Plenária Nacional lança as candidaturas que defendem a Reforma Agrária rumo às eleições de 2026
MST reúne parlamentares, mais de 50 candidaturas e direções partidárias para reafirmar a luta pela terra como projeto de país

Da Página do MST
Nesta terça-feira, 18 de agosto, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) reuniu, em Plenária Nacional, dezenas de parlamentares, pré-candidatas e pré-candidatos a governos estaduais, senado, câmara federal e assembleias legislativas, além de direções partidárias que assumem publicamente o compromisso com a Reforma Agrária Popular como bandeira para as eleições de 2026. Mais do que um encontro virtual de largada de campanha, a plenária teve tom de chamado pela disputa eleitoral que se aproxima.
A abertura, conduzida por Ayala Ferreira e João Paulo, da Direção Nacional do MST, deu o tom da defesa da Reforma Agrária Popular e do horizonte do comunismo como projeto histórico de superação das desigualdades que marcam o campo e a cidade brasileiras, reafirmação de uma linha política construída ao longo de mais de quatro décadas de luta pela terra e pela soberania do povo.
O que uniu todas as vozes ontem foi a certeza de que não existe projeto de nação soberana sem democratizar o acesso à terra. Em meio à crise climática, à concentração fundiária e ao avanço do agronegócio exportador, o MST reafirmou que a Reforma Agrária Popular segue sendo resposta concreta para a produção de alimentos saudáveis, a geração de renda no campo e o enfrentamento da fome que voltou a rondar milhões de famílias nos anos do governo Bolsonaro, deixando feridas até hoje.
A plenária virtual começou com a divulgação de um vídeo sobre a plataforma para as eleições de 2026, seguida de uma análise de conjuntura apresentada por Edinho Silva, presidente nacional do PT. Longe de ser um discurso para “motivar a militância”, como frisou, a intervenção buscou expor com clareza os desafios que o campo popular enfrenta em escala mundial.
Segundo Edinho, o diagnóstico de hoje mostra como a extrema-direita avança em quase todos os continentes. Na Holanda, forças de direita crescem eleitoralmente; na França, Macron luta para manter governabilidade diante da extrema-direita; na Alemanha, partidos de matriz nazista já são a segunda maior força política; na Espanha, a centro-esquerda enfrenta dificuldades crescentes; e em Portugal, o parlamento passou a ter maioria de direita. Esse quadro é reflexo de uma crise estrutural do capitalismo, arrastada desde 2008, que continua impedindo a retomada do crescimento e da distribuição global de renda.
Soma-se a isso o fenômeno da inteligência artificial e das big techs como instrumentos de aprofundamento dessa crise, produzindo um sentimento antissistema funcional aos interesses da extrema-direita. O exemplo mais contundente, segundo Edinho, foi o das sete eleições recentes na América Latina: em todas, o campo identificado com Donald Trump saiu vitorioso, seja por ingerência direta das big techs, seja por intervenção política explícita fazendo de Trumpo a maior liderança fascista do século XXI.
Paula Coradi, presidenta nacional do PSOL, lembrou a trajetória de resistência construída pelo partido ao lado do MST, do golpe contra Dilma à prisão política de Lula, passando pelo governo Bolsonaro. Ela ainda afirmou que a crise climática só será enfrentada se caminhar ao lado da justiça social e ambiental, unindo a pauta ambiental à pauta da terra e do trabalho.

Nádia Campeão, presidenta nacional do PCdoB, aprofundou o alerta e afirmou que, mesmo havendo razões para acreditar na derrota de Lula, o Brasil pode enfrentar uma eleição dura por conta da interferência de Trump e seus aliados, cujos próximos movimentos ainda são incertos: “muita vigilância e capacidade de agir rapidamente” são exigidas de todo o campo democrático.
