Festa da Conquista
Acampamento Ernesto Che Guevara celebra novo assentamento após 16 anos de luta, no MT
Após anos de luta, famílias Sem Terra celebram nesta sexta (14), desapropriação das fazendas Santa Cecília I e II, em Nova Olímpia; a comemoração também marca os 31 anos do MST no estado

Seguimos ocupando terra, derrubando cercas e conquistando o chão”.
Em tempos de concentração fundiária e desigualdade, a conquista do acampamento Ernesto Che Guevara, em assentamento reafirma a Reforma Agrária Popular como uma necessidade histórica para o povo brasileiro. Esse momento também marca a comemoração dos 31 anos do MST no Mato Grosso, que realizou sua primeira ocupação em MT em 1995.
E é com esse espírito da luta pela terra que as famílias do acampamento Ernesto Che Guevara celebram um dos momentos mais importantes de sua trajetória, pois no dia 26 de janeiro de 2026 foi decretada a desapropriação das fazendas Santa Cecília I e II no município de Nova Olímpia/MT.
O anúncio foi feito diretamente no 14º Encontro Nacional do MST, que reuniu aproximadamente 3 mil militantes de todo o país. Para as famílias do acampamento Che Guevara, aquele momento representou muito mais do que o anúncio de um decreto, foi a confirmação de que nenhuma conquista chega por acaso, pois cada pedaço de chão conquistado carrega a memória de quem resistiu, enfrentou as cercas da concentração e seguiu acreditando na força da organização coletiva e popular.

Montado em 2010, o acampamento Che Guevara resistiu ao tempo, às incertezas e aos desafios impostos pela demora no processo de desapropriação. Durante esse período, homens, mulheres, jovens, crianças e idosos escolheram permanecer organizados/as, mesmo quando o horizonte parecia distante.
Antônio Quintino de Campos, coordenador do acampamento, acompanhou essa trajetória desde o início, ele conta que mesmo diante das dificuldades e de momentos em que muitos acreditavam que a conquista não aconteceria, a organização permaneceu firme. “Jamais nós desistimos”, afirma ao lembrar que a permanência na área foi resultado da confiança no movimento e da luta.
Para o companheiro Valdir Alves da coordenação regional do MST, a desapropriação representa um marco para toda a região do médio Norte de Mato Grosso, que após mais de uma década sem novas conquistas territoriais, a consolidação do futuro assentamento fortalece a organização das famílias e renova a esperança e a chama que cria condições para que novas áreas também possam ser conquistadas.
Entre as histórias construídas ao longo dessa caminhada está a de Dona Noêmia, militante Sem Terra que passou por diferentes acampamentos, enfrentou despejos, violência e décadas de espera sem abandonar o sonho de conquistar a terra. E ao receber a notícia da desapropriação, a emoção tomou conta. Pois depois de tantos anos de luta, a vitória simboliza a possibilidade de plantar, colher, criar a família e deixar esse patrimônio para as próximas gerações, porque para ela, nunca valeu a pena desistir, pois sabia que a terra conquistada representava a realização de um sonho construído ao lado do companheiro (que infelizmente faleceu pouco antes da conquista) e de tantas outras famílias Sem Terra.
Fruto da organização popular e resistência
A desapropriação das fazendas Santa Cecília I e II reafirma que as conquistas da Reforma Agrária são fruto da organização popular, da persistência das famílias Sem Terra e da capacidade de transformar a luta coletiva em direitos.
Embalado por vitórias como essas que o MST de Mato Grosso se prepara para celebrar mais um marco de sua história, rumo aos 31 anos do Movimento. A festa será realizada no dia 14 de agosto, na área do atual acampamento Che Guevara e futuro assentamento, no município de Nova Olímpia, região médio Norte do Estado. Os 31 anos de história, resistência e conquistas em Mato Grosso, reafirmam o compromisso das famílias do MST com a luta pela terra, pela Reforma Agrária e por um campo com justiça social.

E se há algo que esses 31 anos nos ensinam é que a luta não termina quando a terra é conquistada. Pois cada conquista abre caminho para novas lutas, novos sonhos e novas possibilidades.
Ao longo dessa história são 47 assentamentos conquistados pelo Movimento Sem Terra no estado, com 180 mil hectares de terra redistribuídas e mais de 5 mil famílias assentadas. O chão conquistado pelas famílias Sem Terra carrega a memória de quem resistiu, de quem não desistiu e de quem acreditou que a terra pode cumprir sua função social e produzir vida.
E assim, entre cercas derrubadas, sonhos cultivados e territórios conquistados, o MST segue escrevendo sua história em Mato Grosso. Uma história feita por muitas mãos, muitas vozes e muitas vidas, que ao longo desses 31 anos aprenderam que ninguém conquista a terra sozinho e que nenhum direito é dado, porque tudo é fruto da organização, da resistência e da luta coletiva.
Para o MST, enquanto houver terra concentrada, haverá luta. Enquanto houver famílias Sem Terra, haverá organização. E enquanto houver esperança de construir um campo com dignidade, justiça e soberania, o MST seguirá ocupando, resistindo e conquistando o chão, pois só a luta faz valer nossos direitos!
*Editado por Solange Engelmann



