Prêmio vai selecionar as melhores histórias dos guardiões da agrobiodiversidade

Premiação “A História Que Eu Cultivo”, da Articulação Nacional de Agroecologia, vai selecionar cinco pessoas que trabalham em defesa da agrobiodiversidade no Brasil

Essa é a primeira edição do Prêmio “A História que Cultivo”, que homenageia Dona Emília (em mémoria), animadora de sementes criolas no Mato Grosso (Foto: Andres Pasquis/Gias)

Por Articulação Nacional de Agroecologia

Estão abertas as inscrições para o prêmio #AHistóriaQueEuCultivo, idealizado pelo Grupo de Trabalho (GT) Biodiversidade da Articulação Nacional de Agroecologia (ANA). Interessados devem enviar relatos em vídeo sobre experiências de promoção da biodiversidade e de resistência a ameaças à agroecologia, como a contaminação de sementes, mudas e alimentos por transgênicos, agrotóxicos ou perdas pelas queimadas.

Em sua primeira edição, a iniciativa presta homenagem à Emília Alves Manduca (em memória), animadora de sementes crioulas no Mato Grosso. As inscrições estão abertas até o dia 10 de dezembro, Dia Internacional dos Direitos Humanos.

Os relatos devem ter até 5 minutos e podem ser feitos de forma caseira, gravados com celular ou câmeras. A inscrição deverá ser feita exclusivamente pelo site www.ahistoriaqueeucultivo.com.br, que traz orientações técnicas para o envio dos vídeos, dentre outras informações.

Para Naiara Bittencourt, do GT Biodiversidade da ANA, iniciativas como essa se mostram ainda mais importantes no atual contexto brasileiro. O país, que possui cerca de 25% da biodiversidade do planeta segundo o Secretariado da Convenção da Diversidade Biológica (CDB), sofre com incêndios espalhados por diversos biomas. Além de milhares de espécies de plantas, alimentos, animais e microrganismos perdidos, a advogada destaca que estão em risco os modos vida de guardiãs e guardiões de toda essa riqueza natural e cultural.

“O contexto é de extremo retrocesso. Além dos incêndios, há um enxugamento de políticas públicas, um avanço na criminalização de movimentos sociais e a expansão de políticas que beneficiam o agronegócio em detrimento da agricultura familiar, de povos indígenas e comunidades tradicionais. Percebemos a exclusão, a criminalização e a desvalorização de práticas tradicionais de seleção, resgate e multiplicação de sementes crioulas. Então, precisamos dar visibilidade e proteger as guardiãs e guardiões da biodiversidade, reconhecendo suas práticas, que beneficiam a todos nós, seja na qualidade da alimentação, na diversidade agrícola, na persistência de sistemas agroecológicos que de fato estão em consonância com a natureza e os bens comuns”, expõe a advogada, que também integra a Terra de Direitos.

prêmio #AHistóriaQueEuCultivo é voltado para agricultoras e agricultores familiares, camponeses, povos indígenas, quilombolas e outros integrantes de comunidades tradicionais que desenvolvam práticas de recuperação, conservação, multiplicação e uso da agrobiodiversidade no Brasil. As experiências relatadas podem ser coletivas ou individuais. Ou seja, podem ser contadas tanto por associações ou cooperativas, como por apenas uma pessoa.

Premiações

Cinco experiências relatadas serão premiadas com viagens para intercâmbios de saberes sobre agroecologia. Os vídeos escolhidos terão suas autoras e autores convidados a participar de eventos promovidos pelo GT Biodiversidade da ANA e/ou organizações parceiras.

Em razão da pandemia de covid-19 e dos cuidados necessários para evitar a transmissão do novo coronavírus, detalhes sobre os deslocamentos e sobre quais eventos as pessoas ganhadoras participarão apenas serão definidos no momento seguro para o retorno de atividades presenciais.

As premiações incluem também certificados de guardiãs e guardiões da agrobiodiversidade, assegurando a relevância das iniciativas para a agroecologia e para a recuperação, a conservação e a multiplicação de variedades de alimentos e sementes no país.

Além disso, 15 histórias selecionadas serão editadas em vídeos chamados “Histórias Locais”, com inclusão de efeitos visuais e sonoros. A guardiã e o guardião de sementes, assim como seu grupo ou comunidade, receberão esse instrumento de comunicação capaz de contribuir na luta por direitos.

Por fim, os vídeos com os relatos mais detalhados sobre práticas de conservação do patrimônio genético alimentar e sobre o conhecimento tradicional associado a ele vão compor uma “História Coletiva”. A ideia é ter um mosaico da diversidade brasileira a fim de mostrar a convergências de lutas locais e de denunciar ameaças à agrobiodiversidade comuns em diversas partes do Brasil.

Emília Alves Manduca é uma das mulheres brasileiras que lutou para cuidar do material genético alimentar dos territórios tradicionais no país (Foto: Andres Pasquis/Gias)

Homenagem

Carla Bueno, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), destaca a importância de fazer ecoar vozes e mostrar rostos de quem desenvolve práticas de resgate, conservação e uso de sementes, que não são somente os grãos, mas todas as formas de reprodução da vida, o que também inclui mudas, raízes, ramas e animais.

Ao comentar a homenagem do Prêmio à Emília Alves Manduca, ela valoriza o papel de mulheres que guardam, cuidam e organizam, durante toda sua vida, o material genético alimentar em seus territórios. “Nossa Mãe Terra precisa dessa conexão diante de um sistema que só consome e pouco oferece. Quando oferece, oferece transgênicos, venenos e degradação. Guardiãs como dona Emília são como cordões umbilicais ligados à terra que nos ajudam a fortalecer um sistema mais humano”, diz.

Mulher negra, mãe de quatro filhos, avó de três netos, Emília faleceu no dia 1º de setembro deste ano, vítima de complicações de problemas pulmonares. Militante de muitas bandeiras, ela lutou pela reforma agrária, contra os agrotóxicos, em defesa das águas, da educação no campo, dos direitos das mulheres, do cooperativismo, dentre outras. A cada semente que ela catalogava, guardava e trocava nas diversas feiras e encontros agroecológicos pelo Brasil, também semeava sabedoria, com ideias e ações em defesa da agrobiodiversidade.

Carla reforça que é preciso cultivar e contar histórias como de Emília porque essas são trajetórias de vida contra “um projeto de morte”. “Para o movimento é muito importante ações como o Prêmio #AHistóriaQueEuCultivo, que ajudam a construir uma ciranda fortalecida de luta, de resistência nos territórios”, completa.