Agro é Veneno
Bayer escolhe Brasil para estrear complemento a agrotóxico mais polêmico do mundo
Pressionada pela crescente resistência de pragas aos agrotóxicos convencionais e por ações judiciais que associam riscos à saúde humana ao Roundup, o mais popular herbicida do mundo, gigante alemã aposta em novo produto que já gera preocupação entre ativistas e pesquisadores

Por Carla Ruas e Sílvia Lisboa
Do Repórter Brasil
Líder mundial do mercado de agrotóxicos, a Bayer prepara o lançamento de um novo herbicida que será vendido primeiro no Brasil.
Com estreia prevista para 2028, o icafolin-metil é, antes de tudo, uma aposta contra a crescente resistência de pragas aos pesticidas disponíveis no mercado. Mas também representa uma resposta às acusações de que o Roundup — um dos principais insumos agrícolas comercializados pela gigante alemã da biotecnologia — estaria associado ao desenvolvimento de câncer em seres humanos.
Alvo de 192 mil processos apenas nos Estados Unidos, que já consumiram ao menos US$ 11 bilhões da companhia em acordos judiciais, o Roundup tem como princípio ativo o glifosato e é um dos agrotóxicos mais populares do mundo, largamente utilizado contra plantas daninhas em lavouras de grãos.
Segundo a própria Bayer, o icafolin surgiu para complementar o Roundup, cada vez menos eficaz. Mesmo antes de ser vendido, porém, o novo herbicida da Bayer já vem ligando o alerta entre ambientalistas e especialistas ouvidos pela Repórter Brasil. Assim como acontece com o glifosato, as preocupações sobre o icafolin giram em torno dos potenciais impactos sobre o meio ambiente e a saúde pública.
“Até agora, a empresa revelou muito pouco, o que é preocupante. Antes de utilizar novos produtos químicos, precisamos ter certeza absoluta de que são seguros”, afirma Dina Akhmetshina, especialista em políticas públicas da ONG americana U.S. PIRG.
Procurada, a assessoria de imprensa da Bayer no Brasil informou que a empresa não se manifestaria sobre o novo produto.
Registro de novo herbicida corre como prioridade em órgãos competentes do Brasil
O icafolin-metil já recebeu o aval toxicológico da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). Para o seu uso técnico e comercial, no entanto, faltam as aprovações do Mapa (Ministério da Agricultura) e do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis). Esses processos tramitam com prioridade no governo federal.
A autorização do agrotóxico também tem pendências no Canadá, União Europeia e Estados Unidos.
“É muito problemático a Anvisa ter aprovado antes de outras agências regulatórias, porque mostra que o princípio ativo ainda não foi devidamente analisado”, afirma Luiz Claudio Meirelles, ex-gerente da agência e pesquisador da Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz. “É claro que precisamos substituir imediatamente o glifosato, que já se provou perigoso para a saúde humana, mas é preciso ter cautela na avaliação de novos agrotóxicos”, complementa.
Em 6 de maio, membros da diretoria colegiada da Anvisa aprovaram de forma unânime o princípio ativo do icafolin, abrindo caminho para o uso do ingrediente no país. A agência estabeleceu limites de ingestão diária de resíduos da substância semelhantes aos do glifosato. Já o valor aceitável para a exposição de trabalhadores no campo será três vezes maior. Não houve comentários na consulta pública, feita antes da reunião.
Por email, a Anvisa afirmou que ainda fará uma avaliação dos produtos formulados com a substância, “ocasião em que são considerados, adicionalmente, os demais componentes da formulação e os cenários reais de uso”.

O Ministério da Agricultura já anunciou que o agrotóxico terá prioridade no processo de registro, passando à frente de centenas de outros produtos que aguardam aprovação. Em ofício, a pasta justificou a prioridade dizendo se tratar de um novo mecanismo de ação contra planas daninhas.
O Ibama afirmou por e-mail que ainda não iniciou a avaliação técnica do icafolin. Segundo o site da agência, existem 1.308 processos à frente na fila – embora isso possa mudar. No final de abril, segundo informações da Agenda Transparente, executivos da Bayer se reuniram com o setor de avaliação e controle da agência ambiental para discutir o icafolin. Desde que solicitou o registro, a Bayer teve 62 agendas com órgãos do governo federal — uma média de 3 por mês.
Em artigo científico publicado no ano passado, cientistas da Bayer explicam que o novo agrotóxico atua bloqueando as funções fisiológicas de plantas invasoras de lavouras.
Ao inibir o desenvolvimento de fios de tubulina, uma espécie de esqueleto das plantas, a planta para de crescer e fica “congelada” no campo. É um mecanismo de ação distinto do glifosato, que bloqueia enzimas responsáveis pela produção de aminoácidos essenciais à vida das plantas.
