Aromas de Março

O que o legado de Tereza de Benguela e Lélia Gonzalez nos ensinam sobre o 25 de Julho?

A data denuncia as violências contra as mulheres negras e reafirma a importância da luta coletiva contra o racismo, sexismo e às desigualdades; no Brasil também marca o Dia Nacional de Tereza de Benguela

Tereza de Benguela, líder quilombola. Imagem: Reprodução web

Por Elizana Monteiro, Paula França e Aline Luana Oliveira
Da Página do MST

O dia 25 de julho não é apenas uma data comemorativa, mas, acima de tudo, trata-se de um marco político da luta das mulheres negras da América Latina e do Caribe. Instituída em 1992, em Santo Domingo, na República Dominicana, durante o 1º Encontro de Mulheres Afro-Latino-Americanas e Afro-Caribenhas, a data nasce da urgência de denunciar as muitas violências impostas às mulheres negras e de afirmar uma agenda coletiva de enfrentamento ao racismo, ao sexismo e às desigualdades de classe.

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No Brasil, o 25 de julho também é reconhecido como o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra, por meio da Lei nº 12.987/2014, que reafirma o papel das mulheres negras na construção e manutenção de projetos de liberdade, dignidade e justiça social.

As opressões que nos atravessam são interseccionais, pois a raça, gênero, classe, território, sexualidade e geração se entrelaçam na vida concreta. O feminismo negro segue sendo uma ferramenta política fundamental para todas nós. Ao mostrar que as mulheres negras ocupam a base da pirâmide social, esse pensamento não apenas evidencia uma posição histórica de exploração, mas também revela a força de corpos e saberes que sustentam a vida, a cultura e a resistência coletiva. Quando as mulheres negras se movem, movem também as estruturas mais profundas da sociedade, porque questionam a ordem que naturaliza a desigualdade e a violência.

A filósofa, antropóloga, professora e ativista, Lélia Gonzalez foi pioneira ao formular, no Brasil, uma crítica à articulação entre racismo e sexismo, desmontando o mito da democracia racial e denunciando como o patriarcado e o colonialismo organizam a vida social. Sua trajetória no movimento negro e no movimento feminista foi marcada e ligada à experiência histórica do povo negro. Ao afirmar que a emancipação das mulheres negras exige enfrentar, ao mesmo tempo, o racismo, o sexismo e a exploração de classe, Lélia nos deixou uma chave de leitura essencial para compreender o país e transformar a realidade.

Muito antes da interseccionalidade obter importância na academia, Lélia Gonzalez já mostrava que a condição das mulheres negras exige uma leitura capaz de unir opressões estruturais e práticas de resistência. Sua crítica ao feminismo branco, muitas vezes incapaz de compreender o peso do racismo na vida das mulheres negras, e ao movimento negro, quando reproduzia práticas patriarcais e silenciava as mulheres, continua atual e necessária. Ao valorizar a cultura negra, a ancestralidade afrodiaspórica e a linguagem produzida pelas populações marginais, ela construiu uma teoria insurgente, comprometida com a libertação feminina.

O 25 de julho nos traz também a memória de Tereza de Benguela, que se inscreve nessa luta mediante uma longa história de resistência. Tereza foi uma líder quilombola do século XVIII e governou o Quilombo do Quariterê, na região do vale do Guaporé, no Mato Grosso. Sua trajetória rompe com as narrativas coloniais que tentaram empurrar as mulheres negras para a invisibilidade.

Tereza foi estrategista militar, dirigente política e símbolo da liberdade negra. Sob sua liderança, o quilombo organizou formas próprias de economia, defesa do território, em uma experiência que enfrentou de maneira direta a lógica escravista e colonial.

Mesmo cercada por lacunas da história, produzidas pela própria violência do apagamento histórico, Tereza de Benguela permanece como uma referência da luta antirracista e antipatriarcal no Brasil. Sua liderança à frente de uma comunidade formada por negros, negras, indígenas mostra que a resistência quilombola não era apenas fuga, mas também construção concreta de outro projeto de sociedade.

Ao relembrar o legado de Tereza, afirmamos que as mulheres negras sempre estiveram na linha de frente das batalhas por liberdade, autonomia e justiça, ainda que a história oficial tenha tentado apagar o nosso protagonismo.

Nos dias de hoje, a vida das mulheres negras continua atravessada por violências materiais e simbólicas que atualizam a herança colonial. Somos as mais afetadas pela precarização do trabalho, pela desigualdade salarial, pela violência obstétrica, pelo feminicídio, pelo genocídio da juventude negra, pelo racismo institucional e pela exclusão dos espaços de poder e decisão. Também somos as que enfrentam, todos os dias, o controle sobre os nossos corpos, a desvalorização da nossa estética, o silenciamento de nossas vozes e a tentativa constante de limitar nossa produção intelectual, artística e política.

Ser mulher negra no Brasil exige audácia, coragem, memória e organização. Por isso, o 25 de Julho precisa ser vivido como memória, denúncia e anúncio.”

Nós, mulheres negras, carregamos no corpo a marca histórica da escravidão e nas mãos a força de quem faz brotar nesse chão a vida e o alimento. Nossa luta pela Reforma Agrária Popular representa o confronto direto e inevitável pela terra, pela raça e classe. Uma batalha de vida e libertação para destruir a estrutura racista, machista e capitalista que tenta nos invisibilizar.

Estamos em cada lona preta que erguemos, em cada semente crioula que lançamos ao chão, que representam um ato revolucionário de amor e resistência. Brotamos das mesmas raízes de Lélia Gonzalez, Tereza de Benguela, Marielle Franco, Dandara e tantas outras.

Nossa presença nos territórios de Reforma Agrária, não é apenas resistência: é proposta de mundo. A luta pela Reforma Agrária Popular e pela agroecologia é também a luta feminista e antirracista, ao reposicionar a terra como bem comum e reconhecer os saberes tradicionais das mulheres negras e quilombolas, guardiãs de sementes, de rituais e de cuidados.

Defender a soberania alimentar é defender vidas negras, é disputar o sentido da produção de alimentos, transformando trabalho em dignidade, conhecimento em autonomia e solidariedade em política. Que essa memória nos fortaleça e nos guie: cultivemos a terra, os saberes e o futuro juntas, negras e livres!

*Elizana Monteiro dos Santos é militante do setor de formação do MST no DFE, assentada em Unaí MG, educadora do campo e faz parte do Coletivo Terra, Raça e Classe. / Paula França é militante do Coletivo Nacional de Educação do MST, integra o Coletivo Terra, Raça e Classe, contribuiu na Brigada Samora Machel na Zâmbia e, atualmente faz parte da Brigada Nacional Joaquin Piñero, em Maricá. / Aline Luana Oliveira é militante do MST no PR, educadora popular e integra a coordenação nacional do MST pelo Coletivo LGBTI+ Sem Terra, e o Coletivo Terra, Raça e Classe.

**Editado por Solange Engelmann