Mulheres Sem Terra

A força que sustenta a luta, organiza a vida e constrói a Reforma Agrária Popular

Da produção agroecológica à organização dos territórios, mulheres do MST seguem transformando a luta pela terra em instrumento de resistência, cuidado coletivo e emancipação popular

Por Alí Nacif
Da Página do MST

No mês de maio, quando a luta das mulheres ganha ainda mais centralidade nas ruas, nos territórios e nas organizações populares, as mulheres do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra reafirmam diariamente que a Reforma Agrária Popular também é construída com mãos femininas, coragem coletiva e organização popular.

Nas ocupações, nos acampamentos, nas cozinhas coletivas, na produção agroecológica, na formação política, na saúde popular e na organização dos territórios, são as mulheres que sustentam grande parte da vida coletiva nos espaços da luta pela terra. Mulheres que enfrentam o machismo, a violência, o desemprego, a fome e a desigualdade social sem abandonar a esperança de construir um futuro digno.

A trajetória de Dorileia Lopes, conhecida como Dora, é uma dessas histórias construídas na luta. Ela chegou ao Movimento em 2018, após se aposentar como funcionária pública. O primeiro contato com o MST veio através de uma amiga. Embora sem conhecer a realidade dos acampamentos e carregando os preconceitos disseminados pela televisão, Dora encontrou algo diferente quando pisou na ocupação: a solidariedade, acolhimento e povo organizado. Foi essa experiência coletiva que a fez permanecer no acampamento.

Foto: Alí Nacif 

Eu cheguei aqui sem saber nada. Eu tinha 12 dias de ocupação. Com o tempo eu fui me envolvendo. Era cozinha, era doação de roupa, de sapato. Eu disse: ‘acho que vou ficar aqui nesse lugar’. E tô aqui até hoje”, conta.

Com o passar dos anos, Dora assumiu tarefas coletivas, participou do grupo de mulheres, passou pela coordenação de núcleo e hoje atua como dirigente da área. Além disso, no cotidiano da luta, ela também se dedica à saúde popular, produzindo xaropes, pomadas, tinturas e remédios naturais aprendidos dentro do próprio movimento.

Foto: Alí Nacif 

“Tudo eu aprendi dentro do Movimento. E eu gosto de ajudar as companheiras. A gente dá força umas pras outras”, afirma.

A conquista que veio da luta coletiva

Da mesma forma, a força coletiva das mulheres também aparece na trajetória de Marcelene Prates, conhecida como Aninha. Foi através da mãe que ela conheceu o Movimento e decidiu construir sua vida na luta pela terra.

Foto: Alí Nacif 

“Saí do aluguel, vim pro Movimento e hoje tenho minha conquista. Por isso a gente luta muito, mas vale a pena”, relata.

Segundo ela, a presença das mulheres nos territórios representa coragem, autonomia e resistência diante do machismo estrutural que atravessa a sociedade brasileira.

“A mulher tem que mostrar que é capaz. Nós somos capazes. A gente não pode olhar o machismo e se rebaixar pra ele”, diz.

Além da organização política nos acampamentos e assentamentos, o trabalho das mulheres garante igualmente o cuidado coletivo e a alimentação de milhares de famílias. Edna Fernandes conhece bem essa realidade. Moradora da área desde 2017, ela atuou durante anos na coordenação das cozinhas coletivas.

Em meio a panelas, fogões improvisados e mutirões, Edna fala sobre o significado da cozinha na luta popular.

Foto: Alí Nacif

“A primeira coisa pra cozinhar é ter amor pela cozinha. A comida você não pode fazer com raiva. Tem que fazer com satisfação”, explica.

Para ela, alimentar o povo nos espaços de luta é também um gesto político de cuidado, solidariedade e compromisso coletivo. Em jornadas, encontros e atividades do movimento, mulheres como Edna ajudam a organizar cozinhas que alimentam milhares de pessoas.

Outra história marcada pela resistência é a de Iorliane Darc, conhecida como Lolane. Marceneira e carpinteira, ela chegou ao movimento em 2017, após ouvir falar de uma ocupação em Mário Campos, em Minas Gerais.

“Eu descobri a força que a mulher tem. A gente aprende muito com o movimento. Aprende a falar não pro abuso, não pra violência”, afirma.

Na construção dos barracos, das escolas improvisadas e da infraestrutura coletiva da ocupação, Lolane ajudou a serrar madeira, construir portas, bancos e espaços comunitários. Seu trabalho rompe diretamente com a lógica machista que tenta limitar o lugar das mulheres na sociedade.

Foto: Alí Nacif

“Trabalhar junto com os homens, sem desfazer dos companheiros, mas sabendo que a mulher tem força. E quando ela quer, ela consegue”, destaca.

A presença das mulheres Sem Terra também atravessa as novas gerações. Aos 16 anos, Emanuele fala sobre liberdade, acolhimento e pertencimento dentro da luta popular.

“Você pode se libertar. Eu me sinto confortável pra falar, conversar e nunca ter medo de ser coagida”, relata.

Ao observar a organização coletiva das mulheres nas áreas da Reforma Agrária, Emanuele reconhece a força construída pela união e pela convivência comunitária.

“Apesar de tudo, a vida ainda é bela”, resume.

Foto: Alí Nacif

As histórias das mulheres Sem Terra revelam que a Reforma Agrária Popular não se constrói apenas com acesso à terra. Ela nasce da organização coletiva, da partilha, da solidariedade e da transformação social construída diariamente pelas mulheres trabalhadoras.

São mulheres que organizam marchas, produzem alimentos saudáveis, enfrentam violências, coordenam territórios, cuidam da saúde popular, constroem espaços de formação e mantêm viva a esperança nos acampamentos e assentamentos de todo o país.

Neste mês de maio, marcado historicamente pela luta popular e pela organização das mulheres trabalhadoras, as mulheres do MST seguem reafirmando que não existe transformação social sem feminismo popular, sem participação coletiva e sem a força das mulheres organizadas.

Como resume Dora, em uma frase que ecoa nos territórios da Reforma Agrária Popular:

Mulheres em luta, semeando resistência. A mulher largou o fogão para fazer revolução. E o lugar da mulher é onde ela quiser.”

**Editado por Inaiá Misnerovicz e Fernanda Alcântara