Em seu site, a Bayer afirma ter usado inteligência artificial para desenvolver a tecnologia, uma nova classe química para o controle de ervas daninhas em crescimento. De acordo com a empresa, esse é o primeiro novo modo de ação para combater ervas daninhas já brotadas em mais de três décadas.
Enquanto aguarda a aprovação do registro, a Bayer também protocolou no INPI (Instituto Nacional da Propriedade Industrial) uma patente para desenvolver sementes e plantas resistentes ao icafolin.
A estratégia é a mesma do Roundup: criar um “pacote tecnológico”, em que a empresa comercializa tanto o herbicida quanto as sementes resistentes ao agrotóxico. Nos últimos anos, a venda deste tipo de pacote aos produtores rurais transformou a Bayer em uma das maiores empresas de sementes do mundo.
Após o lançamento do produto no Brasil, líder no consumo de agrotóxicos, a Bayer pretende lançar o icafolin no mercado global. A empresa já pediu registro do princípio ativo e de patentes de sementes resistentes ao novo herbicida em uma dúzia de países, inclusive nos Estados Unidos e na União Europeia.

OMS classifica glifosato como provavelmente cancerígeno
Dina Akhmetshina, da U.S. PIRG, diz estar preocupada por se tratar de um insumo que deverá ser utilizado em grande escala. A própria Bayer afirmou que, “na maioria dos casos”, o icafolin-metil será aplicado em combinação com glifosato no pulverizador. No Brasil, uma área superior a 50 milhões de hectares de soja — quase o equivalente ao território de Minas Gerais — é manejada com glifosato, na sua maioria Roundup.
Ao anunciar os pedidos de registro do icafolin no Brasil e em outros países, a empresa afirmou que o herbicida tem um “perfil excepcional” de segurança e se enquadra na categoria regulatória de “risco reduzido.”
Porém, o único estudo publicado até agora sobre a segurança do insumo foi realizado por cientistas da Bayer, o que levanta dúvidas sobre as conclusões.
A pesquisa afirma que o icafolin-metil se degrada rapidamente no solo e que parte da substância se transforma em gás carbônico (CO₂). Os testes foram realizados em condições controladas de laboratório e, segundo especialistas consultados pela Repórter Brasil, não refletem o real comportamento da substância em campo.
Akhmetshina lembra que, no caso do Roundup, um dos herbicidas mais usados da história, estudos independentes levaram décadas para associar o produto ao risco de câncer. Em 2015, a IARC, uma agência da OMS (Organização Mundial de Saúde), avaliou o glifosato como provavelmente cancerígeno para humanos.
“A IARC nunca retrocedeu nesta classificação, mesmo com todas as pressões. E é um órgão muito conservador”, observa Luiz Claudio Meirelles, pesquisador da Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz.
Em dezembro do ano passado, um artigo científico que defendia o glifosato foi “despublicado” pela revista norte-americana Regulatory Toxicology and Pharmacology. Entre os motivos alegados estavam questões éticas, falta de integridade científica e desconfiança sobre os resultados da pesquisa.
Em março, um painel de cientistas americanos escreveu uma carta pedindo que autoridades limitem ou eliminem o uso de glifosato urgentemente, devido aos riscos à saúde humana. “Nós já vivemos as consequências da falta de transparência da Bayer. A empresa dizia que o glifosato era seguro, mas, após décadas de pesquisa, hoje temos fundamentos científicos que apontam para um sério risco associado ao seu uso”, diz o documento.
Até agora, nenhum estudo independente foi publicado sobre o icafolin, segundo o banco de dados PPDB (Pesticide Properties DataBase), desenvolvido pela Universidade de Hertfordshire, no Reino Unido. Uma das principais bases de dados técnicas sobre pesticidas no mundo, o site mostra uma planilha praticamente em branco, indicandoa ausência de informações sobre riscos do icafolin.

Cresce resistência de pragas ao Roundup
De acordo com a base de dados internacional Weed Science, 62 espécies de plantas invasoras já estariam imunes ao Roundup, sendo 11 no Brasil, incluindo as que mais atrapalham as lavouras, como a Amaranthus palmeri. Conhecido como caruru-gigante, a erva daninha já é responsável por perdas milionárias na soja e no milho.
Para Steve Powles, especialista em culturas agrícolas e professor emérito da University of Western Australia, a resistência de ervas daninhas ao glifosato não surpreende. “Se você usar repetidamente o mesmo produto químico para controlar uma população variada de plantas daninhas, em algum momento surgirão plantas resistentes. É simples assim”, afirma. O glifosato é usado de forma incessante há três décadas.
