Religiosidade

IV edição do ÉGBÈ consolida o poder ancestral de comunidades negras

Encontro Nacional das Culturas dos Povos de Matriz Africana aponta estratégias para o empoderamento coletivo

Integrantes de 8 países marcaram presença no evento. Foto: Nieves Rodrigues

Por Lays Furtado
Da Página do MST

Após 4 dias de atividades, se encerrou neste domingo (7), a quarta edição do ÉGBÈ – Encontro Nacional das Culturas dos Povos de Matriz Africana, que ocorreu em Contagem (MG), reunindo mais de 500 lideranças religiosas, ativistas, pesquisadores e autoridades governamentais e não governamentais, vindos de 9 países distintos.

Realizado desde sua primeira edição pelo Centro Nacional de Africanidade e Resistência Afro Brasileira (CENARAB), o evento teve como tema principal “O Poder Ancestral” dos saberes e tradições de matriz africana, reunindo representantes do Brasil, além de Cuba, Colômbia, Argentina, Peru, Nigéria, Guiné-Bissau, Canadá, Estados Unidos e Itália.

A partir desta perspectiva, o Ègbé, que tem origem na língua Yorubá, é definido como “comunidade” e “família”, conceito onde o ser social e humano se configura a partir do coletivo, que é tido como fonte imprescindível de pertencimento e empoderamento.

Neste sentido, o encontro sinaliza que a coletividade com base no Pan-africanismo, é a maior expressão de poder ancestral cultivado pelas comunidades afro-diaspóricas e melhor instrumento de enfrentamento ao racismo, que é produzido pela máquina colonial sobre as culturas e identidades negras.

Entre os convidados para as mesas de debate que compuseram o evento, estiveram presentes a deputada estadual de Minas Gerais e ex-ministra dos Direitos Humanos e da Cidadania, Macaé Evaristo; o Baba Clebio Ifatomisin (UNEAL); o antropólogo e Prof. Dr. Kabenguele Munanga (USP); o prof. Dr. Eduardo Oliveira (UFBA), e muitas outras referências que marcam em sua trajetória um legado ancestral de saberes.

O evento contou com diversos grupos de debates temáticos, rodas de diálogo, apresentações culturais e a Feira Ojá, com artes, artesanato,  artefatos e alimentos, organizada por integrantes do encontro.

Mais de 500 membros de comunidades de terreiro estiveram presentes no encontro. Foto: Nieves Rodrigues

Entre as menções honrosas que foram feitas ao longo do evento, Cuba foi homenageada por seu histórico de solidariedade ao Brasil e outros países latinos; onde foi destacado a necessidade de retribuição à solidariedade cubana com campanhas de suprimentos e medicamentos, em um momento onde o país está sendo alvo de embargos e ataques norte-americanos.

A realização do encontro contou com a parceria de instituições públicas, privadas e órgãos governamentais como a Secretaria-Geral do Governo Federal, os Ministérios da Saúde, das Mulheres, dos Direitos Humanos e da Cidadania, da Igualdade Racial, Fiocruz, FGV Projetos, Sebrae, Fundação Banco do Brasil, Secretaria Estadual de Cultura e Turismo MG, Prefeitura de Belo Horizonte, OAB, Instituto Ibirapitanga, Abong, INESC, Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), entre outros.

Confluências e contracolonialismo

Nesta direção, houve o compartilhamento de múltiplas experiências de resistência cultural construídas pelos povos africanos dispersos na Diáspora, dentre as quais os terreiros são a síntese da recomposição étnica territorial africana, compreendendo-as como fundamentais para a preservação de cosmogonias singulares, que sustentam a construção de modelos mentais distintos da racionalidade cartesiana ocidental, gerando formas próprias de conceber o mundo, o indivíduo e a sociedade.

Durante a mesa de abertura dos debates, o Prof. Dr. Kabenguele Munanga relembrou o papel colonizador do cristianismo na legitimação da escravização dos povos africanos, “onde o resultado esperado teria sido a perda total da sua identidade cultural, religiosa e de sua memória histórica”.

Apesar de todo esse histórico de opressão, Munanga cita que surpreendentemente esses povos e suas religiões resistiram. “Por isso, a religião constitui o núcleo mais duro, a partir do qual se organizou a resistência cultural afro-brasileira”.

MST doou mudas de Baobás dos Viveiros da Reforma Agrária Popular para os participantes. Foto: Nieves Rodrigues

A partir desse contexto histórico, o babalaô e professor Dr. Carlos Alberto Ivanir dos Santos (UFRJ) sinalizou a importância do encontro, “que pautou as tradições africanas, como também do dever de cidadania desses povos por seus direitos, em uma sociedade onde há muito preconceito, discriminação, intolerância religiosa e racismo”.

Entre as palestrantes convidadas, Macaé Evaristo apontou, que a partir de um levantamento nacional, foi constatado que 80% dos terreiros possuem membros que já foram vítimas diretas do racismo religioso, e apesar das violências que recaem sobre os povos de matriz africana, o poder ancestral continua vivo nas comunidades negras:

“A ancestralidade não é apenas memória. A ancestralidade é responsabilidade, é compromisso. A ancestralidade é projeto, porque as águas continuam correndo. Porque o Ègbé continua existindo, porque a memória continua produzindo futuro e porque o poder ancestral não ficou no passado. O poder ancestral continua abrindo caminho.” 

A deputada estadual de MG e ex-ministra dos Direitos Humanos, afirmou também que é preciso que os povos de terreiro participem das decisões sobre o nosso país, bem como que haja mulheres negras governando.

A anfitriã e uma das fundadoras do Ègbé, Makota Celinha Gonçalves, também destacou a importância das mulheres como mantenedoras do axé, e destacou que: “o poder é muito bom, mas ele precisa existir com sabedoria. E nós sabemos que nós somos poderosas e poderosos, mas nós precisamos aprender a usar esse poder.”

Como síntese do encontro, foram formuladas diretrizes a partir das rodas de debates, para que o encontro seja semente da construção de estratégias contracoloniais que alimentem o poder ancestral das comunidades de terreiro.

*Editado por Fernanda Alcântara