Reforma Agrária Popular

Alimento saudável e soberania popular: III Feira da Reforma Agrária reafirma a força do MST em Pernambuco

III Feira Estadual da Reforma Agrária do MST em Pernambuco ocupa as ruas do Recife Antigo a fim de aproximar o campo da cidade, conectar diretamente produtores a consumidores e mostrar a capacidade produtiva dos territórios

Foto: Gabriella Ambrósio

Por Mariane de Barros – Comunicação MST em Pernambuco
Da Página do MST

Nos dias 29 a 01 de agosto de 2026, nós, que compomos o Movimento Sem Terra de Pernambuco, entre místicas e intervenções poéticas, ocupamos as ruas do Recife Antigo com a nossa III Feira Estadual da Reforma Agrária. Com nossas bandeiras e produtos, reafirmamos o nosso compromisso com a produção de alimentos saudáveis, com a arte e a cultura e com o fortalecimento de ações concretas que contribuam com as pautas da educação do campo, da saúde e da cultura , e principalmente de um novo modo de produção.

Encerrada neste sábado (1º), a nossa feira reuniu camponeses e camponesas de 18 regionais, abrangendo 50 municípios de Pernambuco. No coração do Recife, o evento celebrou a diversidade dos produtos cultivados nos assentamentos da Reforma Agrária. O público pôde conferir mais de 50 variedades de itens in natura, como frutas, verduras e plantas, além de 38 tipos de alimentos beneficiados e um rico artesanato feito pelas mãos do povo Sem Terra. Aberta das 7h às 20h, a feira contou com 210 barracas e mobilizou 400 feirantes, destacando o protagonismo feminino com a participação de 255 mulheres feirantes.

A feira mais uma vez demonstra que o MST não desenvolve qualquer modo de produção, mas um modo que resiste sobretudo através do enfrentamento ao modelo hegemônico do monocultivo e do envenenamento. Assim, a Feira Estadual pretende ser um espaço de diálogo com a sociedade civil para que se compreenda a importância do Movimento e das feiras para que se avance no debate sobre a soberania alimentar e a soberania dos povos.

A programação se desenhou através de importantes debates que discutiram desde os desafios da educação do campo e das cooperativas nos assentamentos ao diálogo sobre a comercialização dentro do Movimento, assim como os meios de comercialização nos territórios. Os debates foram conduzidos por nomes do MST em Pernambuco como Jaime Amorim, da direção nacional, que construiu um espaço de diálogo sobre organização coletiva, produção e fortalecimento da Reforma Agrária, e Rubneuza Leandro, Sem Terra e doutora em pedagogia, que discutiu a respeito da educação do campo como transformadora de realidades e para fortalecimento da classe trabalhadora. Assim como Diego Moreira, do Setor Nacional de Produção do MST, e Caetano de Carli, superintendente do Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA) em Pernambuco.

Também contou com o lançamento dos novos produtos que foram produzidos pelas agricultoras e agricultores dos nossos territórios da Reforma Agrária e com intervenções do setor de Juventude e do Coletivo LGBTI+ Sem Terra.

Ato Político: Reforma Agrária e Soberania Popular. Foto: Gabriella Ambrósio

Na tarde do último dia de feira, nosso Ato Político tomou conta da Praça do Arsenal, contando com a presença de João Pedro Stédile, dirigente nacional do MST. Um Ato pela Reforma Agrária e pela Soberania Popular, temas defendidos pelo Movimento e debatido dentro da feira em todos estes dias. Aqui, fortalecemos a luta por um Brasil onde a terra cumpra sua função social e a produção de alimentos esteja a serviço do povo.

João Pedro Stédile, da direção nacional do MST, no Ato Político na III Feira Estadual da Reforma Agrária em Pernambuco. Foto: Gabriella Ambrósio

Celebração da arte e da cultura

Levante Popular da Juventude na Feira da Reforma Agrária. Foto: Gabriella Ambrósio

A primeira noite da Feira foi agitada pelo Levante Popular da Juventude de Pernambuco que trouxe para o palco o evento “BROTA”, um “movimento de pluralidade cultural e diversidade social, movimento que abraça e abrange periferias”. No BROTA, rolaram pockets shows, slam e batalha de MC’s que em suas rimas defendiam, entre outras pautas sociais, a luta contra a opressão policial.

