônio, pai de Sandra, improvisou um pequeno abrigo próximo a uma sanga. “Quando a gente acordou, já tinha barraco para todo lado, ficou até irreconhecível”, relembra ela. 

Colchão, panela, fogão e mantimentos estavam entre os itens trazidos pelas famílias para transformar o acampamento em local de moradia. Fotos: Arquivo MST 

As condições de vida eram precárias. O acesso à água exigia longas filas, tanto para consumo quanto para higiene. A alimentação também era escassa e compartilhada: “Um pacote de arroz às vezes era dividido entre dez famílias. Um litro de óleo entre quatro ou cinco, para dar um pouquinho para cada um”, conta Sandra.

A decisão de fazer parte de um acampamento foi resultado de uma vida marcada pelo sofrimento no campo, de não ter terra para morar e plantar. A família vivia na zona rural de Chopinzinho, onde o pai trabalhava como empregado, de fazenda em fazenda. “Quando a gente pensava que estava bem, o patrão mandava sair ou vendia o lugar”. A possibilidade de lutar por um pedaço de terra surgiu como alternativa a uma realidade de insegurança.

O contraponto às dificuldades, frio intenso, escassez de alimentos e pressão permanente dos pistoleiros foi a solidariedade vinda de congregações religiosas, sindicatos e organizações populares. A primeira conquista definitiva da área veio em 1997, quando o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) oficializou o assentamento Ireno Alves dos Santos, formado por 900 famílias, entre elas a de Sandra.  

Com o passar dos anos e o avanço da organização Sem Terra, a região se tornou o maior complexo da reforma agrária da América Latina. São mais de 5.500 famílias em 24 comunidades da Reforma Agrária, entre acampamentos e assentamentos, em áreas da antiga Araupel, nos municípios de Rio Bonito do Iguaçu, Laranjeiras do Sul, Nova Laranjeiras, Porto Barreiro, Espigão Alto e Quedas do Iguaçu.

Trinta anos depois, Sandra faz parte da coordenação da comunidade Herdeiros da Terra de Primeiro de Maio, em Rio Bonito do Iguaçu e Nova Laranjeiras, também localizadas em áreas da antiga Araupel. A ocupação se formou há 11 anos e abriga mais de mil famílias, principalmente filhos de assentados na região.

Este é um dos quatro acampamentos que estão sendo regularizados pelo governo do presidente Lula em janeiro deste ano, em que mais de 2 mil famílias camponesas serão beneficiadas: moradoras das comunidades Dom Tomás Balduíno e Araucária, em Quedas do Iguaçu; Nova Vitória, em Quedas do Iguaçu e Espigão Alto do Iguaçu; além da Herdeiros da Terra de 1º de Maio. Cerca de 33 mil hectares de terra da madeireira Araupel se tornarão oficialmente áreas de Reforma Agrária.

Lula promete que irá participar da festa da conquista dos novos assentamentos, em junho deste ano. Esta será a segunda vez que Lula visita Rio Bonito do Iguaçu. A primeira foi no acampamento “Buraco”, em 1996, quando foi manifestar apoio às famílias Sem Terra.

Sandra (ao lado esquerdo) e Ivonete, integrante da coordenação da comunidade Herdeiros da Terra de 1º de Maio. Foto: Thiarles França

“De lá para cá, eu nunca imaginava que eu ia chegar onde nós estamos hoje”, conta Sandra, hoje mãe de dois filhos e prestes a ser oficialmente assentada no mesmo município onde seus pais também conquistaram o pedaço de chão. “Vale a pena. Sozinho a gente não consegue as coisas, mas junto a essa família que é o MST é muita alegria, muitas conquistas que vêm e logo, logo eu serei assentada definitivamente. Então, tenho muito orgulho do Movimento”, garante a coordenadora da comunidade.

Violência do latifúndio 

O contexto brasileiro de avanço de políticas neoliberais e da violência estatal fez com que o 17 de abril de 1996 entrasse na história mundial por um episódio brutal, ocorrido horas mais tarde. No outro extremo do país, no Pará, cerca de 1.500 homens, mulheres e crianças Sem Terra que marchavam para cobrar o direito à terra foram covardemente atacados pela polícia militar. O Massacre de Eldorado do Carajás deixou 21 camponeses mortos e centenas de feridos.

