Eleições
Candidatos somam 176 milhões de reais em multas por destruição do meio ambiente na Amazônia
Levantamento de SUMAÚMA encontrou 75 nomes que disputam uma vaga nas eleições de 2026 com infrações na Amazônia; entre eles estão aliados de Flávio Bolsonaro, que fizeram do ataque à fiscalização ambiental bandeira eleitoral

Por Fábio Bispo
Da SUMAÚMA
Nos últimos meses, Daniel Santos, que adotou o nome político de Dr. Daniel, percorreu o interior do Pará se apresentando como o candidato do agronegócio e da mineração para o governo do estado. Seu objetivo, afirma, “é libertar o setor produtivo”. Nessa caminhada, se aproximou do bolsonarismo e prometeu expandir a produção agropecuária e atuar contra demarcações de Terras Indígenas. Fez ainda outra promessa: cancelar multas ambientais.
Dr. Daniel tem motivos pessoais para atacar a fiscalização do meio ambiente. Em 2024, ele foi multado em 1,4 milhão de reais pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis, o Ibama, por desmatar 280 hectares de vegetação nativa sem autorização. A área, equivalente a quase 300 campos de futebol, fica ao lado de sua fazenda no município de Tomé-Açu. A fiscalização atribuiu a Daniel a autoria do desmatamento por associá-lo à propriedade do candidato.
O candidato ao governo do Pará é um dos 75 nomes que disputam estas eleições carregando dívidas ambientais na Amazônia Legal, segundo um cruzamento de dados feito por SUMAÚMA. Juntos, esses políticos tiveram 200 infrações registradas pelo Ibama entre 2004 e 2026, que somam mais de 176 milhões de reais em multas. Parte delas é contestada administrativa ou judicialmente e algumas foram canceladas pela Justiça. O levantamento considera apenas as multas dadas pelo Ibama, já que as infrações estaduais não estão em uma base única e de fácil acesso.
A chapa de Daniel Santos retrata como o poder político na Amazônia com frequência se correlaciona com as atividades destruidoras da Floresta. Sua candidata a vice, Ellayne D’Almeida, do PL, também aparece nos registros da agência ambiental federal. Engenheira que se apresenta politicamente como “garimpeira”, ela foi multada em 2024 por mineração ilegal no Médio Tapajós, região onde os Indígenas Munduruku são gravemente afetados pela contaminação por mercúrio despejado no rio. A defesa de Ellayne nega que ela tenha realizado atividade garimpeira na área e afirma que não há decisão administrativa definitiva sobre a autuação.
Os partidos Novo, Podemos, PL e Republicanos concentram 113 das 200 infrações registradas, ou 56,5% do total; enquanto PT, MDB, PCdoB e PV somam 27, ou 13,5%.
Quando analisamos um período mais recente, entre 2022 e 2026, candidatos que concorrem pelo PL – partido do ex-presidente Jair Bolsonaro e de seu filho candidato à Presidência, Flávio Bolsonaro – concentram um terço das infrações, 15 das 46 registradas.
Rei da soja com avião de agrotóxico
Antonio Galvan, do Avante, candidato ao Senado por Mato Grosso, é adversário histórico da Moratória da Soja, acordo firmado em 2006 pelo qual grandes empresas se comprometeram a não comprar o grão produzido em áreas da Amazônia desmatadas depois de 2008. Galvan alega que o pacto fere a soberania nacional, cria reservas de mercado e impõe restrições acima do Código Florestal. Ex-presidente da Aprosoja Brasil e da Aprosoja-Mato Grosso, Galvan tem duas multas na Amazônia, que somam 1,6 milhão de reais, pela instalação sem autorização de uma pista usada por aviões para pulverizar lavouras com agrotóxicos no município de Vera, em Mato Grosso.

