Questão Agrária
Uma família salva pela solidariedade e a memória de Eldorado dos Carajás
Trinta anos depois do massacre, Makota Celinha Gonçalves relembra os meses em que ajudou a proteger uma família sobrevivente em Belo Horizonte (MG) e a força da solidariedade entre trabalhadores para garantir sua segurança e recomeço

Por Makota Celinha Gonçalves
Da Página do MST
Parece que foi ontem, mas lá se vão 30 anos daquele dia 17 de abril de 1996, dia do massacre de Eldorado dos Carajás, um dos mais violentos e covardes ataques a Trabalhadores Rurais Sem Terra, quando 21 trabalhadores foram cruelmente assassinados numa “operação militar”, se é que podemos assim chamar um covarde ataque a trabalhadoras/es que defendiam seus direitos a terra, trabalho e moradia. Esta é uma daquelas datas que nunca podemos esquecer.
Lembro que Calazans era o Presidente da CUT Minas e eu trabalhava no Sindicato dos Marceneiros, era uma época de muitas lutas e mobilizações, FHC era presidente do país. O movimento sindical muito ativo na luta por melhores condições de trabalho, condições dignas de vida e soberania nacional. O massacre de Eldorado dos Carajás criou uma grande comoção nacional e toda a esquerda brasileira veio às ruas para denunciar a truculência da polícia e a inércia do governo. Em MG a CUT Minas era muito ativa em todas estas lutas. Carlos Calazans Presidente da CUT Minas me chamou até a sede da CUT e me deu uma tarefa: proteger uma família sobrevivente do massacre que chegaria a BH: Pai, mãe, filho e filha, a jovem por uma coincidência do destino chamava se Célia, como eu. O que nos facilitou a vida na tarefa de protege-los.
Pensamos o que fazer sem que colocássemos em risco a segurança destas pessoas e acabamos por alugar um desses apartamentos temporais na zona sul em nome de Célia Gonçalves sem levantar nenhuma suspeita. O apartamento alugado já era mobiliado e com pagamento antecipado foi simples conseguir o abrigo para aquelas pessoas tão sofridas, que por milagre conseguiram escapar da morte em uma terra distante, lá na região norte do país. Quem ia adivinhar que junto a classe média de BH haveria uma família de sem-terra? Difícil acreditar nisso, mas ali bem perto da antiga FAFICH morava Célia e seus pais e eu era a incumbida de levar alimentos, produtos de higiene e etc. Quando o irmão chegou, a família ficou completa, eu ia todos os dias até o apartamento, colocava o lixo para fora, buscava pão e dava uma cara de moradia normal ao local e a família ficava o dia todo fechada nesse lugar até as coisas esfriarem.
Assim passaram se os meses, e em determinado momento a família precisou ser removida do local por questão de segurança e começaram a serem preparadas as estratégias de retorno deles para sua terra, as coisas estavam mais tranquilas e eles já podiam retornar e assim tentarem recomeçar suas vidas apesar dos pesares.
Célia resolveu ficar em BH, foi morar na região de Contagem. Nunca mais nos encontramos. Seus pais e irmão, retornaram ao Acre, numa ação planejada. Foi alugado um carro que sairia de BH, até São Paulo e lá em SP outro carro que seguiria em viagem.
Sei que eles chegaram bem, e com certeza foram reintegrados a luta cotidiana com segurança que só a organização dos trabalhadores e trabalhadoras pode oferecer a quem luta e defende a vida. Hoje passados 30 anos desse grande crime perpetrado pelo Estado, relembro esta história de luta, resistência e solidariedade. Muito mais, para colocar como nossas ações coletivas de proteção e cuidado são fundamentais para a luta cotidiana. O MST hoje é esta potência social, mas se forjou em lutas e dores constantes e que faz da memória um ato de resistência, luta e fé.
*Editado por Mariana Luccisano



