Agroecologia
Ciência e agroecologia apontam caminhos para reduzir emissões de metano no cultivo de arroz
Pesquisadores debateram técnicas de manejo e produção orgânica do MST na Semana de Ação Climática de Porto Alegre

Por Fabiana Reinholz
Do Brasil de Fato
Responsável por cerca de 70% da produção brasileira de arroz irrigado, o Rio Grande do Sul também concentra algumas das principais experiências do país voltadas à redução das emissões de metano associadas à cultura. O tema foi debatido nesta terça-feira (21), durante o painel “Menos Metano, Mais Futuro: segurança alimentar e inovação no cultivo de arroz”, que integrou a programação da 1ª Semana de Ação Climática de Porto Alegre (POACAW 2026).
Participaram da mesa a pesquisadora do Instituto Rio Grandense do Arroz (Irga) Mara Grohs; o coordenador da Iniciativa de Ciência do Clima do Imaflora, Gabriel Quintana; e o engenheiro agrônomo Edivane Portela, que atua no Programa Estadual de Produção de Arroz de Base Ecológica, em parceria com o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), no Assentamento Filhos de Sepé, em Viamão. A mediação foi da jornalista Maria Helena Martinho. O debate foi realizado pela organização Uma Gota no Oceano.
Na abertura, Martinho destacou que o arroz é um alimento essencial para mais da metade da população mundial e que produzir com menor impacto climático tornou-se um desafio estratégico diante da intensificação dos eventos extremos.
Segundo dados apresentados durante o encontro, aproximadamente 75% das emissões brasileiras de metano estão ligadas à agropecuária. Embora o arroz irrigado responda por menos de 2% dessas emissões, trata-se de uma atividade em que já existem tecnologias capazes de reduzir significativamente esse impacto sem comprometer a produção de alimentos.
Solo, água e planta: como reduzir as emissões de metano
Ao apresentar estudos desenvolvidos pelo Irga, Mara Grohs explicou que a emissão de metano em áreas alagadas é um processo natural, decorrente da decomposição da matéria orgânica em ambientes sem oxigênio. Segundo ela, a lavoura de arroz não produz o gás, mas a presença da planta favorece o transporte dele para a atmosfera.
“A lavoura de arroz não produz metano; quem produz é o solo. A presença da planta acaba favorecendo esse transporte”, afirmou.
Grohs explicou que isso ocorre porque a planta possui estruturas chamadas aerênquimas, canais que levam oxigênio da atmosfera até as raízes, permitindo o desenvolvimento em ambiente alagado. Esses mesmos canais também facilitam a saída do metano produzido no solo.
A partir dessa compreensão, o Irga passou a estudar formas de reduzir as emissões atuando sobre três elementos da produção: solo, água e planta. Uma das estratégias é o preparo antecipado do solo após a colheita. Quando a água é retirada da lavoura, a emissão de metano cessa imediatamente. Manter o solo drenado durante o inverno também reduz a formação do gás na safra seguinte.
De acordo com Grohs, essa prática pode reduzir em cerca de 25% as emissões da próxima safra, e aproximadamente 70% dos produtores gaúchos já adotam esse manejo.
Rotação de culturas reduz emissões e amplia a produtividade
Outra prática destacada foi a introdução de culturas de sequeiro, como soja, milho e girassol, nas áreas tradicionalmente ocupadas pelo arroz irrigado. Segundo a pesquisadora, quando o arroz retorna após esse período de rotação, o solo permanece mais tempo oxigenado, reduzindo a atividade anaeróbica responsável pela formação do metano.
Estudos apresentados pelo Irga apontam que essa estratégia permitiu reduzir em até 54% as emissões de metano e aumentar em cerca de 20% a produtividade das lavouras. “Essas práticas foram adotadas porque aumentam a produtividade e a rentabilidade do produtor. E, felizmente, elas também se mostraram mais sustentáveis do ponto de vista ambiental”, afirmou Grohs.
A pesquisadora também destacou o trabalho de melhoramento genético desenvolvido pelo instituto. Segundo ela, a cultivar IRGA 424 RI, uma das mais utilizadas no estado, apresenta emissão de aproximadamente 50% menos metano em comparação com outras cultivares.
Grohs explicou que o objetivo do programa nunca foi selecionar plantas com menor emissão de gases de efeito estufa, mas materiais mais produtivos e de ciclo mais curto. Como consequência, reduziu-se também o período de inundação das lavouras e, portanto, o tempo de formação do metano.
“O Irga selecionou plantas para serem mais produtivas no menor tempo possível. Se o ciclo é menor, o período de inundação também é menor e, consequentemente, há menor emissão de metano”, explicou.
