Há 30 anos

Sebastião Salgado registrou a ocupação que se tonou o maior complexo de Reforma Agrária da América Latina

Em 1996, o fotógrafo acompanhou a marcha de mais de 15 mil camponeses(as); Hoje, a área do antigo latifúndio é terra de produção de alimento, cultura, educação e dignidade para mais de 5.500 mil famílias

Momento da ocupação do maior latifúndio da América Latina, a Fazenda Giacomet-Marodin, no dia 17 de abril de 1996, registrado por Sebastião Salgado e publicado no livro Terra (1997)

Por Murilo Bernardon | setor de Comunicação e Cultura do MST-PR
Da Página do MST

Faltavam 15 minutos para as 6 horas da manhã. Ainda pouco se via da luz do sol quando uma coluna humana de crianças, mulheres e homens Sem Terra chegava na porteira da gigantesca Fazenda Giacomet-Marodin. Depois de três horas marchando pela madrugada, naquele 17 de abril de 1996, 15 mil pessoas ocuparam o maior latifúndio da América Latina e iniciaram uma luta que, anos depois, iria garantir a dignidade para mais de 5,5 mil famílias, assentadas e acampadas em 24 comunidades.

Às 6 horas em ponto, com a entrada segura, Sebastião Salgado, economista e fotógrafo mineiro, que havia acompanhado a organização da marcha de milhares de camponeses(as), eternizou o momento exato em que a cerca do latifúndio é rompida, abrindo caminho para a libertação da terra.

De fato, no marco de 30 anos da primeira ocupação, em um longo processo de lutas e conquistas de áreas para a Reforma Agrária, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva formaliza a criação de três novos assentamentos neste mesmo território, na região centro-sul do Paraná: Herdeiros da Terra de Primeiro de Maio, em Rio Bonito do Iguaçu; Dom Tomás Balduíno, de Quedas do Iguaçu e Palestina Livre, em Quedas do Iguaçu e Espigão Alto – beneficiando 2 mil famílias como o acesso à terra liberta. A maior conquista de assentamentos da história do MST.

Hoje, aquele espaço que havia sido grilado para se tornar um latifúndio improdutivo e de extração de madeira, com um único dono, virou o maior complexo de comunidades da Reforma Agrária da América Latina, produzindo alimento e vida digna.

A visita de Sebastião Salgado

Sebastião Salgado chegou no dia 15 de abril de 1996, uma segunda-feira, em Curitiba, com a missão de registrar a ocupação de um latifúndio de cerca de 83 mil hectares de extensão, a Fazenda Giacomet-Marodin, e a vida comunitária em um dos maiores acampamentos da Reforma Agrária do país. 

O fotógrafo foi de carro até Laranjeiras do Sul (PR), acompanhado por Roberto Baggio, que hoje faz parte da direção nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) – uma viagem de cerca de 360 km. Lá, conheceu um dos acampamentos situados no entorno do latifúndio, com cerca de 2,6 mil famílias. 

Baggio conviveu com Salgado durante três dias e lembra o período em detalhes. “Ele ficou dois dias fotografando as famílias, as reuniões, tirava foto das crianças brincando, conversava com as pessoas, bem calmo, assim, afetuoso. Ele era aquela faísca acesa”, conta. 

Os dois dias que antecederam a marcha em direção à sede da fazenda foram de chuva intensa e frio, conta o militante. Como a região é mais baixa em relação ao relevo local, uma cerração densa se formava durante as noites. 

No mapa da região é possível ver o trajeto da Marcha da Coluna Humana, com caminhada realizada de Laranjeiras do Sul, a Norte, até o local aproximado do local da ocupação, e de Saudade do Iguaçu, a Sul. Fonte: , Google Maps

A Marcha da Coluna Humana – batizada assim por Sebastião Salgado – partiu de dois acampamentos em direção à sede do latifúndio. Um, de Laranjeiras do Sul, onde estava o fotógrafo, e outro próximo a Saudade do Iguaçu (PR), no outro sentido da estrada que ligava as cidades.

“Imagina uma fazenda que na prática tinha 100 mil hectares, atinge cinco municípios e era terra pública, que a União repassou para a empresa Giacomet-Marodin, para eles construírem a estrada de ferro, que nunca construíram. Era um grande latifúndio improdutivo, apenas para a exploração de madeira”, explica Baggio.

