Assassinato

Criança é morta em ataque à família de líder comunitário, na mata sul de Pernambuco

Família já sofria ameaças e outros tipos de violência no Município de Barreiros
Jonatas de Oliveira dos Santos era filho de uma das principais lideranças comunitárias. Foto: Comunicação CPT PE

Por Rodolfo Rodrigo
Do Brasil de Fato

Uma criança de nove anos foi morta a tiros em ataque que aconteceu na noite de quinta-feira (10), no Engenho Roncadorzinho, município de Barreiros, na Mata Sul de Pernambuco. Jonatas de Oliveira dos Santos era filho de uma das principais lideranças comunitárias e presidente da Associação dos agricultores e agricultoras do local, Geovane da Silva Santos. Ele também foi atingido no ombro esquerdo e está se recuperando. 

De acordo com informações dos moradores, por volta das 21h sete homens armados e encapuzados invadiram a residência da família de Jonatas efetuando vários disparos.  Um tiro teria atingido o pai do menino, no ombro e outros, a criança que estava embaixo da cama, com a mãe. Essa não é a primeira violência que aconteceu nesta localidade. As vítimas também já sofreram ameaças e tentativas de roubo.

A criança foi atingida enquanto se escondia embaixo da cama. Foto: Comunicação CPT PE

A Comissão Pastoral da Terra, CPT, que atua em defesa da vida dos povos da terra, das águas e das florestas, acompanha o caso de conflito por posse das terras na região. Segundo Lenivaldo Lima, advogado da CPT, os conflitos já estavam sendo denunciados. “A CPT e a FETAPE, e outras instituições que têm trabalhado com os conflitos da Mata Sul, tem denunciado essas áreas, principalmente aqui no litoral, como uma das áreas que estavam em potencial conflito, com indícios de que a violência poderia acontecer a qualquer momento” .

Ainda segundo o advogado, nos primeiros ataques à família do Geovane, não foi dada atenção necessária para o caso. “O pessoal não deu a importância devida aos fatos e agora aconteceu isso”, diz.  

O alvo seria o pai da criança, líder comunitário. Foto: Comunicação CPT PE

O presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias (CDHM) da Câmara dos Deputados, o deputado Carlos Veras (PT/PE), cobrou das autoridades pernambucanas a apuração rigorosa. Foram enviados ofícios para o governador do Estado, para o procurador-geral de Justiça e para o secretário de Defesa Social de Pernambuco. Nos documentos, o presidente lembra que a Comissão de Direitos Humanos e Minorias realizou diligência na região da Mata Sul de Pernambuco em 15 de dezembro, quando recebeu denúncias dos agricultores familiares e procurou contribuir com a mediação de conflitos na região. “É gravíssimo que menos de dois meses depois um atentado tire a vida de uma criança”, ressalta Veras.

A Polícia Civil de Pernambuco, por meio da Delegacia Seccional de Palmares, registrou o caso como uma tentativa de homicídio e um homicídio de uma criança. A equipe do Brasil de Fato Pernambuco procurou a Polícia Civil para mais informações. Em nota, eles informaram que o caso segue em investigação até a completa elucidação do ocorrido.

Luta por terra

Segundo a CPT, a ocupação das famílias agricultoras no Engenho Roncadorzinho aconteceu após a falência das usinas em que trabalhavam ou eram credoras. Sem acesso aos direitos trabalhistas, essa foi a única opção. O Engenho foi propriedade da Usina Central Barreiros, mas atualmente está sob administração do Poder Judiciário. A comunidade abriga cerca de 400 trabalhadores rurais posseiros, sendo destes, 150 crianças. A comunidade existe há 40 anos, mas, desde 2018, têm sofrido diversas ameaças e violência promovidas por empresas que exploram a área economicamente. De acordo com a Federação dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares do Estado de Pernambuco (FETAPE), acontecem intimidações, destruição de lavouras e contaminação das fontes de água e cacimbas do imóvel por meio da aplicação direcionada de agrotóxicos. 

Esses casos de violência já vinham sendo denunciados pela FETAPE e CPT há alguns meses, mas nenhuma medida efetiva dos órgãos do Estado foi tomada.

Edição: Rani de Mendonça/ Brasil de Fato