Diante desse cenário, a plenária reafirmou as conquistas concretas do governo atual como base material para a disputa. A retomada do Minha Casa Minha Vida, a reconstrução de políticas públicas destruídas nos anos de desmonte e a recuperação de direitos sociais foram apontadas como forma de discutir com o campo popular o futuro do país. Edinho apresentou os riscos da disputa uma vez que a esquerda latino-americana, em experiências recentes, perdeu eleições justamente nos temas de corrupção e segurança pública, pautas que precisam ser enfrentadas com reforma política e respostas populares, não com a repetição do discurso conservador.
Representando a coordenação da campanha de reeleição de Lula, Edinho resumiu o espírito de combatividade necessário. Essa combatividade se expressou na demonstração pública de unidade entre diferentes forças do campo popular. Paula Coradi, pelo PSOL, reforçou o compromisso de reconstruir, com força e coragem, uma ampla maioria democrática capaz de apresentar ao Brasil um projeto que não deixe ninguém para trás. Nádia Campeão, pelo PCdoB, reforçou: “É muito importante que estejamos juntos, em unidade e conscientes do que vamos enfrentar. Temos ótimos representantes e lideranças que toparam a missão de ir pra luta, deixando pra trás tudo o que nos dividiu, e olhando para o futuro com um objetivo maior!”
Trabalho de base: sem territorializar a luta, não há mudança

Segundo João Pedro Stedile, da Direção Nacional do MST, recado do MST passa por muitas frentes. “Temos que estimular o movimento de massas. Sem isso, não temos novas lideranças e forças políticas para fazer as mudanças, e só o povo organizado faz mudança!” A frase parte da compreensão histórica do MST de que nenhuma conquista popular, da terra à moradia, veio de cima para baixo: todas foram arrancadas pela organização e pela pressão constante dos trabalhadores.
Ao afirmar que os Estados Unidos, como potência hegemônica, já não conseguem mais oferecer ao mundo uma perspectiva de futuro, Stedile defende que “é nesse vácuo que caberá aos países do Sul Global, e ao Brasil em particular, apresentar um horizonte civilizatório distinto, um projeto popular de desenvolvimento com soberania, justiça social e democracia.”

Para Stedile, as campanhas precisam ser, antes de tudo, educativas. “Sem conscientização social não há eleição que se sustente. Isso significa levar para dentro da campanha bandeiras ainda pendentes de conquista, como a redução da jornada de trabalho, a gratuidade do transporte público e a geração de emprego digno para a juventude”. Ele debateu também a necessidade de colar as ideias de Lula às ideias de país, com destaque para a reindustrialização como caminho para reorganizar o parque produtivo nacional a serviço do povo, e não apenas da exportação de commodities.
Sem trabalho de base, sem ir na periferia, não vamos alterar a correlação de força. Não é só ganhar a eleição, mas preparar nosso povo para as lutas que seguirão. Temos que abandonar o discurso engessado dos palanques tradicionais para investir na arte e na cultura popular como ferramentas de disputa de consciência. É a cultura que mobiliza”.
– João Pedro Stedile.
Por fim, João Pedro reafirmou o compromisso internacionalista histórico do MST, em especial a solidariedade aos três povos que “seguem nas trincheiras da resistência ao imperialismo e ao bloqueio: Cuba, Venezuela e Haiti”. Stedile lembrou que mais de dois milhões de cubanos já assinaram petições ao Supremo Tribunal Federal pedindo o fim de medidas de bloqueio à ilha, reforçando a compreensão de que a luta pela terra no Brasil não se dissocia da luta mais ampla pela soberania latino-americana e caribenha.
Diante desse quadro, a mensagem final foi de que se precisa agora é coragem para eleger uma bancada comprometida com a Reforma Agrária Popular e a soberania nacional, sem se prender ao arcabouço fiscal que, historicamente, tem sido usado para travar políticas públicas essenciais ao povo trabalhador.
