Agroecologia e Educação

MST realiza encontro de Núcleos de Agroecologia no Vale do Rio Doce

Encontro destacou que agroecologia nasce da diversidade produtiva e da cooperação entre territórios, conectando experiências para avançar na retomada econômica

Foto: MST em MG

Por Iris Pacheco
Da Página do MST

Na última quarta-feira (12), o MST realizou o I Encontro Regional dos Núcleos de Agroecologia do Vale do Rio Doce, no Assentamento Primeiro de Junho, em Tumiritinga (MG). A atividade buscou traduzir uma das principais forças da agroecologia construída pelo MST na região, ela acontece a partir da organização coletiva.

Reunindo famílias assentadas e militantes de diferentes territórios, o encontro foi um momento de avaliação de uma trajetória de dez anos dos Núcleos de Agroecologia e, ao mesmo tempo, de fortalecimento de uma construção maior, o Programa Popular de Agroecologia na Bacia do Vale do Rio Doce.

O 4º Seminário de Integração do Programa, realizado em julho, já havia apontado a necessidade de ampliar esse processo e acolher novos sujeitos nessa construção. Nesse sentido, o encontro dos Núcleos de Agroecologia se configura como uma dimensão territorial e organizativa que dá sustentação a essa estratégia mais ampla da organização.

“Os Núcleos do Rio Doce são uma forma de organizar a construção da agroecologia”, afirmou Bruno Diogo, do Setor de Produção do MST.

Onde o Programa ganha vida

Foto: MST em Minas Gerais

Mais do que espaços para desenvolver atividades produtivas, os Núcleos funcionam como pontos de articulação permanente nos assentamentos. É a partir deles que as famílias se encontram, identificam demandas, organizam mutirões, compartilham conhecimentos e constroem coletivamente as ações que dão concretude à massificação da agroecologia.

Essa dimensão é fundamental para o Programa Popular de Agroecologia, que articula uma estratégia para toda a Bacia do Rio Doce . Os Núcleos são parte da organização que permite essa estratégia chegar aos territórios. É nos assentamentos que os planos se transformam em canteiros, quintais produtivos, agroflorestas, viveiros, casas de sementes, mutirões e alimentos produzidos de forma saudável.

Porém, até chegar nesse ponto, é preciso haver luta e a conquista da terra. É o que Vânia Maria, assentada e do Setor de Produção, lembrou ao recuperar a trajetória dos Núcleos na região. “Ocupar terra é fazer agroecologia”.

Foto: MST em Minas Gerais

Para ela, a organização construída ao longo desses dez anos também foi capaz de transformar a dinâmica de comunidades que enfrentavam momentos de desmobilização. “Os núcleos trouxeram vida e motivação para vários assentamentos que estavam sem vida.”

Essa experiência acumulada passa agora a contribuir diretamente para uma nova etapa da agroecologia no Vale do Rio Doce, em que diferentes iniciativas precisam estar conectadas e orientadas por uma estratégia comum.

A assentada Lúcia Martins também compartilhou parte da trajetória dos Núcleos de Agroecologia no Vale do Rio Doce. De acordo com ela, são dez anos de experiências que mostram que a agroecologia não se constrói a partir de uma única técnica ou projeto, mas da combinação entre conhecimento popular, organização, diversidade produtiva e cooperação. “Não tem agroecologia se não tiver diversidade”, destacou.

Essa diversidade também está na base do Programa. Para além dos sujeitos que o compõe, cada assentamento possui uma realidade, uma história, diferentes condições de solo, água, produção e organização. Por isso, a construção de uma estratégia regional depende da capacidade de reconhecer as experiências existentes e, ao mesmo tempo, conectá-las.

Foto: MST em Minas Gerais

Nesse sentido, os Núcleos funcionam como espaços de experimentação e irradiação das ações do Programa Popular de Agroecologia. Uma experiência construída em um assentamento pode ser compartilhada com outro, uma técnica pode ser adaptada, uma semente pode circular, um mutirão pode reunir famílias de diferentes territórios e uma experiência produtiva pode se transformar em referência para novas ações. “Agroecologia é ciência, é conhecimento,” como bem ressaltou Bruno no início da atividade.

Da agroecologia à retomada econômica

A organização dos Núcleos também abre caminho para enfrentar um dos desafios centrais do Programa: fortalecer a autonomia econômica das famílias assentadas. “A partir da força do Núcleo de Agroecologia, poderemos avançar na comercialização da nossa produção”, contribuiu Vinicius Balbinotti.

A fala aponta para uma compreensão ampliada da retomada econômica agroecológica. Não se trata apenas de aumentar a produção, mas de construir condições para que os alimentos produzidos nos assentamentos encontrem caminhos de comercialização, fortalecendo a renda das famílias e a autonomia dos territórios.

Assim a produção, organização e comercialização passam a fazer parte de uma mesma estratégia. E o fortalecimento dos Núcleos permite identificar o que cada território produz, quais são suas potencialidades, quais são os gargalos e onde existem possibilidades de cooperação. Essas informações e experiências alimentam a própria construção do Programa e ajudam a transformar iniciativas dispersas em uma ação regional articulada.

Foto: MST em Minas Gerais

É fundamental considerarmos que essa construção acontece em um território marcado pelas consequências da degradação ambiental e pelos impactos de diferentes modelos de exploração da Bacia do Rio Doce. Nesse cenário, a agroecologia é apresentada pelas famílias não apenas como uma alternativa de produção, mas como uma estratégia de enfrentamento das crises. “Agroecologia está sendo caminho de superação das crises”, salientou Maíra Santiago, do Setor de Produção.

Durante a atividade, o debate também foi acompanhado de práticas que expressam essa concepção de agroecologia como a tradução em Libras, que amplia as condições de participação e reafirma a importância da acessibilidade nos processos de formação e organização. Além do plantio de árvores, que fortaleceu as reflexões e simbolizou o que os Núcleos vêm construindo há uma década, cada experiência é uma semente, mas é a organização coletiva que permite que ela cresça.

A atividade terminou com uma mística de solidariedade ao povo cubano, conectando a experiência construída no Vale do Rio Doce à perspectiva de solidariedade internacional que atravessa a organização do MST, incluindo a metodologia Camponês a Camponês para a territorialização da agroecologia.

*Editado por Fernanda Alcântara