Roberto Baggio, integrante da Coordenação Nacional do MST, lembra daqueles anos como um período de muita fome, com intensivo cerco repressivo através das milícias privadas da União Democrática Ruralista (UDR), em conluio com o aparato repressivo do Estado, envolvendo o poder judiciário, a Polícia Militar e os Grupos de Operações Especiais (GOE), o parlamento na instalação de CPIs. “A criminalização era constante através dos meios de comunicação. Na última fase, despejos ilegais na madrugada, prisões em massa e assassinatos de militantes”. 

Entre 1994 e 2002, durante os mandatos de Jaime Lerner no governo do estado, a Comissão Pastoral da Terra aponta que 16 trabalhadores Sem Terra foram assassinados, 47 sofreram ameaças de morte, 324 ficaram feridos, 502 foram presos, além de 134 despejos violentos no estado.  

Segundo Baggio, a ocupação da fazenda Giacomet Marodin significou o rompimento do cerco de violência estatal, fortaleceu a organização das famílias Sem Terra, que se espalhou em todas as regiões do Paraná. Na época, o MST tinha cerca de 4 mil famílias assentadas e 3 mil famílias ocupando mais de 30 áreas. Atualmente, são 333 assentamentos e cerca de 80 acampamentos, e mais de 28 mil famílias vivendo em áreas da Reforma Agrária no estado. 

Por um novo modelo de desenvolvimento no campo 

O que era um latifúndio com monocultivo de pinus e eucalipto, tornou-se uma terra repartida para muita gente, vida digna para milhares de famílias, com moradia, renda, produção diversa de alimentos, escolas, cooperativas, associações e ações de recuperação ambiental. 

As primeiras escolas começaram a ser erguidas quando parte das moradias ainda eram barracos de lona preta. Hoje são mais de 20 escolas e colégios do campo na região, além do Centro de Desenvolvimento Sustentável e Capacitação Agroecologia, o CEAGRO, localizado no Assentamento Marcos Freire, em Rio Bonito do Iguaçu; e da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), construída no assentamento 8 de Junho, em Laranjeiras do Sul. 

Sala de aula organizada no início do acampamento. Fotos: Arquivo MST

Formações práticas com as famílias camponesas e acompanhamento técnico e científico da universidade têm ajudado a impulsionar ações massivas de recuperação ambiental na região. A comunidade Dom Tomás Balduíno, em Quedas do Iguaçu, tem sido pioneira na recuperação da palmeira juçara, uma espécie-chave da Mata Atlântica, que está ameaçada de extinção. Por meio de parcerias com a Polícia Rodoviária Federal, mais de 30 toneladas de sementes já foram lançadas via helicóptero. As ações começaram com a Festa da Semeadura da Juçara, realizada somente na comunidade, para se tornar a Jornada da Natureza, com ações para preservação e recuperação ambiental em todo o estado, sempre na semana do Meio Ambiente – início de junho.  A 4ª edição será de 1 a 6 de junho

O grande território da “ex-Araupel” também está sendo revitalizado por mutirões massivos de plantio de árvores nativas na Herdeiros da Terra. A iniciativa começou durante a última Jornada da Natureza, e segue com mobilizações mensais, rumo à meta de plantio de 1 milhão de árvores. 

Amostra da diversidade de produção de alimentos a partir das frutas nativas, na comunidade Dom Tomás Balduíno, em Quedas do Iguaçu. Foto: Juliana Barbosa

A riqueza da biodiversidade da flora regional, combinada com ciência e cooperativismo, tem feito avançar o Coletivo de Frutas Nativas e Crioulas e o Projeto Sabores da Agrofloresta. Frutas nativas muito conhecidas no bioma Mata Atlântica agora são fonte de renda, com a produção de geleias e picolés artesanais de açaí-juçara, guabiroba, jabuticaba e outros 12 sabores, além de café e ervas medicinais. O trabalho reúne dezenas de famílias camponesas da reforma agrária, com apoio de professores e estudantes do Laboratório Vivan de Sistemas Agroflorestais da UFFS, campus Laranjeiras do Sul, há mais de 10 anos. 

A decisão pela produção de alimentos em equilíbrio com a natureza é parte das linhas políticas do MST em todo o Brasil. Na região Centro do Paraná, Tarcísio Leopoldo está entre os produtores agroecológicos e lideranças do movimento que atuam no dia a dia para o avanço destas ações. “Essas atividades, essas conquistas históricas para a região, só foram possíveis por um processo longo de conscientização na base, com famílias organizadas, com as comunidades […] E junto avançamos no debate da diversidade, da geração de renda, e tudo isso vem se transformando num olhar de desenvolvimento para a comunidade, para a região”, afirma o integrante da coordenação nacional do MST.  Para ampliar a capacidade de produção de frutas, dezenas de famílias têm aderido ao Sistema Agroflorestal (SAFs) para o plantio de pomares, com a diversidade do bioma. 