Depois de organizar seus pertences e materiais para montar acampamento, as famílias Sem Terra se preparavam para partir. Era necessário cautela, para evitar que a marcha fosse bloqueada ou atacada. “Na época, o INCRA [Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária] fez o cadastro, deu 3.300 famílias, em torno de 15 mil pessoas. Imagina um acampamento de 15 mil pessoas. Ah, vamos contratar ônibus, caminhão – impossível. Logo ia vazar, e a polícia ia impedir. E o pessoal falou, ‘não, essa ocupação vamos fazer caminhando’. E de fato, foi uma ocupação feita caminhando à noite”, conta Baggio.

Na madrugada fria do dia 17 de abril, uma coluna silenciosa de 15 mil Sem Terra saiu, carregando nas mãos as ferramentas de trabalho e nas costas seus sacos de colchão e de roupa, para ocupar o maior latifúndio da região sul do Brasil. 

A Coluna Humana, depois de uma caminhada de três horas, chegou ao portão da Fazenda Giacomet-Marodin perto do amanhecer. Todos esperaram 15 minutos pelo nascer do sol, apesar da neblina e da baixa temperatura. Às 6 horas em ponto, os militantes à frente da marcha arrebentaram o cadeado da porteira, abrindo aquela terra para a entrada de mais de 3 mil famílias camponesas, que nunca mais saíram.

Salgado, que já havia cruzado a cerca com ajuda de uma equipe do MST, registrou o momento exato da ocupação, em que um camponês erguia sua foice, em sinal de vitória. Atrás, uma fileira de milhares de trabalhadores seguia por quilômetros da PR 158. Baggio, que naquele momento se somava à marcha, destaca: “A foto, na essência, capta essa força humana em movimento, ardente e massiva, de pobres, excluídos, massacrados marchando com o desejo de repartir a terra e, a partir do seu trabalho, ter o que comer”.

O fotógrafo acompanhou toda a caminhada – as fotos tiradas nesses três dias fazem parte do livro Terra (1997), realizado em conjunto com o escritor José Saramago e o cantor Chico Buarque. Por meio da doação dos direitos das imagens do livro ao MST, o fotógrafo ajudou a construir a Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF), do Movimento, em Guararema (SP).

A ocupação da Fazenda Giacomet-Marodin marcou o início de uma longa luta pela terra na região. Nos anos seguintes, neste território foram criados os assentamentos Ireno Alves e Celso Furtado, abrigando mais de 2 mil famílias assentadas da Reforma Agrária. Hoje, esta região concentra o maior complexo de Reforma Agrária da América Latina, com mais de 5,5 mil famílias em 24 comunidades.

No mesmo dia, o Massacre de Eldorado do Carajás

No mesmo 17 de abril de 1996, às 5 horas da tarde, uma outra cena marcaria a luta pela terra no Brasil. Enquanto os Sem Terra ocupavam a Fazenda Giacomet-Marodin, a Polícia Militar emboscava uma mobilização de camponeses no Sul do Pará, que rumava a Belém (PA)  – 19 trabalhadores Sem Terra morreram no local do ataque. Naquele dia, quando chegou a notícia do massacre, Salgado foi às pressas para o aeroporto de Foz do Iguaçu, rumo ao Norte do país. Chegou no dia seguinte e fotografou o cortejo e o velório dos trabalhadores rurais assassinados.

Registro do velório dos 21 camponeses mortos no Massacre de Eldorado do Carajás, feito por Sebastião Salgado, também parte do livro Terra (1997)

A emboscada das forças policiais – Polícia Militar, na Curva do S, deixou ao todo 21 Sem Terra mortos e 79 feridos. “No Sul, aqui no Paraná, uma marcha humana rompe as cercas, entra no latifúndio e conquista um extraordinário assentamento. E na contradição, em outro canto do Brasil, a violência brutal do Estado brasileiro ceifa a vida de 21 militantes e deixa uma centena de mutilados”, relembra Baggio.

“Salgado registrou em foto o que o aparato do Estado brasileiro vem fazendo com os camponeses desde 1500. Fizeram isso com os indígenas, fizeram isso com os quilombolas, fizeram isso com os camponeses pobres e continua, até hoje, usando a violência para coibir o avanço da Reforma Agrária”, complementa.

