Escrevivências

Munir Lauer lança o livro ‘Memórias de um menino Sem Terra’

Transmissão online contou com a participação do autor, acompanhado das educadoras Isabela Camini e Clarisse Teles
Livro resgata a formação do MST a partir do olhar de uma criança. Foto: Corbari

Por Marcos Antonio Corbari
Do Brasil de Fato

“Este livro nada mais é do que uma história de criança, contada para outras crianças, adolescentes e jovens, mas também contada para adultos. E por ser verdadeira, não é a história de um único menino, mas é a história de milhares de meninos e meninas, que vivenciaram, sofreram e alegram-se com a vida em acampamentos e assentamentos do Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais Sem Terra. Eles e elas, aprenderam com o espaço organizativo do acampamento, forjaram-se em Movimento, o ambiente da coletividade os educou.”

Com essas palavras o livro “Memórias de um menino Sem Terra”, de Munir Lauer, é apresentado. Publicado pela editora Peripécia e voltado ao público infanto-juvenil, já está disponível para venda nas principais livrarias físicas e online, bem como de forma direta pelo próprio autor (54 98424 8724). O livro pode ser enviado para todo Brasil.

A transmissão realizada pelo Coletivo Pão com Ovo na noite desta quinta-feira (25), representa mais um ato de lançamento da publicação, que foi apresentada em primeira mão no Curso Nacional de Pedagogia do MST, realizado na Escola Popular de Agroecologia e Agrofloresta Egídio Brunetto, em Prado (BA) no início de janeiro. Além do autor participaram as educadoras Isabela Camini e Clarisse Telles, ambas vinculadas ao setor de Educação do MST. A apresentação ficou a cargo de Regina Abrahão.

O autor, que com “Memórias de um Menino Sem Terra” chega a terceira publicação, reside no município de Pontão, considerado o “berço” do MST. Ali está localizado o território da Fazenda Anonni, uma das primeiras experiências de luta por terra empreendida pelo Movimento e que resultou em ocupação, desapropriação e destinação à reforma agrária. Lauer está lá desde o acampamento, estudou, se formou, alcançou o mestrado e o doutorado e segue trabalhando no território, atualmente atuando na coordenação de uma escola do campo.

“De uns anos para cá me aventurei nessa arte de escrever, fazer a literatura Sem Terra”, contou. Esse novo livro, porém, tem um sentido especial para o autor, uma vez que é escrito em linguagem adequada para o público infanto-juvenil, embora possa – e deva – ser acessado por leitores de qualquer faixa etária.

Lauer explica que a publicação é estruturada em três momentos distintos: “É a memória dos 40 anos do MST pelo olhar de uma criança, de um adolescente e de um jovem adulto que foi crescendo dentro do Movimento ao longo desses seus 40 anos de formação”. Resumindo, são as memórias do próprio autor que buscam representar em forma de literatura as memórias de milhares de crianças que viveram sob as lonas na luta pela terra e que passaram por todos os momentos que consolidam o ideal da reforma agrária.

Questionado pela apresentadora acerca da pedagogia utilizada pelo MST nas suas escolas e espaços de formação, Munir preferiu deixar de lado as referências teóricas – que são fartas e sólidas, registre-se – para dar voz ao testemunho de quem cresceu e se formou a partir da base educativa do Movimento: “O MST educa pela coletividade. A própria organização, o acampamento, o assentamento é um espaço educativo por excelência. A coletividade nos educa”.

A busca por uma escola contra-hegemônica ao capital

Para Isabela Camini, educadora mestre e doutora, que dedica a vida ao estudo e desenvolvimento da pedagogia Sem Terra e foi responsável pelo prefácio, Lauer é “um grande educador e um gigante na sua escrita” e o novo livro “é uma obra singular, deve ser lido pelas diferentes idades, chegar até as escolas públicas, estar ao acesso desde a infância até o ensino superior”.

A educadora fez um paralelo entre a narrativa apresentada no livro e o momento histórico que passa o Movimento, que chega as quatro décadas desde sua constituição. Falou sobre a organicidade, a luta pela reforma agrária e o percurso de desenvolvimento da pedagogia que norteia o setor de Educação desde as escolas itinerantes, passando pelas escolas do campo e chegando até o momento onde a relação estabelecida com centros universitários públicos viabiliza a formação em nível superior de integrantes do MST.

“Este é um testemunho vivo, concreto de quem viveu como criança Sem Terra, cresceu, fez sua formação e continua atuando junto ao assentamento”, afirma Camini. Disse estar honrada pelo convite para prefaciar a obra e afirmou: “Quando se tem terra, se tem escolas e se tem bons educadores as crianças querem ficar ali, não querem abandonar o território para ir para a cidade”.

Destacou ainda que em nenhum lugar existe atuação do MST levantando a bandeira da luta pela terra sem levantar junto a bandeira da luta pela educação. “Sabemos que é difícil, é um grande desafio, é árduo estar dentro da escola pública e lutar contra o sistema que é classificatório e impositivo. Mas seguimos em frente, buscamos uma escola contra-hegemônica ao capital.”

Direito a acessar a Literatura e a escrever a sua Literatura

“Assim como lutamos pelos nossos direitos de ter acesso à terra, aos meios de produção, ao alimento, à escola… também lutamos pelo direito de ter acesso a literatura e de também fazer literatura”, afirmou Clarisse Simone Teles, educadora popular e coordenadora da setor de Educação do MST no RS. Lembrou que o primeiro ato de lançamento do livro se deu justamente em um espaço de formação recentemente realizado pelo Movimento neste início de ano.

Enaltecendo o exemplo de Lauer, que deixou registrado em livro a sua experiência destes 40 anos de Movimento em formato de narrativa infanto-juvenil, ressaltou a importância das escrevivências Sem Terra. “Isso formaliza o processo de construção da cultura, da memória e da história Sem Terra, é a nossa existência reafirmada pela palavra falada e escrita”, assinalou.

Clarisse está dedicando-se atualmente a divulgar as ações do Festival Escrevivências Sem-Terra, que tem por objetivo preservar e incentivar a poética e a mística que sempre acompanharam os processos de luta pela Reforma Agrária e a formação do MST ao longo dos seus 40 anos.

“Nos nossos acampamentos, assentamentos e espaços de formação sempre houve a produção poética, a contação de histórias, a música, que perpassaram os processos de vivência através das rodas de conversa, nas relações humanas.”

Ela lembrou que muitas dessas construções não foram registradas e acabaram se perdendo ao longo dos anos, por isso iniciativas como a de Lauer – que registrou o seu memorial pessoal em livro – e de espaços coletivos como o Festival devem ser incentivados. “Queremos potencializar essas escritas, queremos que as pessoas escrevam as suas vivências, isso que muito nos foi negado neste tempo e algo porque também temos que lutar.”

Confira a Live do Coletivo Pão com Ovo com o lançamento do livro.

Edição: Katia Marko/Brasil de Fato