Powles presidiu a Weed Science Society of America (WSSA), associação científica internacional dedicada ao estudo de plantas daninhas. Em 1998, publicou um dos primeiros estudos documentando a resistência ao glifosato, principal ingrediente do Roundup.
“Na época, eu previ que, se o glifosato continuasse a ser amplamente usado no milho e na soja – primeiro nos Estados Unidos, depois no Brasil e na Argentina –, o herbicida perderia eficácia. E não precisava ser nenhum Einstein para concluir isso”, disse.
Mesmo assim, o pesquisador acredita que a Monsanto — fabricante inicial do Roundup, posteriormente adquirida pela Bayer — foi pega de surpresa. “Eles não achavam que a resistência iria evoluir porque o glifosato havia sido usado por muito tempo sem problemas”, disse.
Hoje, 30 anos após o lançamento, o Roundup já não pode mais ser utilizado sozinho. A Bayer inclusive já comercializa produtos à base de dicamba para complementar o herbicida e desenvolve sementes capazes de resistir a múltiplos agrotóxicos.
Segundo Bill Freese, diretor científico do Center for Food Safety (CFS), a introdução do icafolin e de novas sementes resistentes ao herbicida geram um alerta. Sua organização, sediada em Washington, D.C., atua na defesa de sistemas alimentares e agrícolas sustentáveis, com foco em pesticidas.
Freese compara o icafolin ao dicamba, herbicida utilizado como complemento ao glifosato em lavouras geneticamente modificadas. Nos Estados Unidos, a deriva do produto causou danos a milhares de hectares de plantações vizinhas e, com o tempo, também contribuiu para o surgimento de plantas daninhas resistentes. “Ou seja, gerou outros problemas”, afirma.
Para ele, a Bayer segue uma lógica comercial. “Em vez de buscar soluções reais, eles desenvolvem culturas geneticamente modificadas que ampliam as vendas de herbicidas e geram ainda mais resistência em plantas daninhas — um ciclo vicioso altamente lucrativo para eles, mas totalmente insustentável”, avalia.
Bayer já gastou mais de US$ 50 bi em ações judiciais nos EUA
O lançamento do icafolin também ocorre em meio à pressão de investidores sobre a Bayer, que enfrenta custos bilionários relacionados aos processos judiciais contra o Roundup.
Há dez anos, a empresa responde a alegações nas cortes americanas de que o herbicida causa câncer. Até hoje, a empresa já desembolsou mais de R$ 50 bilhões em indenizações. Para 2026, a empresa projeta mais R$ 29 bilhões para custear as 60 mil ações judiciais que continuam pendentes.
Em uma teleconferência com investidores em março, o CEO da Bayer, Bill Anderson, sinalizou que a empresa passa por um momento difícil. “Estamos esperando um fluxo de caixa livre negativo este ano devido a pagamentos relacionados a litígios”, afirmou. A empresa chegou a dizer que poderia interromper as vendas do Roundup por causa dos riscos jurídicos.
Para sobreviver à crise, a Bayer criou uma estratégia que inclui o lançamento do icafolin, que deve gerar R$ 4 bilhões de vendas iniciais. Também retirou glifosato de produtos comerciais nos Estados Unidos, embora um relatório recente da organização Friends of the Earth US aponte que os produtos reformulados continuam tóxicos.
Em outra frente, a Bayer apelou à Suprema Corte dos Estados Unidos para limitar os litígios. A empresa pede que não seja responsabilizada no âmbito estadual pela falta de alerta de câncer nos rótulos do Roundup. O argumento é que a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA) já aprovou o produto sem essa advertência.
Para Kendra Klein, diretora adjunta de ciência da Friends of the Earth, a decisão dos juízes será crítica para definir o futuro da Bayer/Monsanto. “Ao buscar imunidade jurídica, a Bayer tenta fechar a única via em que teve de responder pelos danos causados por seus produtos. Os tribunais são o único lugar onde corporações de pesticidas têm sido responsabilizadas”, afirma Klein.
Ao mesmo tempo, a companhia tem tentado mudar legislações estaduais nos EUA com o objetivo de proteger fabricantes de pesticidas de novas acusações. Os estados da Geórgia e Dakota do Norte já aprovaram mudanças na lei que impede usuários de processar a empresa por falta de aviso de segurança.
A Bayer também tem realizado forte lobby com resultados na Casa Branca, segundo relatório da organização não governamental US Right to Know. Em fevereiro, o presidente Donald Trump usou poderes especiais de guerra para emitir uma medida executiva que protegeu a produção de glifosato nos Estados Unidos. A medida chegou a irritar os apoiadores do presidente que defendem a saúde pública, integrantes do movimento MAHA (Make America Health Again).
Edição Carlos Juliano Barros