O dia 17 de abril se tornou o Dia Nacional da Luta pela Terra no Brasil, e a Via Campesina Internacional adotou a data como o Dia Internacional da Luta Camponesa. O direito à terra e a Reforma Agrária no Brasil estão previstos na Constituição Federal de 1988, que entende que a terra deve cumprir uma função social, ou seja, não pode ser improdutiva.

Os anos 1990 de luta e repressão

Os anos 1990, no campo brasileiro, foram marcados por episódios de extrema violência por parte do Estado e do latifúndio. A ditadura havia acabado – mas, como é sabido no Brasil, as estruturas de repressão dos militares nunca foram completamente extintas, apenas incluídas a uma democracia tímida. Para o povo pobre e marginalizado, os instrumentos de repressão permaneceram intocados no novo sistema político. 

Na década de 1990, a luta pela terra no Brasil foi marcada por numerosas ocupações de milhares de camponeses em grandes latifúndios e também pela tentativa do Estado, com uso de violência, de frear o crescimento rápido e massivo do MST em todo o país. No Paraná, segundo conjunto de relatórios da Comissão Pastoral da Terra (CPT) e do MST, entre os anos de 1994 e 2002 ocorreram 502 prisões de trabalhadores rurais, 324 lesões corporais, 7 trabalhadores vítimas de tortura, 47 ameaçados de morte, 31 tentativas de homicídio, 16 assassinatos e 134 despejos violentos.

Do ponto de vista político, os anos 1990 foram de forte imposição do neoliberalismo. No âmbito federal, presidentes como Fernando Collor (1990-1992) e Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) tiveram governos de transição para adaptar o Brasil aos interesses do projeto neoliberal. Em conjunto com a burguesia, o aparato do Estado promovia no mundo urbano uma ofensiva de privatizações – também retirada de direitos, repressão a greves, entre outros ataques à classe trabalhadora.

No campo, o objetivo era modernizar o latifúndio, para preservar a histórica concentração fundiária do Brasil. Ou seja, uma modernização na técnica, sem contudo alterar as velhas estruturas de poder, concentração de terras e de exploração do trabalhador e da natureza. Para isso, era necessário expulsar milhares de trabalhadores do campo, para esvaziá-lo, e transformar a terra no espaço de reserva do capital na agricultura.

“Se for ver na essência, até os anos 1990 a grande maioria das propriedades rurais no Brasil não cumpriam a função social. Era um grande país improdutivo. Aquele grande latifúndio largado. O desafio do Estado era: ‘precisamos de um tempo para incorporar a dinâmica capitalista, se não toda essa terra vira terra da Reforma Agrária’”, descreve Baggio. 

Vitória das mãos calejadas

Neste 3 de julho de 2026, quase 30 anos após a ocupação histórica e o Massacre de Carajás, o MST do Paraná celebrou a conquista de 33 mil hectares de terra, daquela antiga área de madeireira, que foram formalizados como três novos assentamentos. As famílias camponesas beneficiadas – 2 mil, ao todo, acampadas há cerca de dez anos – são em parte formadas por filhas, filhos e familiares dos milhares de Sem Terra que ocuparam o latifúndio em 1996.

Joceli Borges, que tinha apenas cinco anos à época, foi fotografada por Sebastião Salgado durante a marcha, naquele ano. Hoje, ela vive com a família no assentamento Herdeiros da Terra de Primeiro de Maio, uma das áreas que foram oficialmente reconhecidas como assentamento da Reforma Agrária.

Joceli Borges, com cinco anos, fotografada por Sebastião Salgado em 1996 – a imagem se tornaria capa do livro Terra (1997)

Joceli relata um passado de dificuldade e muita luta no acampamento que ficou conhecido como “Buraco”, local onde se organizou o início da ocupação. Seus pais foram assentados na comunidade Ireno Alves – o que, segundo ela, “foi uma transformação total, tiveram a vida digna deles em cima de um pedaço de terra”.

“Foi aqui que eu encontrei dignidade. Aqui que eu encontrei a vida que tenho hoje, aqui que eu dei continuidade a luta dos meus pais, e onde eu quero que meus filhos prossigam também pra ajudar outras famílias. Eu não tive os estudos completos, mas a minha filha vai ser professora. Eu quero que eles nunca desistam dessa luta”, conta a agora assentada.

Joceli é coordenadora de um grupo na comunidade onde vive, o grupo Nova União, no agora assentamento Herdeiros da Terra de Primeiro de Maio, também em Rio Bonito do Iguaçu. “É com luta que a gente chega onde precisa. A gente continua tudo unido, um braço segura o outro e é assim que a gente segue”, declara.