Grohs lembrou ainda que, apesar da redução da área cultivada com arroz nas últimas décadas, a produção aumentou. Segundo ela, quando ingressou no Irga, há cerca de 12 anos, o Rio Grande do Sul cultivava aproximadamente 1,2 milhão de hectares. Hoje, a área varia entre 860 mil e 890 mil hectares, mas a quantidade produzida é maior.
“Estamos produzindo mais arroz em uma área menor e reduzindo a quantidade de carbono equivalente emitida por quilo de alimento produzido. Isso não tem preço; isso tem valor”, afirmou.

Produção agroecológica aposta na organização coletiva e na agregação de valor
Ao apresentar a experiência do Assentamento Filhos de Sepé, o engenheiro agrônomo Edivane Portela destacou que o maior polo contínuo de produção de arroz orgânico da América Latina demonstra ser possível conciliar produção de alimentos, organização social e conservação ambiental.
Segundo ele, ainda não há estudos específicos sobre as emissões de metano nas áreas de arroz orgânico, mas a experiência construída pelo MST mostra que a sustentabilidade vai além dos aspectos ambientais.
“O MST faz uma coisa de maluco, que eu chamo, que é reunir aqueles agricultores que estão à margem da sociedade e trazer para essas pessoas a ideia de que elas precisam buscar seu espaço e sua dignidade”, afirmou.
Portela ressaltou que o trabalho com as famílias vai além da assistência técnica, exigindo o fortalecimento da organização coletiva e o enfrentamento das dificuldades de escolarização e acesso ao conhecimento. “Muitas vezes, a parte técnica fica em segundo ou terceiro plano. Primeiro precisamos conversar, fortalecer as pessoas e trabalhar a organização”, explicou.
Na avaliação dele, as cooperativas são fundamentais para consolidar os assentamentos ao garantir beneficiamento, comercialização e agregação de valor ao arroz produzido. Conforme pontuou Portela, como a agricultura familiar não compete em escala, a diferenciação do produto torna-se essencial.
No assentamento, cerca de 1,6 mil hectares de arroz orgânico certificados permitem que as famílias recebam, em média, 30% acima do preço de mercado. Parte da produção abastece programas públicos, como o Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae).
Mudanças climáticas exigem respostas coletivas
Ao lembrar as enchentes de 2024, Portela contou que o assentamento sofreu menos impactos nas lavouras de arroz devido à elevação gradual das águas, mas registrou perdas importantes na produção de hortaliças. Durante a calamidade, a cooperativa participou da produção de mais de 50 mil refeições distribuídas por cozinhas solidárias.
“Os helicópteros buscavam as marmitas porque muitas regiões estavam isoladas. É uma imagem que nunca vou esquecer”, relatou.
Para ele, a experiência reforçou a importância da prevenção e da organização coletiva. “Precisamos trabalhar a prevenção e envolver toda a sociedade. Não basta agir apenas depois que o desastre acontece”, defendeu.
Na avaliação do agrônomo, viver em comunidade será cada vez mais importante para enfrentar esse cenário. “Essa necessidade de viver em comunidade vai ser fundamental para que consigamos superar essas questões”, afirmou.
Plano ABC+, Plano Clima e políticas públicas para reduzir emissões
Em sua intervenção, o coordenador da Iniciativa de Ciência do Clima do Imaflora, Gabriel Quintana, pontuou que o debate sobre o arroz irrigado deve ser inserido no contexto das metas climáticas brasileiras. Segundo ele, essa agenda antecede o próprio Acordo de Paris, tendo como referências o Plano ABC, iniciado em 2010, e o Plano ABC+, vigente entre 2020 e 2030.
“O Plano ABC+ é a política nacional de mitigação e adaptação da agropecuária brasileira. Ele mostra que essa preocupação já existia antes mesmo do Acordo de Paris”, afirmou.
Conforme apontou, embora o arroz irrigado ainda não apareça de forma específica no programa, diversas práticas previstas, como plantio direto, bioinsumos, rotação de culturas e sistemas integrados de produção, dialogam diretamente com a cultura. “Já existem discussões para que, no próximo ciclo, o arroz irrigado seja incorporado de forma mais específica”, informou.
O pesquisador explicou que o Plano ABC+ também orienta o Plano Clima e as metas brasileiras estabelecidas nas Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs). Para ele, não basta estabelecer metas: é preciso criar mecanismos de financiamento, assistência técnica e políticas públicas que permitam ampliar práticas já comprovadas no campo.
“Não basta saber quanto determinada prática reduz emissões. É preciso criar condições para que ela seja implementada e escalada”, defendeu.
Quintana afirmou ainda que a agricultura familiar deve estar contemplada nessas políticas e ressaltou a importância do monitoramento para orientar novas ações. “É importante reconhecer quem já desenvolve essas práticas e criar instrumentos para que outras propriedades possam adotá-las”, acrescentou.
