Bela Gil: Reforma Agrária é fundamental para democratizar acesso à comida

Em entrevista a Breno Altman, a apresentadora e mestra em gastronomia refletiu sobre alimentação, dieta e política
“Muitas vezes a gente esquece de onde vem a nossa comida e que vem da terra. Nesse sentido, a Reforma Agrária é fundamental para democratizar a produção e o acesso ao alimento”, afirma Bela Gil . Foto: José Eduardo Bernardes

Por Breno Altman
Do Opera Mundi

Na edição do programa SUB40 da última quinta-feira (12/02), o fundador de Opera Mundi, Breno Altman, entrevistou a apresentadora do programa “Bela Cozinha”, do GNT, e mestra em ciências gastronômicas Bela Gil, que afirmou lutar para que “todo o mundo possa comer como eu como”.

Para a apresentadora, a falta de opção para a maioria das pessoas está diretamente relacionada à concentração de terras. “Muitas vezes a gente esquece de onde vem a nossa comida e que vem da terra. Nesse sentido, a Reforma Agrária é fundamental para que a gente consiga democratizar a produção e o acesso ao alimento. É uma conexão direta”, afirma. 

Assista à integra da entrevista com Bela Gil:

Bela lembra que, apesar de, a nível mundial, produzir-se alimento o suficiente para alimentar todas as pessoas do mundo, ainda existem muitas em situação de insegurança. No Brasil, são cerca de 10,3 milhões de pessoas atingidas, segundo dados de 2020 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Ela afirma, no entanto, que a concentração de terras e a liberação exacerbada de agrotóxicos no Brasil fazem com que os alimentos orgânicos, provenientes da agricultura familiar, se tornem inacessíveis para muitos brasileiros: 

“Há menos impostos para agrotóxicos, então sai mais barato produzir grandes monoculturas com veneno do que ter um lote de tamanho médio, produzindo de maneira diversificada, sem veneno. Precisa de mais mão de obra, dá mais trabalho. Não é mecanizado, nem barato, porque não tem incentivo fiscal do governo”. 

É por isso que, segundo ela, a Reforma Agrária é importante: “O MST é o maior produtor de arroz orgânico da América Latina, por exemplo”. Para isso, contudo, é preciso não apenas mudar as lideranças políticas e o governo, mas, também, a mentalidade do consumidor: “Por que quem tem direito não opta pelo orgânico? Por que essas pessoas não dão valor ao pequeno produtor?”, questiona. 

Alimentação não é só para matar a fome 

“Para muita gente, comer é só uma necessidade, é ‘encher a barriga’, mas meu objetivo de vida é tornar essa necessidade e prazer sensorial num aspecto filosófico, ético, social e político”, diz.

Bela Gil acredita que a alimentação vai muito além de “matar a fome”, sendo uma ferramenta de transformação social e ambiental, porque além do impacto na saúde, a alimentação tem um impacto “profundo no meio ambiente e na vida do agricultor”. 

Ela argumenta, no entanto, que escolher o que comprar – como poder optar por alimentos orgânicos, por exemplo, – é um privilégio, mas que não deveria ser. “A realidade é que a maioria dos brasileiros não tem o direito de escolher o que comer.”