Saúde Popular
MST, Força SUS e FioCruz formam brigadas populares para atuar em catástrofes climáticas
Curso inédito prepara camponesas e camponeses de acampamentos e assentamentos da Reforma Agrária para atuar na prevenção, resposta e reconstrução dos territórios diante de eventos extremos, como enchentes e tornados

Por Setor de Comunicação e Cultura do MST no Paraná
Da Página do MST
O Setor de Saúde do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) do Paraná, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e a Força Nacional do Sistema Único de Saúde (SUS) se uniram em uma ação pioneira: o primeiro curso para formação de Brigadas Populares de Resposta a Desastres.
A formação iniciou em maio e se encerra no final de setembro, com etapas presenciais e atividades teóricas online. A proposta é preparar pessoas dos territórios para atuar na prevenção, durante situações de emergência e também no processo de reconstrução das comunidades atingidas por situações extremas como enchentes e tornados, por exemplo.
A proposta do curso nasceu a partir da ação conjunta do Setor de Saúde do MST no Paraná junto à Fiocruz e a Força Nacional do SUS após os tornados que atingiram o estado em novembro do ano passado. Sete pessoas morreram e milhares ficaram feridas, em 11 municípios da região Centro-sul do estado. Milhares de militantes do MST de acampamentos e assentamentos de todo o estado atuaram de forma rápida e organizada, especialmente em Rio Bonito do Iguaçu e Guarapuava, os municípios mais atingidos pelos tornados.

Para Maria Izabel Grein, do Setor de Saúde do MST e integrante da coordenação do curso, este tipo de ação tem se tornado cada vez mais urgente e necessária, diante da intensificação das catástrofes causadas pela crise ambiental e a destruição da natureza. “Que bom se pudéssemos ter em cada assentamento, em cada comunidade, uma Brigada de pessoas que sabem o que fazer e se dispõem a organizar esses espaços sociais para a prevenção”. Ela enfatiza as dificuldades ainda maiores enfrentadas no campo, em situações e extremos climáticos. “No campo a demora para chegar uma ajuda é bem maior que nos meios urbanos.”
Na apresentação do projeto, disponível no site da Fiocruz, a Fundação enfatiza a crescente frequência e magnitude de desastres climáticos em território nacional, que revelam a necessidade de fortalecer as capacidades locais. “A formação de brigadas populares constitui uma estratégia essencial para o fortalecimento da resiliência comunitária, fundamentada na construção de inteligência cooperativa e autonomia territorial”, diz a instituição.



Segundo Maria Izabel, a formação também amplia a capacidade do Movimento de desenvolver ações de solidariedade de maneira organizada e qualificada. “Para o MST, um movimento social que tem a solidariedade como um dos valores fundamentais na construção da sociedade que almejamos, a formação de Brigadas Populares no enfrentamento de catástrofes e emergências é uma ação estratégica.”
A formação reúne cerca de 50 pessoas de diferentes regiões do Paraná e busca fortalecer uma rede popular de prevenção, resposta e solidariedade diante das catástrofes socioambientais. A experiência busca formar pessoas que possam atuar diretamente em suas comunidades, mas que também estejam preparadas para contribuir em outros territórios, quando necessário.



Atendimentos realizados durante a Brigada de Solidariedade às pessoas atingidas pelo tornado, em Rio Bonito do Iguaçu e Guarapuava, em 2025. Foto: Marcos Bueno
A experiência de Rio Bonito do Iguaçu
A organização coletiva em Rio Bonito do Iguaçu, município mais atingido por um tornado em 7 de novembro de 2025, tornou-se uma referência para a construção das Brigadas Populares. “A experiência de Rio Bonito nos mostrou a capacidade que temos de nos organizar, de convocar e de intervir em momentos de crise, de desastre”, afirma Maria Izabel.
Desde 12 de novembro, o Setor de Saúde do MST, formado majoritariamente por mulheres, se juntou à Brigada de Solidariedade para levar escuta, práticas de saúde popular e articulação com o SUS para amenizar o sofrimento das pessoas atingidas e ajudar na reconstrução.
O centro comunitário da Associação 8 de Junho, em Laranjeiras do Sul, se transformou na sede da ação estadual do MST em apoio às famílias afetadas. Além de cozinha solidária, alojamento e organização das equipes de infraestrutura para reconstrução das casas, foi criado o Espaço de Saúde Popular Luiza Aparecida. Ali, o cuidado começa cedo: às 6h da manhã, quando os primeiros chás calmantes e digestivos já estão prontos para acolher a militância que atua nos mutirões, e também se desloca para atender as famílias atingidas e que precisam de alívio físico ou emocional.
Desde os primeiros dias pós-desastre, o Setor de Saúde do Movimento percebeu que as lesões mais profundas não eram apenas físicas. Em meio aos escombros, predominavam sinais de esgotamento emocional: insônia, ansiedade, angústia, sensação de impotência, desesperança, revelando que uma lesão física é visível : o trauma psicológico é invisível e só é acessado pela escuta.
Para quem atua com saúde popular, o cuidado integral é inseparável da relação entre corpo, mente, território e coletividade. É por isso que, antes de atender os moradores, a primeira etapa da brigada foi cuidar da própria militância que está desde as primeiras horas do evento ajudando na reconstrução das comunidades.