Rio Grande do Sul concentra produção e também soluções
Quintana destacou que, embora o arroz irrigado represente menos de 2% das emissões brasileiras de metano, o Rio Grande do Sul concentra cerca de 70% da área cultivada e 74% da produção nacional, reunindo também experiências que podem servir de referência para outras regiões.
“O desafio é identificar quais medidas permitem reduzir essas emissões sem comprometer a produção de um alimento essencial para a segurança alimentar”, afirmou.
Segundo ele, a ampliação de práticas como o preparo antecipado do solo poderia reduzir cerca de 200 mil toneladas de metano até 2035, mantendo a produtividade.
Quintana também destacou a evolução da intensidade das emissões. “Na década de 1980, eram cerca de 84 quilos de metano por tonelada de arroz produzida. Em 2024, estamos falando em aproximadamente 37 quilos por tonelada”, comparou.
Para o pesquisador, esses resultados reforçam a importância de manter investimentos em pesquisa, monitoramento e políticas públicas capazes de ampliar práticas já consolidadas no campo.
Selo ambiental do Irga amplia certificação e acesso ao mercado de carbono
Mara Grohs apresentou o Selo Ambiental do Irga, criado há 16 anos para certificar produtores que adotam práticas sustentáveis. Segundo ela, a certificação, inicialmente voltada ao cumprimento da legislação ambiental, passou a incorporar critérios como manejo do solo, uso de bioinsumos, qualidade da água e redução das emissões. “Atualmente, 180 produtores de arroz são certificados”, informou.
Entre os critérios avaliados estão o preparo do solo, o plantio direto, o manejo da água, o uso de bioinsumos, a qualidade da água devolvida aos cursos d’água e a ausência de resíduos no grão.
“O técnico do Irga vai até a propriedade, coleta uma amostra da água, envia ao laboratório e o laboratório atesta a qualidade daquela água”, explicou Grohs.
A pesquisadora afirmou que a certificação passou a despertar o interesse do mercado de carbono por oferecer segurança quanto às práticas adotadas nas propriedades. “Alguém quer comprar o crédito de carbono gerado nessa propriedade, mas uma instituição idônea precisa certificar”, pontuou.
Segundo ela, nos últimos dois anos, Ambev e Nestlé, por meio da empresa Indigo Agricultura, adquiriram créditos de carbono de dez produtores gaúchos certificados pelo Irga. A pesquisadora acrescentou que o governo federal passou a reconhecer o selo para a concessão de benefícios em linhas de financiamento e citou um edital da Secretaria Estadual do Meio Ambiente voltado ao pagamento por serviços ambientais.
“O arroz foi o primeiro no país e o terceiro no mundo a ter um edital lançado para indenizar produtores pelos serviços ambientais que prestam”, afirmou.
Para Grohs, esses mecanismos reconhecem práticas que já aumentam a produtividade e passam a gerar retorno financeiro aos produtores. “O produtor vai adotar essas práticas porque elas aumentam a produtividade. Mas agora existe também uma oportunidade de rentabilizar isso como forma de reconhecimento pelos serviços ambientais que presta”, avaliou.
Agroecologia, organização social e adaptação climática
Nas considerações finais, Portela reforçou que a experiência dos assentamentos demonstra ser possível conciliar produção de alimentos, preservação ambiental, geração de renda e organização coletiva.
“Sem dúvida nenhuma, é possível desenvolver produção de alimento limpo, saudável, adequado e socialmente justo. A experiência que a gente vive pode ser multiplicada e trazer bons frutos para a nossa agricultura”, afirmou.
Ele também manifestou preocupação com a velocidade das mudanças climáticas. “Eu me preocupo um pouco com a velocidade como as coisas vêm acontecendo e com a nossa capacidade de responder a isso”, acrescentou.
Para Quintana, o enfrentamento da crise climática deve orientar as decisões em todos os setores. “A lente do enfrentamento da crise climática precisa permear a tomada de decisão de qualquer atividade, seja na produção de arroz, na pecuária ou no setor energético”, defendeu.
Na avaliação dele, experiências bem-sucedidas precisam deixar de ser exceções. “Que a exceção seja um exemplo a ser seguido, um exemplo a ser universalizado para qualquer tipo, tamanho e perfil de produtor”, afirmou.
Encerrando o debate, Grohs defendeu que a agropecuária seja analisada considerando tanto as emissões quanto a capacidade dos sistemas produtivos de remover carbono da atmosfera. “Quando existe uma planta respirando, existe uma planta sequestrando carbono”, disse.
Ela lembrou que pastagens e áreas cultivadas também exercem esse papel e concluiu com uma provocação sobre as emissões de outras atividades humanas. “Quando tem um gado emitindo metano, tem uma pastagem sendo manejada para sequestrar esse carbono. Agora, quando cada um de nós liga o carro e emite CO₂, sequestra como? Essa é a pergunta que eu deixo para todos pensarem”, concluiu.
Editado por: Marcelo Ferreira



