Venezuela

Boletim nº 23 – Caracas-Teerã: novo eixo de intervenção dos EUA

Boletim Venezuela em Foco #23

Foto: Lucas Martins 

Da Página do MST

Em discurso anual do Estado da União no Congresso, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, celebrou a invasão à Venezuela, ameaçou o Irã e praticamente não mencionou a China, sinalizando prioridades externas concentradas no Oriente Médio e na América Latina. A fala, em horário nobre, ocorreu em meio a desgaste interno: pesquisa da CNN/SSRS aponta que 68% dos norte-americanos avaliam que o presidente não tem dado atenção suficiente aos principais problemas do país. No pronunciamento, Trump reafirmou o intervencionismo regional e exaltou resultados econômicos em tom pré-eleitoral. Disse que “jamais permitirá” que o Irã possua arma nuclear, mencionou negociações em curso, mas voltou a ameaçar ação militar caso não haja um acordo “justo”, afirmando ter enviado uma “grande frota” à região, incluindo o porta-aviões USS Abraham Lincoln e caças F-35.

Teerã rejeitou negociar sob ameaça. O chanceler Abbas Araghchi declarou que qualquer diálogo exige a retirada de pressões e advertiu que as Forças Armadas iranianas estão preparadas para responder “imediata e poderosamente” a qualquer agressão. Em contraponto à escalada retórica de Washington, o governo venezuelano voltou a denunciar o sequestro do presidente Nicolás Maduro e reafirmou, como signatário do Tratado de Proibição Completa de Armas Nucleares, que a segurança coletiva deve se basear na cooperação e não em mecanismos de coerção que perpetuam a hegemonia de potências ocidentais.

Nesse contexto, o secretário de Estado Marco Rubio viajou a São Cristóvão para a reunião da Comunidade do Caribe (CARICOM). A visita, breve, busca reafirmar a centralidade do Caribe na estratégia da Casa Branca, embora os Estados Unidos não integrem formalmente o bloco. Especialistas apontam incerteza entre os governos caribenhos quanto às intenções do segundo mandato de Trump, sobretudo após operações militares na região e o embargo de petróleo contra Cuba. A CARICOM já havia declarado o Caribe como “zona de paz”, em contraposição a intervenções externas. Rubio, considerado peça-chave dessa estratégia, liderou articulações que resultaram na transferência de Maduro para Nova York, em uma releitura da doutrina formulada em 1823 por James Monroe, hoje evocada para justificar ações que vão do apoio a aliados regionais a pressões diretas sobre governos considerados adversários.

Paralelamente, a Casa Branca prorrogou por mais um ano as sanções econômicas contra a Venezuela, mantendo o bloqueio, embora tenha autorizado licenças específicas para petrolíferas, abrindo espaço para o retorno de grandes empresas do setor. Em Nova York, a segunda audiência de Maduro no Tribunal Federal do Distrito Sul foi adiada para 26 de março, a pedido da promotoria por “questões de planejamento e logística”. O caso está sob responsabilidade do juiz Alvin Hellerstein e tem gerado questionamentos sobre possíveis violações ao direito internacional e à imunidade de um chefe de Estado em exercício.

Em Caracas, o Parlamento aprovou lei de anistia para casos de violência política. A presidente interina Delcy Rodríguez defendeu “paz e tolerância” e promoveu libertações e ajustes na política petrolífera como parte de um movimento de normalização. Após a medida, a Espanha instou a União Europeia a suspender sanções contra Rodríguez. A chefe da diplomacia europeia, Kaja Kallas, afirmou que a Venezuela deu “passos concretos de aproximação” com a Europa e indicou que a suspensão das sanções está entre as opções em debate no bloco.

Para saber mais:

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