Nas noites seguintes, o Festival Por Terra, Arte e Pão abrilhantou a programação da nossa Feira com a apresentação de shows gratuitos com artistas pernambucanos que passaram por nosso palco, espaço que ressalta a relação e compromisso do Movimento Sem Terra com a cultura e com a arte do nosso estado.
Essa forte presença cultural consolida a Feira do MST como um espaço que vai muito além da comercialização de produtos, reafirmando que a Reforma Agrária e a produção de alimentos saudáveis caminham de mãos dadas com a democratização do acesso à arte. Ao integrar as apresentações dos MC’s do “BROTA” e os shows do Festival Por Terra, Arte e Pão à programação oficial, o movimento demonstra de forma prática que a cultura é um pilar fundamental na construção da sua identidade e na articulação de suas lutas políticas e sociais.
Esse intercâmbio de expressões artísticas cumpre o papel essencial de conectar as realidades do campo e da cidade no coração de Pernambuco. Com isso, a feira se estabelece não apenas como um mercado de produção camponesa, mas como um polo vivo de resistência, debate crítico, celebração da diversidade e fortalecimento da soberania popular.

Vitória do Pife e a Banda Caruaru Camaleão no Festival por Terra, Arte e Pão. Foto: Íris Marcolino

Para além das regionais que comercializaram na feira, o setor de Saúde e o Coletivo LGBTI+ Sem Terra também ocuparam este espaço onde, para além de vender seus produtos, fortaleceram o diálogo sobre o cuidado através da medicina alternativa e natural, além da inclusão da diversidade.

“Brotamos no coração do Recife, em plena Bom Jesus, para dizer que somos as células que fazem pulsar a III Feira da Reforma Agrária do Estado de Pernambuco.” Com esse manifesto, o Coletivo LGBTI+ Sem Terra coloriu as ruas do evento para mostrar que a diversidade constrói o movimento. A presença do grupo se destacou tanto na organização quanto na comercialização de produtos, provando que a feira ganha vida pelas mãos, pelo trabalho e pela expressão artística das LGBTs Sem Terra.

Coletivo LGBTI+ Sem Terra comercializando produtos. Foto: Olomin Tapuya

A existência da Feira só é possível graças à intensa mobilização e auto-organização do Povo Sem Terra. Para além das bancas de venda, o evento se sustenta na economia do cuidado, materializada em setores indispensáveis. A Ciranda Infantil, por exemplo, garante que as mães camponesas tenham o suporte necessário para comercializar sua produção com tranquilidade. Somam-se a isso a Tenda da Saúde e o espaço da Culinária da Terra, estruturas fundamentais para assegurar que militantes e visitantes recebam cuidado integral e se alimentem com o fruto direto dos territórios da Reforma Agrária, uma produção que se dá através de uma comida de verdade, saudável e sem veneno.

Culinária da Terra. Foto: Gabriella Ambrósio

Finalizamos mais uma feira com a certeza de que a resistência não se faz apenas na luta pela terra, mas no afeto, no cuidado coletivo e na celebração da diversidade. A III Feira Estadual da Reforma Agrária provou que o modelo agroecológico defendido pelo Movimento Sem Terra vai muito além do enfrentamento ao agronegócio e ao veneno; trata-se da construção diária de um novo modo de viver e de produzir.

A feira cumpriu seu papel de vitrine da capacidade produtiva dos assentamentos, mas destacou-se sobretudo como um polo dinâmico de formação e cultura popular. O saldo que fica é o renovado compromisso do MST de seguir ocupando as ruas e os campos com fartura, agroecologia, diversidade e a determinação de construir um Brasil onde a terra esteja, verdadeiramente, a serviço da vida.

*Editado por Fernanda Alcântara