Aromas de Março

Nem testosterona, nem destino: O que quebrada me ensinou sobre desaprender a ser homem

Na coluna Aromas de Março deste mês, artigo desafia os homens a abandonarem armaduras antigas para recuperar a humanidade perdida

Foto: Reprodução/Uninter
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Por Carlos Silva*
Da Página do MST

Cresci num lugar onde “homem não chora” não era frase de efeito. Era regra de casa, repetida no quintal, na fila do pão, na boca de gente que eu admirava. E o mais curioso é que ninguém precisava dizer “engole o choro” pra mim. Aprendia com o olhar, com a pressa, com o jeito que a conversa mudava de assunto quando o assunto doía. Aprendi cedo que o meu medo não tinha endereço dentro daquela casa.

O que eu vivi na porta de casa, muita gente viveu atrás de outra porta, com outro endereço, outro sobrenome. A régua muda, a lição é a mesma.

Aí veio o rap. E aqui eu preciso parar, porque essa parte da minha história me constrange até hoje. O rap me deu voz, me deu referência, me ensinou a nomear a injustiça num país que insiste em me fazer invisível. Mas me ensinou também, por baixo, a repetir o mesmo que me sufocava. Quantas letras que eu escrevi falavam de respeito que se impõe, de postura que não recua, de homem que não dá mole? Eu estava reproduzindo, com o microfone na mão, o senso comum patriarcal que jurava estar combatendo. Não é confortável admitir. Mas se eu vou cobrar mudança de outro homem, tenho que começar cobrando de mim.

E não parou no microfone. Levei isso comigo pra militância, pros vinte e seis anos que venho circulando entre movimento social, organização popular, luta que se define, no discurso, como o oposto de tudo que eu vinha desaprendendo. E ainda assim, quantas assembleias em que falávamos por cima das companheiras, ocupávamos o tempo de fala sem perceber que estávamos ocupando, explicávamos pra ela a própria pauta que ela tinha levantado? A gente carrega bandeira vermelha, discute classe com propriedade, sabe de cor a teoria da opressão e mesmo assim, na hora da coordenação, na hora de decidir quem fala primeiro e quem lava a louça depois da reunião, o corpo reproduz o de sempre.

O mais covarde nisso tudo é que ali a violência não vem com farda nem com grito. Vem embrulhada em discurso de companheirismo. É o camarada que cita autor ou autora que criticam a monogamia pra justificar pegar geral sem nenhuma responsabilidade afetiva, travestindo de “superação da propriedade privada” o que é, na prática, covardia disfarçada de teoria. É o mesmo camarada que faz questão de dizer que entende a dupla jornada da mulher trabalhadora, e na prática segue monopolizando a palavra, segue achando que seu silêncio ocasional já é generosidade suficiente, segue deixando pras companheiras o trabalho invisível de segurar o coletivo.

Descobri, incomodado, que é bem mais fácil reconhecer o machismo no inimigo de classe do que reconhecer ele vestindo a nossa própria bandeira. Foi um dos aprendizados mais difíceis desses anos: entender que nem a luta mais justa está imune a reproduzir a opressão que diz combater, às vezes com mais verniz, e por isso mais difícil de apontar o dedo.

Porque a violência masculina não nasce no hormônio e não nasce no destino. Nasce num currículo invisível que a gente vai cumprindo desde cedo, sem perceber que é um currículo. A testosterona existe, claro. Mas ela não explica por que um menino aprende a esconder o choro e outro não, por que numa casa o afeto é acolhido e na outra é motivo de piada. Claro que a testosterona existe, mas ela não vem com manual de instrução impresso no DNA. É aprendizado puro, absorvido na marra.

Na adolescência, a didática ganha reforço do grupo. Aí a masculinidade vira prova, e prova a gente estuda com medo de reprovar. O garoto que demonstra sensibilidade aprende rápido que isso custa caro, que vira alvo, que o grupo cobra. E o grupo é cruel porque também é formado por meninos assustados. A gente policia o otro pra não ser policiado. Impõe respeito pela força porque é o atalho mais curto que conhecemos, e a maioria dos meninos da quebrada não conhece outro atalho.

Isso não é exclusividade de quebrada; troca o cenário, troca a farda, e a mesma cartilha se repete no colégio particular, no condomínio fechado, no time de elite. Muda o sotaque, não muda o roteiro.

A vida adulta não resolve nada disso. Ela só automatiza. No trabalho, o profissional inabalável. Na resenha do futebol, no churrasco, no grupo de mensagem, o espaço é sempre pra piada, pra esporte, pra política. Quase nunca pra pergunta que importa: “você tá bem de verdade?” E em casa pesa o papel de pilar, de protetor que não pode demonstrar cansaço, porque demonstrar cansaço, nesse roteiro, é deixar a casa cair.

Aí a gente se orgulha de ser o sexo racional, em oposição à mulher emotiva, instável, “descontrolada”, o estereótipo de sempre. A filosofia me deu instrumento pra desmontar essa separação. Mas foi ouvindo as camaradas do feminismo que entendi o tamanho da conta que isso gera: o medo de andar na rua à noite, o trabalho invisível de segurar a casa inteira emocionalmente, a cobrança de adivinhar o que a gente nem sabe nomear, o cansaço de ouvir “homem é assim mesmo” como desculpa pronta pra tudo.