Curso é resultado da atuação conjunta entre o Setor de Saúde do MST, a Força Nacional do SUS e a Fiocruz, após os tornados que atingiram o Paraná em 2025. Fotos: Antônio Santos
Chás, tinturas, pomadas, auriculoterapia, massagem, ventosa, alinhamento de energia, quiropraxia e rodas de conversa são parte das Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS) que fundamentam esse trabalho
A experiência também ensinou sobre a importância da preparação para situações de emergência e da articulação entre diferentes sujeitos e instituições. A brigada se soma ao trabalho da Força Nacional do SUS, da Secretaria Municipal de Saúde e da Vigilância Sanitária, em um processo de complementaridade entre a saúde popular e a atenção primária. “Podemos e devemos nos prevenir, diminuindo os impactos destes eventos, cuidando da natureza, produzindo comida, cuidando uns dos outros.”
A partir dessa experiência, o MST busca transformar a solidariedade construída em momentos de crise em uma capacidade permanente de organização popular. “A solidariedade reconstrói a economia, mas especialmente reconstrói as pessoas, nos torna seres humanos melhores e nos afirma que uma outra sociedade é possível, sendo vivenciada desde já.”
União entre movimento popular e o Estado
A parceria com a Fiocruz e a Força Nacional do SUS é outro elemento central da formação. A proposta parte da articulação entre os conhecimentos construídos pelo MST nos territórios e a experiência técnica das instituições que atuam na área da saúde e em situações de emergência.
“Nós temos o saber popular, estamos no campo, nas comunidades, assentamentos e acampamentos, e nossos parceiros têm o conhecimento acumulado de como agir nestes momentos de crise. A junção destes nos fortalece a todos”, explica Maria Izabel.
A formação é construída como uma troca de saberes, unindo experiência popular e conhecimento técnico. Em seu site, a Fiocruz afirma o esforço de superar modelos verticalizados de defesa civil ao reconhecer que as comunidades detêm conhecimentos, capacidades e legitimidade para atuar como protagonistas na proteção de seus territórios.


Fotos: Antônio Santos
A iniciativa utiliza a metodologia da Plataforma Picaps, desenvolvida pela Fiocruz Brasília, e protocolos reconhecidos internacionalmente adotados pela Força Nacional do SUS. O curso articula “educação popular em saúde, defesa civil comunitária, agroecologia e vigilância territorial para construir capacidades locais de autoproteção e inteligência cooperativa”, conforme a apresentação do site da Fundação.
Entre os conteúdos estudados e praticados no curso estão primeiros socorros; comunicação de risco e resposta inicial a desastres; condução de diagnósticos participativos para mapeamento de riscos, vulnerabilidades e capacidades locais; implementação de estratégias de redução de risco de desastres e adaptação climática comunitária; desenvolvimento de sistemas locais de alerta e protocolos comunitários de emergência; aplicação de práticas de saúde pública comunitária, saúde ambiental e vigilância popular; integrar saberes locais com ferramentas técnicas; promoção de abordagens de resiliência socioambiental, agroecologia e soluções baseadas na natureza; estruturação de redes territoriais de brigadas articuladas e integradas aos serviços públicos.
O curso iniciado em 26 de maio está organizado em seis módulos, com encontros presenciais voltados principalmente às atividades práticas. A formação se aproxima de sua etapa final. No dia 3 de setembro, os participantes se reúnem na Escola Milton Santos, em Maringá, para mais uma etapa presencial. O encerramento acontece em 24 de setembro, na comunidade 8 de Junho, em Rio Bonito do Iguaçu, reafirmando a relação entre formação, organização popular e os aprendizados construídos a partir da experiência concreta de enfrentamento às catástrofes.
Assista aqui a um vídeo sobre a ação da Saúde Popular durante a Brigada de Solidariedade do MST em apoio às pessoas vítimas dos tornados ocorridos em novembro de 2025:
*Editado por Fernanda Alcântara