Mutirão para plantio de árvores na comunidade Herdeiros da Terra de 1º de Maio, em Rio Bonito do Iguaçu. Foto: Thiarles França

Também está em fase de implantação uma agroindústria para o beneficiamento de frutas, com a marca principal da incorporação de mais tecnologia ao processo. Entre as principais novidades, de acordo com Tarcísio, estão drones para georreferenciamento das matrizes dos plantios e para as colheitas, além de  robôs para facilitar a colheita da juçara. “Hoje nós temos muita materialidade das ações que estão gerando uma consciência ambiental […] É um novo horizonte para toda a região, com uma matriz tecnológica a partir da agrofloresta e da agroecologia, que é a geração de renda com o cuidado da natureza. Nós acreditamos que tem um futuro muito importante para a região”, completa. 

Reforma agrária trouxe “nova vida” para Rio Bonito do Iguaçu

Rio Bonito do Iguaçu passou por uma transformação desde a chegada das famílias Sem Terra. “[Antes] o que arrecadava ia para o lucro para os empresários, para os acionistas. Então a arrecadação era muito pouca, porque era plantio de erva-mate, de pinos, de eucalipto. Hoje não. Hoje os assentados produzem de um pé de tomate, de uma cabeça de alface, até leite, soja, milho, tudo que comporta dentro da agricultura”, afirma o prefeito atual de Rio Bonito do Iguaçu e também no período da ocupação da área, em 1996, Cezar Bovino. 

Prefeito por cinco mandatos na cidade de Rio Bonito, Bovino lembra qual a relação da empresa Araupel com o município: “Nunca conheci um empresário, um acionista da empresa, que talvez o que ganhava em Rio Bonito e em Quedas do Iguaçu ia para São Paulo, Porto Alegre, que eram os escritórios regionais”. 

Com a chegada das famílias Sem Terra, a dinâmica mudou. “A reforma agrária para o Rio Bonito foi uma nova vida, sem dúvida nenhuma. Por dois critérios, desde a produção agrícola, do faturamento, de arrecadação de imposto, em todos os sentidos […]. Hoje a gente entende que as famílias estão morando em Rio Bonito, estão produzindo em Rio Bonito, estão dando sustentação, alimentação para sua família, estão criando sua família”, completa. Apesar de não ter dados compilados, o gestor estima um aumento da arrecadação de impostos em quase 100%, já que as famílias produzem com apresentação do bloco de produtor. 

Para a economista e professora-coordenadora do Mestrado em Agroecologia e Desenvolvimento Rural Sustentável da UFFS, Janete Stoffel, a reforma agrária deve ser vista como uma estratégia econômica vital. Stoffel defende que o papel de um Estado forte é planejar e organizar o futuro através da desconcentração fundiária. “Você distribui melhor as condições de produção, consumo e renda na medida em que você distribui melhor a terra”, afirma a Doutora em Desenvolvimento Regional, reforçando que este foi o caminho trilhado por diversas nações desenvolvidas. “Países que se desenvolveram fizeram isso graças à reforma agrária. Ela é uma garantia de distribuição de renda e produção de alimentos”.

A análise de Stoffel aponta um contraste crítico entre o modelo do agronegócio e a agricultura familiar nos assentamentos. Enquanto o primeiro foca na exportação de commodities, o segundo sustenta o tecido social das pequenas cidades. Segundo ela, o incentivo exacerbado ao agronegócio, prioritário no Brasil desde os anos 1960, pode levar ao esvaziamento dos municípios pequenos. “A renda [no agronegócio] é concentrada nas mãos de poucas pessoas. Se isso se intensificar, a tendência é que nossos municípios vão se esvaziando. E aí vão sobrar os muito ricos e os muito pobres”, alerta.

A criação dos novos assentamentos em Rio Bonito e na região é vista com otimismo por Bovino: “Eu vejo o Rio Bonito com uma expectativa muito boa desde a parte de empregos, vem uma indústria, vai ter emprego, vai ter a mão de obra para a sustentabilidade dessas empresas. Temos  um futuro muito bom perante toda a população. E o Brasil inteiro precisa, porque só tem crescimento com a mão do ser humano”, conclui. 

*Editado por Fernanda Alcântara e Solange Engelmann