Em 2021, ele foi alvo de busca e apreensão em inquérito do Supremo Tribunal Federal, o STF, sobre a organização e o financiamento dos atos antidemocráticos de 7 de setembro, mobilizações convocadas pelo extremista de direita Jair Bolsonaro, hoje em prisão domiciliar, e por seus apoiadores contra o STF e o sistema eleitoral. A Procuradoria-Geral da República apontou indícios de Galvan na organização e no financiamento dos atos. A reportagem enviou perguntas para o contato oficial da candidatura, mas Galvan não retornou os pedidos de entrevista.
Antonio Galvan, candidato ao Senado em Mato Grosso, foi alvo de busca e apreensão por organização e financiamento de atos antidemocráticos. Foto: reprodução/Facebook
Herança em multas milionárias
No Acre, José Lopes Júnior, o Zé Lopes, do Republicanos, tenta se instalar na Assembleia Legislativa carregando um império agropecuário construído pela família entre o Acre e o sul do Amazonas. Filho do pecuarista José Lopes, dono de fazendas e frigoríficos, ele afirma que “o que está travando o desenvolvimento são essas leis ambientais”.
A herança não é apenas econômica. José Lopes e empresas ligadas a ele acumulam mais de 80 autos que somam 86 milhões de reais em multas ambientais. SUMAÚMA já contou como o pai do candidato construiu seu império enquanto acumulava autuações e relações. Agora, o filho tenta avançar na política.
Zé Lopes Júnior recebeu pelo menos 11 multas entre 2018 e 2024, que somam mais de 7,8 milhões de reais, por desmatamento nos municípios de Boca do Acre e Lábrea. Pai e filho também integraram, em 2014, a lista suja do trabalho escravo. O candidato declarou patrimônio de 32,6 milhões de reais, incluindo gado avaliado em 7 milhões e pelo menos 19,9 mil hectares em imóveis rurais – três vezes o tamanho da ilha de Manhattan, em Nova York. SUMAÚMA falou com a equipe do candidato e enviou perguntas por email, mas ele não respondeu aos pedidos de entrevista.
No Acre, seu partido declarou apoio a Flávio Bolsonaro.

O homem para quem a Amazônia está ‘faltando de dono’
Natural de Erechim, no Rio Grande do Sul, Tarcizio Burin, de 74 anos, chegou à Amazônia por volta do ano 2000 e se tornou uma liderança da expansão da soja e do milho no Pará. Presidente do Sindicato dos Produtores Rurais de Dom Eliseu, na divisa do Pará com o Maranhão, entrou na política em 2026 como primeiro suplente do senador Zequinha Marinho, do Podemos.
“A Amazônia de um modo geral tá faltando de dono”, afirmou Burin ao Podcast Ruralbook, no qual defendeu ampliar as lavouras de soja e milho para abastecer usinas de etanol no nordeste paraense.
Nos registros do Ibama, Burin recebeu 13 autuações por desmatamento, queimadas e descumprimento de embargos, originalmente somando 5,38 milhões de reais. A situação atual dos processos mostra o longo caminho entre a fiscalização e a cobrança. Segundo o Ibama, seis infrações estão em cobrança judicial, quatro foram baixadas por prescrição, uma foi enviada para inscrição em dívida ativa, uma teve a multa suspensa por decisão judicial e outra ainda aguarda decisão.
Uma investigação do Greenpeace em 2024 revelou que a Fazenda Tayassu, ligada aos negócios de sua família, recebeu crédito rural, um financiamento subsidiado pelo governo, mesmo tendo registrado desmatamento de 250 hectares entre 2020 e 2021 sem autorização do órgão ambiental, o que é vedado pelo Banco Central. Foram oito operações de crédito, sete delas entre 2019 e 2021, no governo de Jair Bolsonaro, que totalizaram 31,7 milhões de reais, e uma em 2023, no governo Lula, de 2,8 milhões. Anualmente, a propriedade reúne políticos e autoridades para o lançamento da colheita da soja. Em 2025, um dos eventos que Burin organiza, a Expo Dom Eliseu, recebeu uma emenda parlamentar de 239 mil reais do mesmo Zequinha Marinho de quem é suplente na chapa ao Senado.
Burin afirma que produtores são penalizados “injustamente” pelos órgãos ambientais. “Não é justo o que estão fazendo conosco”, reclamou durante o 62º Encontro Ruralista, em Belém.
Procurado por telefone, o candidato não quis comentar os questionamentos de SUMAÚMA. “Me recuso a responder”, disse à reportagem.

