Educação
MST-PR oferece 1º curso de bioinsumos e homeopatia na agroecologia para assentados da Reforma Agrária Popular
Formação realizada na Escola Milton Santos de Agroecologia integra a estratégia estadual de bioinsumos e fortalece a produção agroecológica nos territórios da Reforma Agrária Popular

Por Camila Calaudiano
Da Página do MST
O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) adotou os bioinsumos como parte da estratégia nacional de massificação da agroecologia, por serem recursos biológicos capazes de estimular o desenvolvimento agrícola sem agredir o meio ambiente.
Os bioinsumos são considerados uma alternativa estratégica para a agricultura do futuro por contribuírem com a transição agroecológica e a qualificação dos sistemas produtivos. Segundo o engenheiro agrônomo e coordenador da frente de Bioinsumos no Paraná, Jocinei Gonçalves de Lima, esses produtos, geralmente desenvolvidos a partir de microrganismos, possibilitam melhorar os padrões de produção e ampliar a escala produtiva.
Desde os primeiros acúmulos construídos pelo Movimento em torno da agroecologia e da produção nos territórios da reforma agrária, o debate sobre os bioinsumos vem ganhando força ao longo dos anos. Em 2021, se estruturou como um coletivo nacional e, em 2022, se transformou em um eixo dentro da Frente de Agroecologia do Setor de Produção, Cooperação e Meio Ambiente (SPCMA), com a estruturação de estratégias voltadas à ampliação da produção e do uso de bioinsumos nos assentamentos e acampamentos.
A iniciativa busca garantir que as famílias Sem Terra tenham acesso a alternativas sustentáveis aos agrotóxicos e defensivos químicos convencionais, amplamente utilizados no controle de insetos, pragas e doenças que afetam as lavouras. A proposta fortalece a agroecologia como modelo de produção, promovendo maior autonomia produtiva, redução dos custos de cultivo e preservação da saúde humana e do meio ambiente.

A riqueza dos bioinsumos está na atuação integrada de organismos vivos presentes na biodiversidade brasileira. A ampla comunidade de microrganismos — como bactérias, fungos, actinomicetos e protozoários — existente no solo e nas plantas desempenha papel fundamental no desenvolvimento saudável dos cultivos, contribuindo para o aumento da produtividade e da sanidade agrícola.
Jocinei também destaca que os microrganismos utilizados nos bioinsumos representam, possivelmente, uma das últimas fronteiras de recursos naturais ainda amplamente disponíveis no planeta, em um cenário no qual diversos outros recursos já apresentam sinais de esgotamento devido à exploração intensa.
Nesse contexto, o patrimônio microbiano brasileiro desponta como um dos maiores potenciais estratégicos para o desenvolvimento de uma agricultura mais sustentável, produtiva e inovadora.
Disputa política e econômica acerca dos bioinsumos

Os bioinsumos representam hoje uma das principais alternativas para garantir a sustentabilidade da produção agrícola em larga escala e, por ocuparem um papel estratégico na agricultura do futuro, esses recursos também se tornaram tema de disputas econômicas, tecnológicas e políticas.
O que torna fundamental que a agricultura camponesa participe ativamente da construção do debate sobre os bioinsumos. “Caso contrário, os ativos microbianos que dão origem a importantes bioinsumos continuarão sendo acessados apenas por quem pode pagar, normalmente empresas multinacionais”, afirma Jocinei.
O debate também evidencia a necessidade de ampliar o desenvolvimento tecnológico voltado à agricultura familiar, garantindo que agricultores tenham acesso aos recursos biológicos existentes no próprio território brasileiro. Segundo o agrônomo, o Brasil possui um dos maiores patrimônios microbianos do planeta.


Para que essa biodiversidade seja convertida em bioprodutos acessíveis, comercializáveis e aplicáveis na prática, Jocinei defende a participação dos camponeses nos processos de pesquisa, desenvolvimento e construção de modelos produtivos orientados pelos princípios da agroecologia. Nesse contexto, a formação técnica dos agricultores passa a ser considerada estratégica para ampliar o acesso e a apropriação desse conhecimento.
No Paraná, parte da estratégia estadual da frente de bioinsumos é justamente a formação sobre o tema, entendida como um eixo transversal que acompanhará o avanço das demais ações. Nesse sentido, o curso Homeopatia e Bioinsumos na Agroecologia, de Formação Inicial e Continuada (FIC), deu início a um processo de qualificação de agricultores voltado ao uso, produção e compreensão dos bioinsumos na agroecologia.
Inicialmente, o curso contava com 25 vagas, mas recebeu uma grande procura e fechou o primeiro módulo com 43 inscritos. A capacitação será desenvolvida em quatro etapas de três dias cada, sendo as duas primeiras voltadas aos bioinsumos e as duas últimas à homeopatia, e é totalmente pensada para a realidade dos agricultores. A organização em módulos de curta duração permite que os agricultores participem sem permanecer muito tempo fora das suas unidades produtivas.

A formação é realizada pelo Instituto Federal do Paraná (IFPR) — Centro de Referência de Maringá e Campus Ivaiporã —, pela Escola Milton Santos de Agroecologia, pela Cooperativa Central da Reforma Agrária do Paraná (CCA-PR) e pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Também contribui para o curso o Instituto Federal de São Paulo (IFSP), campus Avaré.
A iniciativa conta ainda com o apoio do Núcleo de Estudos em Agroecologia e Produção Orgânica do Território Vale do Ivaí; das cooperativas da reforma agrária do estado do Paraná; e da Itaipu Binacional, por meio do convênio Semeando Gestão – Fortalecendo a Organização Produtiva Sustentável.
A próxima etapa está prevista para ocorrer entre 11 e 13 de junho de 2026, também na Escola Milton Santos de Agroecologia.
*Editado por Leonardo Correia



