Aromas de Março

Maternidade LGBT Sem Terra e a construção de família no contexto da luta do MST

Às vésperas do Dia das Mães, confira artigo da coluna Aromas de Março

Foto: Arquivo da Família

Por Daiane Paz e Mariana Arante
Da Página do MST

O Movimento é nossa grande Família! Essa frase forte de Salete Strozake, militante Sem Terra, educadora e mãe, ecoa quando pensamos sobre família e parentalidade. Implica pensar o que são esses laços de identidade, cumplicidade e propósito que nos aproximam sem negar as contradições que permeiam os processos de luta, organização e vivências.

Nos construímos como núcleo familiar dentro dessa grande família, construindo alicerces que não iniciam em nós, mas na luta e persistência de nossos pais, nos acampamentos, assentamentos e escolas, construindo a luta pela terra, pela Reforma Agrária e pelo socialismo. Nesse sentido, o Movimento e a Luta pela Terra nos apresentam uma outra forma de entender a família, para além do núcleo com o qual dividimos a casa e as responsabilidades e se apresenta como inúmeros aspectos da vida que permeiam as relações e os sentimentos de pertencimento.

Essa luta se desdobra em conquistas e oportunidades de escolarização que aproximam pessoas de todo o país e tornam possíveis encontros que seriam impossíveis em outros contextos.

Foi em uma turma do curso de Geografia, vinculado ao PRONERA, com aulas em Presidente Prudente e na Escola Nacional Florestan Fernandes que nos conhecemos e nos apaixonamos. Antes da existência do coletivo LGBTI+ Sem Terra e sem entender direito o turbilhão de sentimentos, enfrentamentos e medos que envolviam apaixonar-se por outra mulher, construímos uma relação de amor e cumplicidade que já dura quase 20 anos. Além das nossas dúvidas e medos, também enfrentamos o fato de que talvez nem nossa família consanguínea, nem a família Sem Terra, estivessem preparadas para receber e lidar com um relacionamento entre duas mulheres. E diante da diversidade de seres que nos rodeavam encontramos julgamentos, mas também encontramos abraços, carinho e acolhimento de onde nem esperávamos, às vezes.

Nosso amor foi se estabelecendo como “normal” à medida que a convivência acontecia, no curso, nas tarefas, em nossas casas… tudo se tornando mais cotidiano como qualquer namoro deve ser, mas que nós, LGBTQIA+, temos que lutar para que tenhamos o direito ao que é simples e corriqueiro: um almoço em família com os sogros e cunhados, uma saída entre amigos de mãos dadas na rua, um natal sem se esconder pra mandar uma mensagem. E nesse dia a dia da luta, das tarefas que recebíamos de nosso Movimento, fomos estabelecendo que ali também cabia nosso relacionamento e isso seria cotidiano.

Esse se estabelecer e ter direitos garantidos se estende para a esfera civil e à medida que fomos amadurecendo nosso relacionamento e construindo junto à coletividade nosso espaço como casal, fomos percebendo que muitos direitos nos eram negados enquanto cidadãs pela nossa vida amorosa. Exemplos como: fazer doação de sangue, se casar no civil, ter filhos, tudo o que era comum fazer e planejar, para nós esbarrava no fato de sermos duas mulheres. Por isso, nossos planos foram sendo forjados sempre em luta para conquistá-los junto com uma comunidade inteira, os planos não eram só nossos.

Em 2012, ambas em tarefa na Secretaria Nacional de nosso Movimento, vivemos o momento em que foi determinado por lei que todos os cartórios eram obrigados a realizar o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo sem nenhuma formalidade a mais, apenas o que se exigia de qualquer casal heteroafetivo. O casamento que nem era um plano a priori para nós, se tornou a necessidade de acessar um direito garantido com tanta luta e, no dia 25 de maio de 2013, nós oficializamos nossa relação em um casamento civil e muita festa com nossa família Sem Terra.

A partir desse momento, já tinha brotado em nós a vontade de sermos mães juntas, era um tema que nos aquecia o coração e nos inquietava por não saber como. A adoção era uma vontade de vida inteira, mas acreditávamos que o judiciário, nas condições que tínhamos, não seria um lugar receptivo.

Foi na luta e na esperança de construir relações de amor, de gerar e de educar uma vida, que nos lançamos na aventura de buscar maneiras de conseguir gestar nosso filho. Por meio de um processo de Fertilização In Vitro engravidamos de nosso filho Pedro, menino forte e guerreiro, que nos inspirou e fortaleceu para construirmos nossa vida no assentamento, da moradia aos espaços da produção, de maneira que ele pudesse vivenciar sua infância em um ambiente seguro e saudável. A gestação e o nascimento do Pedro nos apresentaram outras lutas diárias que precisamos enfrentar em uma cidade pequena do interior de SC, onde tivemos que encarar o dia a dia, fora do ambiente da “Família Sem Terra” que nos blindava até o momento. Foram desde situações muito cotidianas, nos exames e consultas, até o fato de termos que entrar com pedido judicial para registrarmos nosso filho em nome de suas duas mães.

Foram meses duros, de insistências e de inseguranças e também de muito amor envolvendo a espera de sua chegada tão aguardada. Um mês após o nascimento saiu a certidão de nascimento do Pedro com dupla maternidade, um direito básico de toda criança, mas que pra ele teve que ser conquistado, mostrando desde cedo que Sem Terrinha já nasce na luta por seus direitos. A primeira criança, de muitas que vieram depois, a ser registrada com dupla maternidade no estado de SC.

A complexidade da vida e das relações que se estabelecem nos levaram a ampliar esse núcleo familiar, assumindo legalmente a guarda das nossas sobrinhas Alice e Julia. Sempre muito próximas, em uma relação para além de tias e sobrinhas, com 15 anos elas decidiram que a casa delas definitivamente (e isso é sempre mutável quando se fala de jovens) seria a nossa casa. Mais uma vez o desafio de ser família se transforma, se fortalece à medida que os desafios se ampliam. A família cresceu, a casa encheu, e nós ainda tínhamos nos planos ser mães outra vez.

Nos habilitamos no cadastro nacional de adoção no ano de 2018, com o coração cheio de esperança de dar um irmão ou irmã ao Pedro e de realizar o sonho tão antigo que tínhamos sobre o processo de maternar a partir da adoção. Foram anos de muita espera e de muitos sentimentos, que iam da esperança absoluta ao desânimo total.

Em 2024, já no RS, contribuindo com o Movimento no espaço do Instituto Josué de Castro – IEJC, transferimos nosso cadastro para o estado, mudamos o perfil e já nos preparávamos para não renovar o cadastro no ano seguinte, pois chegamos à conclusão que não seria mais possível. Para nossa surpresa, dois meses depois recebemos a ligação que esperávamos por quase 6 anos e Ana Vitória chegou em nossa vida, com 3 meses de idade e a capacidade de inundar de amor nossa vida toda. Ela foi recebida pelas mães, pelos irmãos e pela nossa nova família Sem Terra, a família do IEJC.

Mais uma vez nossa experiência de família, de parentalidade e de maternidade se expande, se amplia, mostrando que não existe receita, não existe configuração correta como a sociedade patriarcal e a moral conservadora quer nos impor. Existem caminhos diversos, esperas diferentes, muita gente envolvida e muito amor.

Construir essa família significa assumir que nossas práticas, afetos e responsabilidades no cuidado, educação, formação e criação das crianças não passam por laços de sangue e sim pela criação de laços de afetividade. Uma construção que é social e de construção cultural.

As famílias são diversas e esse reconhecimento é fundamental.

*Editado por Fernanda Alcântara