Dia da Árvore
MST em MG realiza semeadura para fortalecer restauração ecológica e enfrentamento à crise climática
Centenas de famílias e grupos de mulheres participam da coleta e conservação de espécies nativas para recuperar áreas degradadas

Da Página do MST
Como parte das ações do Mutirão Nacional em Defesa da Natureza e do Brasil, iniciado em 19 de setembro, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) em Minas Gerais realizou uma ação de semeadura no assentamento Ulisses Oliveira, em Jampruca, no Vale do Rio Doce. A atividade integra um conjunto de iniciativas de restauração ecológica desenvolvidas pelas famílias Sem Terra na região, que incluem o plantio de espécies nativas e frutíferas, coleta de sementes, formação junto às comunidades e atividades com escolas.
A ação utiliza a técnica conhecida como muvuca de sementes, que reúne diferentes espécies em uma mesma área para favorecer a regeneração natural, a recomposição da vegetação nativa e a recuperação da biodiversidade. As sementes utilizadas são provenientes, em parte, do trabalho desenvolvido pelos núcleos de coleta de sementes nativas da Mata Atlântica, organizados nos territórios da Bacia do Rio Doce.
Para Maíra Santiago, do Setor de Produção e coordenadora do Programa Popular de Agroecologia na Bacia do Vale do Rio Doce, as iniciativas de restauração estão articuladas à construção da agroecologia e da Reforma Agrária Popular a partir das experiências vivenciadas pelas comunidades.
“Passamos por momentos em que sentimos na pele os extremos climáticos. E a nossa proposta diante dos crimes ambientais e da crise climática é a agroecologia, é a Reforma Agrária Popular, que traz também a perspectiva das relações humanas.”
Coleta de sementes fortalece autonomia dos territórios

Atualmente, são oito núcleos de coletoras e coletores de sementes organizados nos territórios da Bacia do Rio Doce. Os grupos estão presentes nos assentamentos Belo Monte, Santa Martha e Santa Maria Monalisa, por meio do Núcleo AJUDAR; no assentamento Ulisses Oliveira, com o Núcleo Maritacas; nos assentamentos Manoel Ferreira e Janetes Teles, com os Núcleos Maracanã e Sabiá; além dos núcleos organizados nos assentamentos Egídio Brunetto, Roseli Nunes, Iraguiar e Primeiro de Junho.
As áreas de atuação estão distribuídas pelos municípios de Jampruca, Resplendor, Santa Maria do Suaçuí e Tumiritinga, reunindo mais de 400 coletoras e coletores envolvidos nas etapas de identificação, coleta, beneficiamento e conservação de sementes nativas.
O trabalho tem também como uma de suas marcas a participação das mulheres. A experiência do Grupo de Mulheres Coletoras do Núcleo Maritacas contribuiu para fortalecer a organização das mulheres na coleta e na conservação da biodiversidade, ampliando sua participação nas estratégias de restauração ecológica desenvolvidas nos territórios.
Para Lucinha Sem Terra, assentada e integrante do Núcleo Maritacas, a coleta de sementes representa a continuidade de práticas construídas pelas próprias famílias e uma forma de cuidado com a terra.
“Tenho achado na coleta de sementes um lugar que me representa. Temos a coleta de sementes como um objetivo de recuperação ambiental e de cura da nossa terra. A coleta só veio para somar naquilo que fazíamos, de fazer os viveiros de fundo de quintal, a possibilidade de colher nossas próprias sementes, de marcar e reconhecer nossas matrizes. Isso é muito importante.”
Técnica combina regeneração natural e plantio de sementes

No assentamento Ulisses Oliveira, a atividade também foi realizada em uma área de Condução da Regeneração Natural (CRN), onde o plantio direto de sementes is utilizado como estratégia complementar à recuperação da vegetação.
Segundo Fernando, supervisor de campo do Centro de Formação Francisca Veras (CFFV), “a área foi previamente alinhada, marcada e identificada por cores. Foram estabelecidas linhas com 12 metros de distância entre si e covas com espaçamento de dois metros. Cada cova, com dimensões de 40 por 40 centímetros, recebeu aproximadamente 20 gramas de sementes, reunindo diferentes espécies.”
A distribuição considera ainda os diferentes tamanhos das sementes. Em cada cova são utilizados pelo menos dois tipos, combinando sementes pequenas, médias ou grandes e respeitando suas características de manejo. De acordo com o técnico, por se tratar de uma área bastante impactada e com predominância de aroeira, foram utilizadas covas maiores e uma quantidade ampliada de sementes, buscando favorecer a recuperação da área e ampliar as possibilidades de regeneração da vegetação.
A estratégia combina a condução da regeneração natural com o plantio de sementes, contribuindo para a melhoria do solo, a recomposição da vegetação e a criação de condições favoráveis ao desenvolvimento das espécies nativas.
Ao todo, 436 famílias dos assentamentos Iraguiar, Roseli Nunes, Egídio Brunetto, Ulisses Oliveira, Belo Monte, Santa Martha, Santa Maria Monalisa e Manoel Ferreira participam das ações de coleta, produção e semeadura de sementes nos territórios.
Programa Popular de Agroecologia atua desde 2019

As ações fazem parte do Programa Popular de Agroecologia da Bacia do Vale do Rio Doce, construído pelo MST desde 2019 a partir da perspectiva de reparação integral e da construção de um novo modelo de produção e de desenvolvimento econômico na região.
Com financiamento do Termo de Transação e Ajustamento de Conduta (TTAC), firmado após o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, o programa desenvolve ações de restauração ambiental e agroecologia em territórios da Reforma Agrária atingidos pelos impactos do crime ambiental.
Até o momento, já foram 2 mil ha protegidos; 16 toneladas de sementes coletadas; 500.000 mudas de árvores nativas e frutíferas plantadas; 20 ha de pomares e olerícolas implementados; 643,16 hectares restaurados em lotes individuais; 1.422,57 hectares de Reserva Legal restaurados em áreas coletivas. Para o próximo período está previsto que o Programa plante 450 mil mudas de árvores frutíferas e nativas na região.
As iniciativas também estão relacionadas ao plano nacional do MST Plantar Árvores e Produzir Alimentos Saudáveis, que estabelece a meta de plantar 100 milhões de árvores em dez anos como contribuição ao enfrentamento da crise climática. Desde 2020, segundo dados do Movimento, já foram plantadas 45 milhões de mudas em todo o país.
Mutirão Nacional em Defesa da Natureza e do Brasil

Entre 19 de setembro e 3 de outubro, o MST realiza o Mutirão Nacional em Defesa da Natureza e do Brasil, com o lema “Reforma Agrária Popular é cuidar da natureza e defender o Brasil”.
De caráter formativo e organizativo, a mobilização reúne ações desenvolvidas nos territórios para fortalecer a Reforma Agrária Popular como instrumento de defesa da natureza, da biodiversidade e das comunidades. No Vale do Rio Doce, as iniciativas de coleta de sementes, restauração ecológica, agroecologia e produção de alimentos saudáveis integram esse processo de construção coletiva.
Mais do que recuperar áreas degradadas, as ações buscam fortalecer os conhecimentos construídos pelas famílias, a autonomia dos territórios e a participação das comunidades na conservação das espécies nativas e na construção de alternativas diante da crise climática.
*Editado por Fernanda Alcântara



