Futebol Feminino

Esporte vira aposta política do MST para emancipação das mulheres do campo

Iniciativa que começou no Ceará em 2024 já chega ao Rio Grande do Norte, com novas seletivas previstas para Pernambuco e Bahia nos próximos meses

Foto: Maike Films

Por Fernanda Alcântara
Da Página do MST

O futebol feminino vem ganhando espaço dentro das áreas de assentamentos e acampamentos do MST, e neste mês uma seletiva realizada no Rio Grande do Norte é exemplo desse movimento. Em parceria com o clube Ferroviária, a iniciativa reuniu meninas de diferentes regiões do estado, abrindo caminho para que talentos da base Sem Terra possam, no futuro, vestir a camisa de clubes maiores ou até da seleção brasileira.

Para quem está à frente da organização, o gesto vai muito além da bola rolando em campo. Assim destaca Márcio Mello, da coordenação estadual do MST, de que a aposta em “investir no futebol feminino, principalmente para nossas áreas de assentamento e acampamento”, é uma forma de reconhecer o esporte como ferramenta de inclusão e visibilidade para a juventude.

A dimensão política da ação também é central nesta dinâmica. A seletiva é descrita como tendo trazido “um impacto importante político também para a região”, já que ampliou a presença do Movimento em iniciativas esportivas.

A expectativa, segundo Mello, é de continuidade, sendo a última seletiva apenas a primeira etapa de muitas a serem realizadas no estado e no país, fortalecendo o vínculo entre esporte, organização política e território, nas áreas de assentamento e acampamento do MST.

Neste sentido, ver hoje as mulheres Sem Terra ocupando esses espaços é apontado como resultado de uma conquista coletiva que marcou a história de todo o país. Com a potência do esporte em atuar como uma poderosa ferramenta de inclusão, emancipação e transformação social nos territórios, e lembrando que o futebol historicamente foi proibido para mulheres no Brasil até a década de 1980.

Confira abaixo a entrevista com Irislene Dias e Joel Gomes, ambos da Frente de Esporte e Lazer do MST no Ceará, sobre os sentidos políticos do futebol nas áreas de assentamento e acampamento ligadas ao Movimento.

Primeiro, gostaria de saber como essa proposta começou, a partir da mística e da organização nos acampamentos do MST?

Sabemos que desde a ocupação da terra, um dos primeiros espaços construídos no acampamento é o campo de futebol, sendo o pontapé das atividades de esporte e lazer, tornando-se um espaço de convivência e formação.

A partir da organização da equipe, logo vem a participação nos torneios locais e jogos amistosos.

A seletiva é resultado dessa construção histórica e coletiva, especialmente da juventude organizada, onde conseguimos mapear perfis em condições de entrar no futebol profissional.

Nossa primeira experiência aconteceu no Ceará em 2024, em parceria com o Corinthians, envolvendo cerca de 100 participantes entre meninos e meninas, que participaram na copa estadual da Reforma Agrária, onde foram indicadas/os para participarem da seletiva.

Em seguida, a Ferroviária se colocou à disposição, focando no futebol de mulheres, no qual já tivemos a primeira seletiva que aconteceu no estado do Rio Grande do Norte, neste mês de junho, e já temos outras com datas marcadas nos estados de Pernambuco e Bahia.

Seletiva de Futebol Feminino no Rio Grande do Norte. Foto: Maike Films

Que sentidos políticos a abertura de seletivas nos territórios traz para a luta pela Reforma Agrária Popular?

Nossa participação nas seletivas está situada em um debate que precisa ser aprofundado, pois tem relação com a inserção de nossa juventude no esporte de alto rendimento, considerando que as selecionadas serão inseridas no mundo profissional cercado de contradições e de forte influência do capital.

No entanto, se nós não nos envolvermos nesse processo, os empresários irão se apoderar dos potenciais existentes nos nossos territórios. Precisamos ter clareza de nossa intencionalidade política com nossa participação nas seletivas. Outro desafio que se coloca é qual o espaço de acolhida desses meninos e meninas selecionados. Precisamos criar um espaço ou instrumento de mediação entre as famílias e os clubes.

Como o futebol nas áreas do MST reconstrói o protagonismo feminino depois do histórico da proibição estatal?

Mesmo sendo reconhecidos como o país do futebol, sabemos que até o início da década de 80 as mulheres não podiam praticar a modalidade [que era proibida para elas no país]. Dessa forma, ver hoje as mulheres, sobretudo as mulheres Sem Terra ocupando esses espaços, é resultado de uma conquista coletiva que marcou a história de todo o país, que mesmo diante dos desafios que ainda persistem, seguimos avançando, rompendo barreiras e reafirmando que esses espaços também nos pertencem.

Para a juventude, e especialmente para as mulheres, o futebol representa uma oportunidade de participação, fortalecimento e protagonismo. As mulheres que entram em campo hoje mostram os frutos da Reforma Agrária Popular, afirmando que o futebol é uma poderosa ferramenta de inclusão, emancipação e transformação social nos territórios, inspirando outras mulheres a ocuparem, com pertença, todos os espaços que historicamente lhes foram negados, potencializando assim a participação das mulheres na modalidade.

Seletiva de Futebol Feminino no Rio Grande do Norte. Foto: Maike Films

Quais obstáculos materiais e simbólicos que as jovens atletas do campo ainda enfrentam para chegar às categorias de base?

Os obstáculos que enfrentamos são reflexos de problemas estruturais que existem para além de nossos territórios. Sem apoio do Estado, com garantia mínima de estrutura para prática esportiva não vamos conseguir avançar. Temos desafiado os assentamentos a organizarem escolinhas, mas se não tiver financiamento público para garantir as condições, desde a construção de equipamentos à garantia de profissionais qualificados/as para orientar nossas crianças, vamos continuar com dificuldades para avançar nessa demanda.

A parceria com a Ferroviária abre um importante espaço para inserção profissional, inclusive em uma perspectiva que dialoga com a concepção de esporte que estamos construindo, mas é preciso garantir condições estruturais do ponto de vista local. A dimensão formativa precisa ser garantida na organização de escolinhas, pensando na perspectiva contra-hegemônica da lógica posta hoje no futebol profissional.

De que forma a prática coletiva nos campos de acampamentos e assentamentos contribui para formar cidadãs e militantes na luta de classes?

A prática coletiva organizada nesses espaços, que também são coletivos, de luta e formativos, possibilita um estudo e a compreensão da realidade, promovendo as experiências concretas do Movimento, desenvolvendo uma consciência crítica sobre as relações, contribuindo para a formação cidadã e de militantes, comprometidos com a organização e a defesa da Reforma Agrária Popular.

Sem Terra não enrola, ocupa terra e joga bola”.

*Editado por Solange Engelmann