Rebeldia Cubana
Festival da Rebeldia reafirma que Cuba vive, resiste e não está sozinha!
Em celebração ao histórico 26 de julho, o Movimento Sem Terra reúne lideranças e militância no Espaço Cultural Elza Soares para relembrar o legado de Fidel Castro

Por Fernanda Alcântara
Da Página do MST
No último domingo, dia 26 de julho, o Espaço Cultural Elza Soares recebeu o Festival da Rebeldia Cubana, um dia inteiro dedicado a atividades que uniram debate político, mística e celebração popular em homenagem ao aniversário do assalto ao Quartel Moncada, marco fundador da Revolução Cubana. O evento deu início à Jornada de Lutas que irá celebrar o centenário de nascimento de Fidel Castro.
Sob mediação de Judith Santos, do Setor de Internacionalismo do MST, a mesa de debates reuniu o Cônsul de Cuba, Benigno Perez; a representante do Associação Cultural José Martí de São Paulo, Lina Noronha, e o dirigente nacional do MST, João Pedro Stedile. A programação cultural contou ainda com contação de histórias com Chiara Beltrame — inspirada no livro Che Guevara: os valores que meu pai me ensinou, de Aleida Guevara —, torneio de xadrez e shows das bandas Mistura Popular e El Majadero, além de set do DJ Levi.
“A utopia não é um lugar, é um caminho”
A atividade começou com a mística de abertura, elemento central da organização política dos trabalhadores Sem Terra. Durante a mística, o público entoou em coro o verso “você não me derrubou”, simbolizando a resistência de Cuba frente às pressões externas e ao bloqueio econômico de países imperialistas.

O festival resgatou a memória do 26 de julho de 1953, data em que um grupo de aproximadamente 120 jovens, liderados por Fidel e Raúl Castro, tentou tomar o Quartel Moncada, em Santiago de Cuba, e o Quartel Carlos Manuel de Céspedes, em Bayamo. O objetivo era obter armas para o povo e iniciar uma insurreição contra a ditadura de Fulgêncio Batista. Embora a ação militar tenha resultado em uma derrota imediata, com muitos revolucionários capturados e executados, o episódio tornou-se uma vitória política ao consolidar o Movimento 26 de Julho.
A defesa de Fidel no tribunal, sintetizada na obra “A História me Absolverá”, denunciou os problemas de Cuba na época: fome, analfabetismo e a necessidade de uma Reforma Agrária. Durante o festival em São Paulo, lideranças destacaram que esse legado permanece atual para a juventude. A Revolução Cubana, vitoriosa em 1959, é vista pelo Movimento como uma referência histórica de que é possível construir um modelo de desenvolvimento voltado para as necessidades populares, desafiando a hegemonia do capital.
Os debates abordaram a conjuntura atual da ilha e os desafios impostos pelo bloqueio dos Estados Unidos. Paralelamente, o festival ofereceu atividades pedagógicas para as crianças, com sessões de contação de histórias coordenadas por Chiara Beltrame, baseadas no livro “Che Guevara: os valores que meu pai me ensinou”, de Aleida Guevara.
A programação cultural também incluiu um torneio de xadrez, set do DJ Levi e apresentações musicais das bandas Mistura Popular e El Majadero, além de danças tradicionais cubanas. Às 12h30, foi servido um almoço com cardápio e bebidas típicas cubanas, como parte da estratégia de arrecadação de fundos.

As falas das lideranças presentes reforçaram a importância da solidariedade ativa. O escritor Fernando Morais, que completou 80 anos no último 22 de julho, destacou em seu balanço de vida a honra de ter testemunhado a resistência cubana, afirmando que a Revolução segue de pé e foi “a Revolução mais atrevida, valente e corajosa que minha geração viu!”.
Enterramos dez presidentes americanos, e vamos enterrar mais dez. São 67 anos de Revolução e vamos completar mais 67, porque se a Revolução abaixa a cabeça, o imperialismo corta. Então só temos uma saída: resistir”, enfatizou Morais.
Aline Noronha criticou a postura de Washington, apontando que o objetivo histórico dos EUA é impor a Cuba um destino de submissão, subestimando o orgulho e a força do povo cubano. “O Assalto ao Quartel Moncada foi uma vitória política, pois deu início ao processo revolucionário e ganhou o apoio do povo cubano.”
O Cônsul-Geral de Cuba, Benigno Pérez Fernández, trouxe um tom de vigilância, argumentando que a única saída para a ilha é a resistência, uma vez que qualquer sinal de recuo serviria apenas para intensificar o cerco econômico. Ele lembrou que, independentemente da alternância de governos nos EUA, a essência do bloqueio e das pressões permanece inalterada. “O governo Trump pensava que nós nos renderíamos, mas eles não conhecem o povo cubano!”
Solidariedade internacionalista

A realização do festival denuncia também os impactos humanitários do bloqueio comercial e financeiro mantido unilateralmente pelos Estados Unidos há mais de 60 anos. João Pedro Stedile situou essa agressão dentro da crise estrutural do capitalismo, criticando mecanismos como a “privatização do ar” via créditos de carbono e o descaso com as tragédias climáticas, comparando a resistência cubana à necessidade de um novo modelo de vida soberano e ecológico.
Atualmente, Cuba enfrenta graves dificuldades no fornecimento de combustíveis e apagões frequentes. Mesmo sob essa asfixia, o país mantém a estrutura de serviços básicos; as escolas funcionam em regime misto para não paralisar o ensino, e a população se organiza coletivamente para enfrentar o desabastecimento de insumos médicos vitais. Lideranças do MST pontuaram que apoiar Cuba neste momento não é apenas um ato humanitário, mas uma defesa política do direito de autodeterminação dos povos contra o imperialismo. “A melhor maneira de homenagearmos Fidel é fazendo a luta de classes aqui no Brasil, e construir um projeto de país que seja anti-capitalista”, afirmou Stedile.
Durante o festival foi relembrado diversas vezes a importância da campanha nacional “Ajude Cuba”, que arrecada fundos para o envio de medicamentos básicos à ilha. O recurso gerado pelo consumo de alimentos, bebidas e coquetéis durante o evento foi integralmente revertido para a compra de insumos médicos como dipirona, paracetamol e aspirina, que estão em falta nas farmácias cubanas devido às sanções.
O Festival da Rebeldia Cubana encerrou suas atividades reafirmando que a solidariedade é uma ferramenta indispensável na luta dos povos. O evento demonstrou que a resistência cubana iniciada em Moncada continua a inspirar os Sem Terra em cada acampamento e assentamento do MST no Brasil. Como ressaltou a mística final, a solidariedade internacional é a prova de que a ilha não está isolada, apesar das tentativas de Washington.
O chamado final do Movimento convoca a militância e a sociedade civil a fortalecerem a campanha de medicamentos e a manterem a denúncia permanente contra o bloqueio criminoso. A luta de Cuba pela soberania é interpretada como a mesma luta brasileira pela Reforma Agrária e por um projeto popular de país. O festival serviu como documento histórico de que a rebeldia, quando organizada, transforma-se em ação concreta de vida e esperança.
Para quem deseja contribuir com a campanha de solidariedade “Ajude Cuba”, o Movimento mantém o canal aberto via PIX para o CNPJ 11.586.301/0001-65 (Instituto Nacional para o Desenvolvimento Social e Cultural do Campo).

*Editado por Solange Engelmann



