Caminhada de fé

Carta dos Evangélicos e Evangélicas do MST

Documento é resultado do 1º Encontro dos Evangélicos e Evangélicas Sem Terra do MST na Bahia, com o tema "Fé, Terra e Democracia: Terra prometida é Terra compartilhada", realizado de 1 a 15 de agosto, em Salvador

Foto: Mateus Silva

Da Página do MST

Companheiras e companheiros, 

A Bíblia é o símbolo sagrado da nossa fé, e nossa bandeira é o símbolo sagrado da nossa luta! 

Escrevemos esta carta como evangélicos e evangélicas que vivem, trabalham e lutam nos acampamentos e assentamentos da Reforma Agrária. Reunidos e reunidas no 1º Encontro dos Evangélicos e Evangélicas Sem Terra do MST na Bahia, somos mais de 100 pessoas, vindas de diferentes territórios, igrejas e experiências de fé e de luta. 

Este encontro, realizado na Bahia, ultrapassou nossas fronteiras e contou também com a presença de companheiros e companheiras dos estados do Rio Grande do Norte, Sergipe, Minas Gerais e Pará, fortalecendo a troca de experiências e mostrando que essa caminhada está presente em diferentes partes do país. 

Entre nós, estiveram representadas 48 denominações evangélicas, revelando a diversidade que existe entre os evangélicos e evangélicas que constroem o MST. É a partir dessa diversidade, mas também daquilo que nos une, a fé, a identidade Sem Terra e o compromisso com a luta pela terra e pela dignidade do nosso povo, que escrevemos esta carta. 

Foto: MST BA

Não escrevemos de fora do Movimento. Somos todos(as/es) Sem Terra. Estamos na produção, nas assembleias, nos núcleos de base, nas escolas do campo, nas ocupações, nos coletivos de mulheres e de juventude, nas cozinhas coletivas e nas marchas. Muitos de nós carregamos as duas coisas na mesma vida: a Bíblia embaixo do braço e a enxada na mão, o boné do MST na segunda-feira e o culto no domingo. Alguns de nós fomos batizados dentro do acampamento, embaixo da lona preta, e ali mesmo aprendemos a orar e a lutar. 

Escrevemos porque sabemos que existe hoje um debate no Movimento sobre o crescimento das igrejas evangélicas nos nossos territórios. Achamos bom que esse debate exista. E queremos participar dele, não como assunto que os outros analisam, mas como sujeitos que têm palavra a dizer. De onde vem a nossa fé na luta pela terra. 

Não precisamos abandonar a nossa fé para lutar pela Reforma Agrária Popular. É a nossa fé que nos empurra para essa luta. Quando abrimos as Escrituras, encontramos que a terra não é mercadoria: “A terra não se venderá para sempre, porque a terra é minha; vós sois estrangeiros e peregrinos comigo” (Levítico 25.23). Encontramos a denúncia contra a concentração fundiária: “Ai dos que ajuntam casa a casa e campo a campo, até que não haja mais lugar” (Isaías 5.8).

Encontramos a promessa de que cada família terá seu pedaço de chão e ninguém para amedrontá-la (Miquéias 4.4). Encontramos o anúncio de boas novas aos pobres e de libertação aos oprimidos (Lucas 4.18). Encontramos uma comunidade que partilhava tudo e onde não havia necessitados entre eles (Atos 4.32-35). E encontramos o clamor do salário retido dos trabalhadores do campo (Tiago 5.4)

Latifúndio improdutivo em país onde há gente com fome não é apenas injustiça social. Para nós, é pecado.

Reconhecemos e honramos a caminhada dos irmãos católicos que, pelas Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e pela Comissão Pastoral da Terra (CPT), ajudaram a parir este Movimento e derramaram sangue por ele. E lembramos que houve também evangélicos nessa caminhada, em experiências ecumênicas, no trabalho bíblico popular, pastores e pastoras que abriram os templos para acolher famílias despejadas quando ninguém mais abria. 

Nossos Compromissos

1. Com a Reforma Agrária Popular – Lutamos por terra para produzir alimentos saudáveis, água limpa, sementes crioulas e agroecologia. A terra não é mercadoria, é dom de Deus para ser partilhada. Repudiamos o latifúndio improdutivo, o veneno, o desmatamento e a expulsão das famílias. “A terra não se venderá para sempre, porque a terra é minha” (Levítico 25:23)“Ai dos que ajuntam casa a casa e campo a campo” (Isaías 5:8). 

2. Com a Casa Comum e a Justiça Climática – Assumimos cuidar da criação: rios, matas, animais e sementes. Enfrentar a crise climática é defender os mais pobres. A agroecologia é prática de fé e resistência contra o modelo que adoece a terra. A mudança climática não é culpa ou vontade de Deus, é ação humana, resultado do individualismo, da procura do lucro acima de tudo. Da exploração do homem e da natureza. 

O Senhor Deus colocou o homem no jardim para cultivá-lo e guardá-lo” (Gênesis 2:15). “A criação geme como em dores de parto” (Romanos 8:22).

3. Com a Organização do Povo e a Democracia – Comprometemo-nos com assembleias, núcleos de base, setores, cooperativas e marchas. Vamos formar lideranças, votar, fiscalizar e ocupar espaços de decisão. Fé sem organização não transforma. A luta pela terra e a luta pelo céu, precisam andar de mãos dadas, em joelho, oração e ações. Não seremos uma força política se não afirmarmos o papel dos evangélicos e evangélicas do MST. “Aprendam a fazer o bem; busquem a justiça” (Isaías 1:17). “Não deixemos de congregar-nos” (Hebreus 10:25). 