A justiça das multas
Entre uma autuação e uma punição definitiva podem se passar anos: segundo o Ibama, de cinco a seis anos, em média. Entre os candidatos identificados por SUMAÚMA há multas prescritas ou suspensas, processos aguardando julgamento e outros já em cobrança judicial. Das 200 infrações identificadas, 34 constam como canceladas na base do Ibama.
É o caso de Daniel Messac de Morais, do Mobiliza, candidato à Assembleia Legislativa de Goiás, que recebeu uma multa de 50 milhões de reais pelo desmatamento de 5.157 hectares de floresta nativa na Área de Proteção Ambiental (APA) Triunfo do Xingu. Nos registros consultados, o político aparece associado a um total de quatro autos de infração, que originalmente somavam 60,7 milhões de reais.
A defesa de Messac nega sua responsabilidade pelo desmatamento. Seu advogado, Vinicius Borba, sustenta que a área embargada está fora da fazenda do candidato, apesar de os técnicos ambientais terem indicado que todos os acessos à área desmatada passavam por ela.
Borba também representa produtores rurais autuados por crimes ambientais na Amazônia e atua na articulação da chapa de Daniel Santos e Ellayne D’Almeida. Em junho, acompanhou o senador Zequinha Marinho numa ofensiva contra os órgãos ambientais que aprendiam gado criado ilegalmente na Estação Ecológica da Terra do Meio, que sofre com as invasões de fazendas, principalmente a partir da APA Triunfo do Xingu.
Em abril de 2025, a Justiça Federal anulou a multa de 50 milhões de reais e o embargo por considerar que havia contradição entre o relatório da fiscalização e um parecer posterior do Ibama, que identificou outras propriedades na área. O Ministério Público Federal posteriormente opinou pela manutenção da sentença favorável a Messac, mas o Ibama recorreu e o processo ainda não teve decisão definitiva. Questionado por SUMAÚMA, o Ibama informou que o auto de 50 milhões de reais aguarda julgamento de recurso e que uma das multas de Messac, de 8 milhões, foi cancelada.
A mais de 2 mil quilômetros dali, Romerinho Jatobá, do PSB, presidente da Câmara do Recife e candidato à Assembleia Legislativa de Pernambuco, também foi multado na APA Triunfo do Xingu, em 17 milhões de reais, pelo desmatamento ilegal de 404 hectares para criação de gado e pelo descumprimento do embargo do Ibama.
Jatobá negou ser dono de terras no Pará. O Ibama, por sua vez, reuniu como indícios um caminhão registrado em nome de uma empresa sediada em sua base política no Recife e depoimentos de trabalhadores que apontaram o político como comprador da fazenda.
Com apoio do advogado Vinicius Borba, Jatobá também conseguiu anular as infrações e os embargos. No TRF1, o Tribunal Regional Federal da 1ª Região, o desembargador Flávio Jardim, mais conhecido pelas suas sentenças favoráveis à mineradora canadense Belo Sun, classificou os depoimentos de “ouvir dizer” e afirmou que, para punir alguém, o Ibama precisa “construir um caderno probatório mínimo, baseado em evidências”.
A SUMAÚMA, Jatobá afirmou que “não foi indicado de maneira precisa, individualizada, o meu nome na condição de proprietário, nem demonstrado que a tal empresa era mesmo de minha propriedade”. Já o Ibama informou que os processos administrativos relacionados ao candidato ainda aguardam decisão.
Em Roraima, Paulo César Quartiero discute multas aplicadas entre 2006 e 2009. Candidato a deputado federal pelo Democracia Cristã, foi um dos líderes dos produtores rurais contrários à demarcação da Terra Indígena Raposa Serra do Sol e chegou a ser preso pela Polícia Federal em 2008, após um confronto com Indígenas.
Em maio deste ano, o TRF1 manteve uma multa de 4,5 milhões de reais pela derrubada de 908,6 hectares de vegetação nativa para implantação de lavouras de arroz. Segundo o Ibama, dez processos relacionados a Quartiero estão em cobrança judicial. Entre os demais, um foi quitado e outro ainda aguarda julgamento de recursos. Os 13 autos identificados por SUMAÚMA originalmente somavam 51,8 milhões de reais. A reportagem tentou contato com o defensor de Quartiero nas ações judiciais, Bernardo Araripe Diniz, por telefone e por email, mas o advogado não retornou os pedidos da reportagem.