Juntando essas duas pontas, a crítica ao mito da razão masculina e a denúncia de quem paga a conta dele, cheguei numa conclusão que me desmontou: esconder o que sente sob a promessa de controle não tem nada de racional. O sentimento não some. Ele troca de nome. Vira estresse, vira fechamento, vira aquela explosão de raiva que atinge justamente quem tá mais perto, quem mais nos ama.

Tem um fenômeno que me dói observar, e eu já vivi por dentro: a solidão acompanhada. A gente vive cercado de gente o dia inteiro no zap, na rua, no bar, e continua num deserto. Porque solidão não é estar sozinho, é não ter onde soltar a frase mais proibida do vocabulário masculino: ‘eu não estou aguentando’.

E aqui eu quero ser cuidadoso, porque é um nó espinhoso. Como é que a gente acolhe o cara sem passar a mão na cabeça? O tribunal da internet adora um cancelamento rápido, e pra muita gente a única resposta é o sumiço do mapa. Mas a régua nunca pesou igual…” e mais adiante trocar o conceito formal por uma atitude: “O desafio é cobrar o prejuízo que o cara causou sem achar que ele virou monstro irrecuperável. Quem erra tem que pagar o preço, mas precisa ter uma porta aberta para aprender a ser gente grande.

Por isso aposto numa terceira via, que a gente ainda nem sabe nomear direito: responsabilização sem desumanização. Acreditar que um homem pode mudar exige mais rigor do que acreditar no oposto, não tem nada de ingênuo nisso. É apostar numa ideia que a filosofia me ensinou e que a rua confirmou: a gente é capaz de aprender, de reparar, de virar outra coisa. Quem errou precisa encarar as consequências, reconhecer o dano. Mas precisa também de uma porta aberta pra aprender a ser diferente. Interromper o ciclo sem fechar a porta. É isso.

Desaprender o homem dos moldes antigos não significa perder quem a gente é. É largar uma armadura que nunca serviu pra nada, só pesava. E se a insensibilidade foi aprendida, a mudança também se aprende, em gestos pequenos, no dia a dia. Começa em dar nome ao que a gente sente, sair do “tá tudo bem” automático antes que o cansaço vire raiva. Depois vem a parte mais dura: encarar o estrago, reconhecer quando a postura fechada machucou alguém, e ter a hombridade de consertar o que der. E no cotidiano é isso, conversa sincera com os amigos, aprender a escutar sem já ir rebatendo, deixar o cuidado entrar sem se sentir menos homem por causa disso.

Fazer isso sozinho é quase impossível, porque fomos treinados justamente pra resolver tudo isolados, e é essa mesma solidão que tem terreno fértil pra quem quer nos vender resposta fácil. Precisamos ocupar esse vazio antes que ele seja ocupado por quem lucra com ele. Porque enquanto a gente demora a organizar o cuidado, o campo conservador não demora nada em organizar o ressentimento: influenciador vendendo curso de “macho alfa”, guru de autoajuda misturando estoicismo requentado com misoginia envernizada, discurso que promete devolver ao homem um poder que ele nunca devia ter tido sobre o corpo e a vida de ninguém. Tem gente lucrando, literalmente, com a dor que a gente não soube acolher. Enquanto a esquerda demora a olhar para esse buraco, o campo do ódio nada de braçada.

Por isso a roda de conversa, como o AVÁ em João Pessoa, importa tanto, mas ela não devia ser exceção, devia ser regra, multiplicada em formato. Ter núcleo de homens dentro de movimento social, discutindo masculinidade na mesma pauta que discute terra e trabalho. Ter oficina de paternidade ativa, questionando o pai ausente não como traço de caráter, mas como função que o próprio sistema ensinou a esvaziar. Ter círculo de homens negros reconstruindo ancestralidade, porque pra muito de nós a masculinidade que herdamos já veio sequestrada, arrancada da raiz, e reconstruir é também resgatar aquilo que o racismo tentou apagar. Ter até WhatsApp de bairro, de time de várzea, de torcida organizada, onde dá pra plantar uma pergunta diferente no meio da resenha de sempre. O formato importa menos que o gesto: criar espaços onde homens possam dizer a verdade sem precisar primeiro provar que são homens, são essenciais para mudar esse quadro.

Juntos fica mais fácil construir outra masculinidade, ou pelo menos saber o que deixar pra trás. E é urgente que a esquerda leve essa disputa a sério, porque é uma disputa que vamos perder por omissão se não entrarmos nela com a mesma seriedade com que entramos em qualquer outra luta de classe. Mudar dá trabalho. Exige coragem. Pedir ajuda dá vergonha antes de dar alívio, mas é talvez a coisa mais adulta que um homem pode fazer. Quando a gente larga a ilusão de ser inabalável, deixa de ser refém da própria armadura. Talvez masculinidade não seja prova nenhuma. No fim das contas, largar essa armadura pesada não é perder a marra, é só recuperar a humanidade que a gente deixou pelo caminho. A masculinidade não precisa ser prova de ferro o tempo todo. Talvez seja só isso, meio atrasado mesmo: um bando de marmanjo aprendendo, enfim, a sentar numa roda e falar a verdade.

*Carlos Silva é poeta, MC e integrante do grupo paulistano de rap Comando Criminal. Formado em Filosofia, encontra na cultura hip-hop, na palavra e na militância espaços de resistência, reflexão crítica e transformação social. Em João Pessoa (PB), integra o AVÁ, grupo de homens dedicado à reflexão sobre as masculinidades e à construção de caminhos para superar o machismo e a masculinidade tóxica. É esposo de Miriam e padrasto de Miguel.

**Editado por Fernanda Alcântara