4. Com o Acolhimento e a Liberdade Religiosa – O MST é a casa de evangélicos, católicos, povos de terreiro, indígenas, espíritas e quem não tem fé. Defenderemos a liberdade religiosa e a convivência. Repudiamos a intolerância, os ataques a templos e terreiros. Repudiamos também qualquer tipo de ataque a nossa forma de professar nossa fé, somos várias denominações que servem a um mesmo Deus, mas professam sua fé de formas diferentes. “Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Mateus 22:39). “Em Cristo não há… pois todos vocês são um” (Gálatas 3:28). 

5. Com a Verdade do Evangelho e o Enfrentamento – Denunciamos quem usa o púlpito para abençoar o agronegócio, votar contra a Reforma Agrária e criminalizar a luta. Também combatemos o evangelho da prosperidade que esquece do povo. Faremos esse debate nas igrejas com coragem e amor. Deus veio, e é para todos, não há como justificar a miséria como um propósito de Deus. “Não podem servir a Deus e ao dinheiro” (Mateus 6:24). “O salário dos trabalhadores… clama contra vocês” (Tiago 5:40). 

6. Com as Mulheres e o Fim da Violência – As mulheres são maioria na igreja e a coluna do Movimento. Comprometemo-nos a combater o machismo, a todos os tipos de violência, preconceito e todo o uso da Bíblia para justificar a submissão. Lutamos por igualdade, protagonismo e autonomia das mulheres no lote, na igreja e na direção. “Já não há homem nem mulher, pois todos são um em Cristo” (Gálatas 3:28). “Maridos, amai vossas mulheres como Cristo amou a igreja” (Efésios 5:25).

7. Com as Crianças e a Juventude Sem Terra – Não afastaremos nossos filhos da ciranda, das Jornadas Sem Terrinha, das Escolas do Campo, da mística e da cultura. Formaremos nossos jovens para a fé, a luta, a comunicação e a arte. Eles são profetas do tempo presente. “Ensina a criança no caminho em que deve andar” (Provérbios 22:6). “Nenhum despreze a tua mocidade” (1 Timóteo 4:12).

8. Com a Paz, a Reconciliação e a Memória – Seremos promotores de paz. Resolveremos conflitos com diálogo e justiça restaurativa. Honraremos a memória de quem ocupou, resistiu ao despejo e tombou. Contaremos essa história para as novas gerações. “Bem-aventurados os pacificadores” (Mateus 5:9). “Lembra-te dos dias da antiguidade” (Deuteronômio 32:7). 

9. Com a Soberania Alimentar e a Saúde do Povo – Produzir comida de verdade é nossa missão. Comprometemo-nos com as cozinhas coletivas e solidárias, as feiras camponesas da Reforma Agrária, bancos de sementes e alimentação nas escolas. Nosso corpo é templo e não aceitamos alimento com veneno. “Dei a vocês toda planta que dá semente” (Gênesis 1:29). “O corpo de vocês é santuário do Espírito Santo” (1 Coríntios 6:19).

Seguiremos caminhando

Esta carta não é um ponto final. É o início de uma caminhada que queremos construir e fortalecer dentro do Movimento Sem Terra. Nós, evangélicos e evangélicas Sem Terra da Bahia, queremos continuar nos encontrando, estudando a Palavra, refletindo sobre a nossa realidade, fortalecendo nossa organização e colocando nossa fé a serviço da vida, da justiça e da dignidade do nosso povo. 

Não queremos ser vistos apenas como um desafio a ser compreendido dentro dos nossos territórios. Queremos ser reconhecidos como parte viva desta organização, com a nossa fé, nossa história e, sobretudo, com disposição para construir. Somos trabalhadores e trabalhadoras Sem Terra que professam a fé evangélica e que encontraram na luta coletiva um caminho para transformar a realidade. 

Por isso, queremos também estar presentes nas programações, nos momentos culturais, nas místicas, nos cursos de formação e nos demais espaços construídos pelo Movimento. Não como um processo de evangelização ou de imposição da nossa fé, mas como expressão e representação cultural de um povo que existe, que faz parte desta organização e que professa sua fé dentro do Movimento. 

Queremos que nossa presença, nossa identidade e nossas formas de expressar a fé também possam ser reconhecidas e respeitadas como parte da diversidade que constitui o povo Sem Terra. Queremos construir pontes, e não muros. Queremos dialogar com quem pensa diferente de nós, caminhar ao lado das diferentes expressões de fé presentes nos nossos territórios e contribuir para que nenhum tipo de intolerância divida aquilo que a luta e a necessidade de justiça nos ensinaram a construir juntos. 

Ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, reafirmamos: somos parte desta história. A Reforma Agrária também é a nossa causa. A defesa da terra, da água, das sementes, da educação do campo e da dignidade das famílias trabalhadoras também é expressão da nossa fé.

Seguiremos com a Bíblia nas mãos, os pés no chão e o coração junto ao nosso povo. Seguiremos orando, trabalhando, plantando, organizando e lutando, porque acreditamos em um Evangelho que produz vida e em uma fé que não nos afasta das dores do povo, mas nos chama a caminhar com ele. 

Como nos ensina a Palavra: “Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos.” (Mateus 5.6) .

Que Deus nos dê sabedoria para dialogar, coragem para permanecer na luta e amor para cuidar uns dos outros. Somos evangélicos e evangélicas. Somos trabalhadores e trabalhadoras. Somos Sem Terra. E seguimos firmes na fé, na organização e na luta por terra, justiça e dignidade para o nosso povo. 

1º Encontro dos Evangélicos e Evangélicas Sem Terra do MST da Bahia 
Bahia, agosto de 2026