Agroecologia nas escolas do campo: construção do futuro feita à mão e sem permissão

“Os alimentos são a base de sustentação da vida humana, toda ela e em qualquer tempo ou forma social. E sua produção é o objetivo principal da agricultura.”

 

Por Roseli Salete Caldart*
Do Sul 21

O ano novo chegou contaminado por problemas velhos e graves. Problemas da conjuntura particular do nosso país em estado de golpe e problemas estruturais da ordem social capitalista em crise e cada vez mais insana. O momento é de avanço devastador das desigualdades e injustiças sociais, de destruição da natureza e do ser humano, com obstáculos ostensivos à construção de alternativas, especialmente quando tendem a processos coletivos de emancipação social.

Mas 2017 pode inaugurar um novo ciclo no desenvolvimento das contradições da velha ordem e reabrir o caminho para uma agenda de transformações mais radicais. As crises carregam possibilidades contraditórias que as lutas dos trabalhadores organizados têm o desafio de ampliar.

Uma destas possibilidades contraditórias vem hoje do campo e é de interesse geral da sociedade. Trata-se do avanço organizado da resistência camponesa à ordem perversa do capital para a agricultura, que multiplica práticas e conhecimentos, e firma traços de uma forma de produzir alimentos que é portadora de futuro para a humanidade.

Os alimentos são a base de sustentação da vida humana, toda ela e em qualquer tempo ou forma social. E sua produção é o objetivo principal da agricultura. Fazer uma produção agrícola fundamentada no estudo da vida, ecologicamente equilibrada, socialmente justa, economicamente viável e culturalmente adequada é o objetivo que liga agricultura camponesa e agroecologia.

Práticas de base agroecológica são uma realidade cada vez mais respeitada em todo o mundo e nos dão pistas importantes sobre o futuro. O desafio deste século é seu desenvolvimento em larga escala e a vinculação orgânica com forças que lutam por um novo projeto de sociedade.

Tratamos aqui de um sinal importante no trilhar deste caminho: a entrada da agroecologia nas escolas de educação básica, como parte dos processos de territorialização da agricultura camponesa. Em diferentes lugares do país, crianças e jovens do campo se inserem em práticas que vinculam agricultura, educação alimentar, saúde e diversidade cultural, exercitando formas de produção e de socialização que respeitam a vida, das plantas, dos animais, dos solos, das pessoas. Desde pequenas iniciativas, professores e estudantes passam a se interessar pelo estudo dos fundamentos da agroecologia e a compreender sua construção histórica no seio das contradições do capitalismo.

A agroecologia junta camponeses e cientistas em sua construção. Ela sistematiza, no plano do conhecimento científico, o estágio atual de articulação de estudos e práticas que confrontam o modelo industrial capitalista de fazer agricultura, hoje conhecido como “agronegócio”. Este modelo ainda é dominante e hegemônico, mas está em crise porque os danos ambientais, sociais e humanos de sua lógica começam a ser percebidos mais amplamente e já afetam até mesmo a viabilidade econômica do “negócio da agricultura”.

O capital já sabe que seu modelo atual de agricultura, das monoculturas e dos insumos artificiais está com o prazo de validade vencido. Apenas busca prolongá-lo ao máximo, enquanto desova todo o arsenal produzido pela sua indústria. Por isso a atuação das empresas do agro está mais agressiva.

No Brasil o poder do agronegócio de dificultar o avanço da agricultura camponesa agroecológica ainda é enorme. Nosso país continua como campeão no uso de agrotóxicos e é visto no mundo com potencialidade de expansão dos negócios das empresas que produzem venenos e sementes transgênicas para grandes e devastadoras monoculturas.

Mas estas mesmas empresas já redirecionam investigações científicas para ajustar seu modelo tecnológico sem mexer no seu DNA: agricultura como negócio e alimentos como mercadoria. Nessas novas investidas, empresários “modernos” e instituições da ordem capitalista têm se apropriado de técnicas e linguagens criadas no âmbito da agroecologia, cooptando cientistas e agricultores para o “agronegócio verde”. Agem para desconfigurar a constituição essencial e os sujeitos construtores da agroecologia e contam com a incapacidade da população (e dos próprios camponeses) para entender as diferenças de classe e de lógica que contrapõe estas visões de futuro.

Agroecologia camponesa e agronegócio são inconciliáveis. A agroecologia trata a agricultura com uma visão de longo prazo, incompatível com as necessidades imediatas do negócio capitalista. Na agricultura camponesa agroecologia se junta com soberania alimentar, socialização da propriedade da terra, diversidade cultural e diferentes formas de trabalho camponês associado. Sua realização radical implica na superação das relações de exploração do ser humano e da natureza.

A agroecologia como parte do projeto de classe dos trabalhadores não existe sem os camponeses que por sua vez precisam de formação política e agroecológica para avançar em seu modo próprio de fazer agricultura. Por isso a educação das novas gerações, na escola e fora dela, é imprescindível ao avanço da agroecologia e das forças produtivas da agricultura, na direção de um desenvolvimento humano igualitário e sustentável.

Por sua vez, a agroecologia faz bem para a educação. Sua progressiva entrada nas escolas do campo fortalece um caminho formativo muito importante, da desalienação do ser humano, que inclui compreender as contradições e novas possibilidades que existem em torno da atividade vital de produzir e consumir alimentos.

A desalienação do ser humano é fundamental para formar nas novas gerações a consciência sobre a necessidade de superar hábitos cotidianos consumistas, individualistas e imediatistas, típicos do modo de vida capitalista. Não há agroecologia sem essa mudança. Não há luta pelo socialismo sem uma nova postura diante da sustentação da vida pelo trabalho.

Mas inserir a agroecologia na educação básica não significa antecipar a formação técnica da juventude para o trabalho na agricultura, reduzindo o horizonte formativo pela vinculação rasa do projeto educativo das escolas com o mercado de trabalho capitalista. Ao contrário, tratar seriamente a agroecologia na escola expressa e provoca a exigência de uma formação geral ampla, ao mesmo tempo universal e enraizada em cada comunidade, na diversidade própria à vida humana e à natureza.

A agroecologia integra um conjunto diverso e complexo de conhecimentos, com alto valor científico e cultural. A constituição originária da agroecologia é interdisciplinar. Envolve ao mesmo tempo diferentes áreas da ciência, integrando estudos sobre a natureza e a sociedade, além de valorizar e trabalhar com diferentes formas de conhecimento.

Estudantes que já experimentam este caminho formativo certamente se recusarão a aceitar reformas educacionais que lhes tire o direito de pensar, que padronizem a educação e reduzam seu horizonte de conhecimentos. Sem um pensamento crítico e dialético não há como entender e por em prática a agroecologia. Nem organizar processos efetivos de transformação social.

Muitos educadores e estudantes já entenderam essas relações e por isso têm se desafiado a construir este futuro, com suas próprias mãos e sem esperar permissão. Este trabalho cotidiano e miúdo que acontece hoje em muitas escolas integra a luta geral por novas relações sociais, socialistas, cada vez mais necessárias para que a vida seja respeitada e os problemas estruturais de nossa sociedade sejam resolvidos. Esta construção feita nas escolas será fortalecida se vinculada à intencionalidade política das organizações de trabalhadores que hoje protagonizam as lutas contra o capital.

*Roseli integra o coletivo nacional do setor de Educação do MST.