A bancada do povo: parlamentares, candidatas e candidatos
A força da Plenária Nacional também se expressou na quantidade e na diversidade de mandatos e pré-candidaturas presentes, vindos de todas as regiões do país. Compuseram a mesa de saudações parlamentares como Airton Faleiro, Nilto Tatto, Marcon, Adão Pretto, Ana Pimentel, Mauro Rubens, Cida Ramos, Maria do Rosário, Fernanda Melchionna, Samia Bonfim, Valmir Assunção, Missias, Lindbergh Farias, Paulo Teixeira, Renato Roseno, Barranco, Ronaldo, Rosa Amorim, Natália Bonavides, Elton Welter, Talíria Petrone, Lenir de Assis, Tarcísio Motta, João Daniel e Adriana Accorsi — um mosaico de deputadas e deputados federais e estaduais que, vindos do PT, do PSOL e de outras legendas do campo popular, reforçaram o mesmo compromisso: colocar seus mandatos a serviço da Reforma Agrária Popular e da defesa da democracia.
Ao lado desses mandatos já consolidados, a plenária também apresentou ao país o time de pré-candidaturas que carregará essa bandeira nas urnas em 2026. Entre eles, Edgar Pretto, pré-candidato a vice-governador no Rio Grande do Sul; Isolda, no Ceará; Tainá de Paula, vereadora carioca que disputa uma vaga federal; Simão Pedro, em São Paulo; Luíza Cela, também pré-candidata federal pelo Ceará; Jessy Dayane, em São Paulo; Rosa Neide, em Mato Grosso; Nísia Trindade, ex-ministra da Saúde, que se lança pré-candidata federal pelo Rio de Janeiro; Saulo Dantas, na Paraíba; Tijolão, em Rondônia; Alfredo Costa, vereador de Belém que disputa a Câmara Federal pelo PT no Pará; Pablo, do próprio MST, pré-candidato a deputado estadual pelo PT no Pará; Jô Oliveira, vereadora de Campina Grande e pré-candidata estadual pelo PCdoB; Célio Rodrigues, no Paraná; Daniel Valença, vereador de Natal que disputa o estadual; Brisa Bracchi, também vereadora de Natal, em disputa pela Câmara Federal; Izael do Sinteal e Pastor Wellington, ambos pré-candidatos federais pelo PT em Alagoas; Teca Nelma, vereadora de Maceió que disputa o estadual alagoano; e Beto Vizzotto, no Paraná.
Para os governos estaduais, a plenária celebrou a pré-candidatura de Elmano ao governo do Ceará pelo PT, dando sequência a um projeto de gestão que tem sido referência nacional em políticas sociais. Já para o Senado, três nomes de mulheres participaram como expressão direta da aliança entre o campo popular e a Reforma Agrária: Manuela D’Ávila, pelo PSOL no Rio Grande do Sul; Cíntia Dias, também pelo PSOL, em Goiás; e Isaura Lemos, pelo PSB, igualmente em Goiás.
Rumo a 2026: a unidade como estratégia de sobrevivência democrática
Ao final das apresentações e debates, análises e saudações, a Plenária Nacional das Candidaturas que apoiam a Reforma Agrária deixou claro que 2026 não será apenas mais um pleito eleitoral, mas novamente um teste decisivo para a democracia brasileira diante do avanço internacional do fascismo, da crise estrutural do capitalismo e da ofensiva das big techs sobre a consciência popular.
O recado final foi de esperança organizada, pois os Sem Terra sabem que não há tempo ruim diante da força de um povo que sabe converter resistência em conquista. Do acampamento à Câmara dos Deputados, da ocupação de terra improdutiva à disputa por uma cadeira no Senado, o MST e seus aliados deixaram claro que não há Reforma Agrária sem povo na rua, e não tem Brasil soberano sem democratizar a terra. É preciso territorializar a campanha, ocupar as consciências e mostrar que o nosso projeto de futuro é o que põe comida saudável na mesa e dignidade no campo. A luta por 2026 já começou, e ela passa, necessariamente, pelas mãos de quem produz a vida.



