Comemoração

Do latifúndio à terra produtiva: 14 anos da ocupação do Assentamento Dênis Gonçalves

Famílias Sem Terra comemoram conquista com plantio solidário, apresentações culturais e muita luta
Comemoração de aniversário do assentamento Dênis de Moura reuniu as famílias assentadas, amigos e parceiros do MST. Foto: Sara Gehren (@saragehren)

Por Michele Neves, Matheus Teixeira e Dowglas Silva
Da Página do MST

No último sábado (23/3), o assentamento Dênis Gonçalves, localizado na Zona da Mata Mineira, celebrou 14 anos de sua ocupação, em um dia de muitas atividades festivas e emocionantes. 

Celebrar a ocupação desse antigo latifúndio, com a conquista de 30 novos cadastros, a regularização das famílias que moram e trabalham no assentamento, famílias que não acessaram créditos e nenhum fomento, mostra cada vez mais o comprometimento do povo Sem Terra em produzir comida de verdade, cuidar dos bens comuns e construir um novo modelo de sociedade pautando a vida como tema central. A regularização dessas famílias é só mais um passo na construção do projeto de Reforma Agrária Popular.

O assentamento vem construindo a tradição de celebrar o aniversário de ocupação desse território como um momento de lembrar dos tempos em que as famílias viviam embaixo de lonas, na beira da estrada, dos despejos, da resistência e, principalmente, para manter aceso na memória todo o processo de que é necessário para se conquistar um pedaço de terra, manter firme a convicção de que a luta popular por terra, organizada, é capaz de mudar vidas. 

A celebração contou com diversas apresentações culturais, como o bloco de carnaval do MST Pisa Ligeiro, que tocando enxadas ressignifica a ideia de que a festa se dá de forma apartada do trabalho, e traz como forma de resistência a ferramenta de trabalho do camponês como instrumento percussivo, mostrando que a enxada que produz o pão é a mesma que anima a nossa luta. 

Outro grupo que se apresentou e encantou os presentes no evento foi o grupo de Maracatu Baque do Vale do Pomba do Instituto Federal Sudeste MG – Campus Rio Pomba, que realizou uma bonita apresentação.

Grupo Pisa Ligeiro ressignifica a ideia de que a festa se dá de forma apartada do trabalho. Foto: Sara Gehren (@saragehren)

Plantio Solidário

Além das atividades culturais, foi realizado um mutirão de plantio de hortas e produção de mudas de árvores frutíferas para o projeto Plantio Solidário. O mesmo atua junto a bairros da periferia de Juiz de Fora, doando alimentos produzidos no assentamento às famílias em situação de insegurança alimentar, e envolve parceiros voluntários das cidades vizinhas há três anos.

Durante esse período já foram doados mais de seis toneladas de alimentos, sendo muitas delas produzidas de forma coletiva em mutirões, e garantiu o envolvimento de mais de 60 famílias. 

Durante a atividade foi plantada uma muda de baobá, uma árvore nativa do continente Africano que possui uma grande simbologia para o povo africano e agora para o assentamento. Essa árvore é conhecida como árvore da vida, tendo uma importância ancestral para o povo, onde sempre serviu como reserva de água e de alimento para as famílias pobres do continente africano, assim vamos reafirmando as raízes com o nosso continente mãe, pois o território do assentamento em seu passado foi uma das fazendas de maior importancia no processo de reprodução de trabalhadores negros escravizados, e hoje é território livre que avança a cada dia na emancipação humana e na construção da Reforma Agrária Popular.

Foi realizado um mutirão de plantio de hortas e produção de mudas de árvores frutíferas para o projeto Plantio Solidário. Foto: Dowglas Silva (@DowglasSilva)

O assentamento

Hoje, o assentamento Denis Gonçalves conta com mais de 150 famílias morando e produzindo no território, possui uma escola estadual com turmas do 1° ano ao Ensino Médio, além das turmas de Educação de Jovens e Adultos (EJA),  uma Cooperativa chamada de COOPERMATAS, que organiza e comercializa produtos, que vão desde hortaliças, antepastos, bolos e conservas produzidos sem o uso de veneno pelos assentados. 

Por ser rico em bens comuns da natureza e histórico, o assentamento é constantemente visitado por turistas, seja para se banhar nas cachoeiras, jogar bola no campo de futebol, visitar as ruínas das estruturas do período escravocrata em que a produção de café era o forte da fazenda, conhecer as grutas onde foram encontradas corpos mumificados, os mesmos foram cedidos ao Museu nacional de Rio de Janeiro e se perderam no incêndio, ou visitar e conhecer as famílias e a forma de produzir os alimentos comercializados. Tal demanda trouxe a  necessidade de se politizar e canalizar tais processos levando a criação do Turismo da Reforma Agrária.

Dia de celebração e luta no assentamento Dênis Gonçalves. Foto: Dowglas Silva (@DowglasSilva)

Mulheres em luta

As comemorações no assentamento, majoritariamente coordenado por mulheres, fazem parte da Jornada Nacional de Lutas em Defesa da Reforma Agrária. Com o lema “Lutaremos! Por nossos corpos e territórios, nenhuma a menos!”, a jornada pautou, entre os dias 6 e 8 de março, a luta pela terra e a conquista de direitos básicos dos assentados, como a regularização de cadastros e vistorias técnicas junto ao Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). 

Milhares de mulheres Sem Terra se uniram entre os dias 6 e 8 de março, em defesa da Reforma Agrária Popular. Elas realizaram ações em diversas regiões do país, combatendo a violência no campo e a fome, exigindo trabalho, renda e dignidade. Além disso, destacaram a importância da demarcação de terras indígenas. Também denunciaram a crise ambiental e o avanço do agronegócio sobre territórios indígenas e camponeses, enquanto promovem a agroecologia para produção de alimentos saudáveis e o equilíbrio ambiental.

*Editado por João Carlos