Celebração no espaço comunitário da Herdeiros da Terra de Primeiro de Maio, em 3 de julho de 2026. Foto: Danielson Postinguer

Esse episódio da história dos Sem Terra no Paraná, captado através das lentes de Sebastião Salgado, se transformou em um símbolo da luta pela Reforma Agrária no Brasil. Ao longo dessas três décadas, a luta pela terra na região envolveu enfrentamentos violentos com jagunços e o aparato do Estado a serviço dos latifundiários. Mas os camponeses resistiram e conquistaram novos espaços, transformando o que era um grande latifúndio improdutivo em terra de produção de alimentos e renda para mais famílias Sem Terra.

Ao menos parte de toda aquela área havia sido obtida através de grilagem pelo grupo Giacomet-Marodin. Em 2017, o Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4) declarou nulos os títulos de propriedade da madeireira Araupel ocupada pelo MST, confirmando a prática de grilagem.

Sebastião Salgado faleceu no dia 23 de maio de 2025, aos 81 anos, em Paris, na França. Junto com Lélia Wanick Salgado, arquiteta e sua companheira, fundou o Instituto Terra, que atua na recuperação de áreas da Mata Atlântica, com sede em Aimorés (MG), cidade natal do economista.

Para Baggio, Salgado foi “um ser altamente solidário, generoso, extraordinário, que registrou essa luta histórica desse tempo da época de 1990. Nossa gratidão eterna, onde quer que esteja – a sua alma, as suas ideias, a sua fotografia, continuam nos iluminando, nos apoiando para a gente avançar, para repartir a terra no Brasil, produzir comida e cuidar do meio ambiente.”

Colagem que une passado e presente da luta pela terra. Fotos: Danielson Postinguer e Sebastião Salgado

Na festa da conquista das novas áreas, as famílias receberam um cartaz como lembrança dessa vitória popular, fruto de uma luta que tem memória e que atravessa gerações. A colagem mescla a fotografia histórica de Sebastião Salgado e a imagem do presente, de Danielson Postinguer, fotógrafo e morador da Herdeiros da Terra de Primeiro de Maio. O passado segue vivo nos rostos, nos passos e na organização do povo Sem Terra.

Como nota, em seu livro, Salgado também relatou o que viu e fotografou: 

“Era impressionante a coluna dos sem-terra, formada por mais de 12 mil pessoas, ou seja, 3 mil famílias, em marcha na noite fria daquele início de inverno no Paraná. O exército de camponeses avançava em silêncio quase completo. Escutava-se apenas o arfar regular de peitos acostumados a grandes esforços e o ruído surdo dos pés que tocavam o asfalto.

Pelo rumo que seguia a corrente, não era difícil imaginar que o destino final fosse a Fazenda Giacometi, um dos imensos latifúndios tão típicos do Brasil. Marginalmente explorados, esses latifúndios, todavia, em razão das dimensões colossais, garantem aos seus proprietários rendas milionárias. Corretamente utilizados, os 83 mil hectares da Fazenda Giacometti poderiam proporcionar uma vida digna aos 12 mil seres que marchavam naquele momento em sua direção.

Anda rápido um camponês: 22 quilômetros foram cobertos em menos de cinco horas. Quando chegaram lá, o dia começava a nascer. A madrugada estava envolta em espessa serração que, pouco a pouco, foi se deslocado na terra, sob o efeito da umidade do Rio Iguaçu, que corre ali bem próximo. Pois o rio de camponeses que correu pelo asfalto noite adentro, ao desembocar defronte da porteira da fazenda, para e se espalha como as águas de uma barragem. As crianças e as mulheres são logo afastadas para o fundo da represa humana, enquanto os homens tomam posição bem na frente da linha imaginária para o eventual confronto com os jagunços da fazenda.

Ante a inexistência de reação por parte do pequeno exército do latifúndio, os homens da vanguarda arrebentam o cadeado e a porteira se escancara; entram; atrás, o rio de camponeses se põe novamente em movimento; foices, enxadas e bandeiras se erguem na avalanche incontida das esperanças nesse reencontro com a vida — e o grito reprimido do povo sem-terra ecoa uníssono na claridade do novo dia: REFORMA AGRÁRIA, UMA LUTA DE TODOS!”

*Editado por Solange Engelmann