A chapa contra a fiscalização
No Pará, onde SUMAÚMA encontrou a maior concentração de infrações ambientais ligadas a candidatos nestas eleições, a relação entre autuações e discurso eleitoral aparece no centro da disputa pelo governo. No estado, 17 candidatos estão associados a 42 infrações.
A fazenda onde Dr. Daniel foi multado pelo Ibama também está no centro de outra investigação. O candidato comprou a propriedade de 3,8 mil hectares, em Tomé-Açu, por 16 milhões de reais em 2020. Segundo investigação do Ministério Público do Pará, empresas que mantinham contratos com a Prefeitura de Ananindeua, então comandada por Daniel, teriam participado do pagamento da propriedade. A antiga proprietária afirmou ao Ministério Público ter recebido veículos pagos por empresários.
O advogado Vinicius Borba negou tanto a autoria do desmatamento quanto qualquer irregularidade na aquisição da propriedade por Daniel, e afirma que não há decisão definitiva nos dois casos.
Dr. Daniel nem sempre esteve com os Bolsonaro. Depois de passar pelo PSDB e se eleger prefeito de Ananindeua pelo MDB, rompeu com o governador Helder Barbalho, ligado a Lula, e apoiou Éder Mauro, do PL, para a Prefeitura de Belém em 2024. Em março, filiou-se ao Podemos comandado no Pará pelo senador Zequinha Marinho, aliado histórico da família Bolsonaro.
A união foi selada em junho deste ano, durante uma visita de Flávio Bolsonaro ao Pará. Em um dos eventos, Flávio e Éder Mauro ergueram a mão de Daniel diante de apoiadores. Durante a passagem pelo estado, vestindo uma camiseta com a frase “A Amazônia é nossa”, o presidenciável de extrema direita criticou a fiscalização ambiental e prometeu tirar “o Estado do cangote” do produtor.
A escolha de Ellayne D’Almeida para vice aproximou a chapa de outro setor que confronta a fiscalização ambiental: o garimpo do Tapajós.
Filha do garimpeiro Ivan D’Almeida, que perdeu três eleições consecutivas para a Prefeitura de Itaituba, Ellayne faz da defesa do garimpo uma bandeira em uma das regiões que mais produzem ouro ilegal na Amazônia – e com o mesmo discurso contra os órgãos ambientais.
A família acumula 33 requerimentos minerários no Tapajós, inclusive dentro da Floresta Nacional do Amaná. No Igarapé da Missão, entre a Transamazônica (BR-230) e o Rio Tapajós, onde Ellayne e familiares foram autuados, o garimpo avançou. Imagens de satélite analisadas por SUMAÚMA mostram mais de 3 quilômetros do curso d’água alterados pela atividade ilegal.

Em 2024, o Ibama apreendeu às margens da Transamazônica uma aeronave registrada em nome de Ellayne com os sinais de identificação descaracterizados – algo comum em aviões que transportam ouro ilegal na região. O avião estava sendo utilizado por seu pai, Ivan D’Almeida, que foi multado em 2 milhões de reais e teve a aeronave apreendida.
E é justamente esse sistema de fiscalização – com todas as dificuldades para transformar autuações em punições definitivas – que parte desses candidatos promete enfraquecer. Daniel afirma que vai cancelar 80% das multas da chamada Operação Curupira, iniciada pelo governo do estado em 2023 para combater crimes ambientais em áreas críticas do Pará. O advogado Vinicius Borba, que faz a defesa das propostas do candidato, disse a SUMAÚMA que, se eleito governador, Daniel vai “realizar revisão individualizada, verificando autoria, nexo causal, georreferenciamento, prescrição, duplicidade e proteção da agricultura familiar”. O candidato também afirma, segundo Borba, que vai contratar estudos antropológicos para questionar a demarcação de Terras Indígenas, sem “cancelamento unilateral ou perseguição a povos indígenas”.
Os políticos que querem a fiscalização mais distante são os mesmos que já a encontraram na forma de multas, embargos e apreensões do Ibama. E que podem, por meio de leis e ações diretas, fragilizar ainda mais esse mecanismo de proteção da Floresta. Para pôr esse projeto em prática, eles agora esperam encontrar o eleitor nas urnas.

Reportagem e texto: Fábio Bispo
Edição: Talita Bedinelli
Edição de arte: Cacao Sousa
Edição de fotografia: Lela Beltrão
Checagem: Plínio Lopes
Revisão jurídica: Eloísa Machado de Almeida
Revisão ortográfica (português): Valquíria Della Pozza
Tradução para o castelhano: Meritxell Almarza
Tradução para o inglês: Sarah J. Johnson
Edição em inglês: Jonathan Watts
Infográficos: Rodolfo Almeida
Montagem de página e acabamento: Flávia Coimbra
Coordenação de fluxo editorial: Viviane Zandonadi
Editora-chefa: Talita Bedinelli
Diretora de redação: Eliane Brum



