Luta Pela Terra
30 Anos da ocupação da fazenda Macaxeira: Entre resistência e a lembrança de Eldorado do Carajás
Marco da luta pela terra no Pará, ocupação da Fazenda Macaxeira completa 30 anos em meio à memória viva do massacre de Eldorado do Carajás e à luta por justiça

Por Carlinhos Luz
Da Página do MST
Há 30 anos, no dia 05 de março de 1996, aproximadamente 3 mil famílias organizadas pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) ocuparam a Fazenda Macaxeira, hoje assentamento 17 de abril, no sudeste do Pará, transformando indignação em ação concreta contra a concentração de terras. Num estado historicamente marcado por violência no campo, a ocupação foi um gesto de enfrentamento direto ao latifúndio e à exclusão social. Mais do que cruzar porteiras, aquelas famílias desafiaram um modelo que sempre privilegiou poucos e condenou muitas famílias Sem Terra à miséria.
A luta na Macaxeira, uma das maiores ocupações de terra no país, também carrega a memória e a dor do massacre de 17 de abril de 1996, em Eldorado do Carajás, quando 21 trabalhadores rurais foram assassinados pela Polícia Militar durante uma marcha por Reforma Agrária Popular. O episódio expôs ao país e ao mundo o nível de brutalidade enfrentado por quem ousa reivindicar terra e dignidade na região. Desde então, cada ocupação, cada acampamento e cada assentamento no sudeste paraense carrega consigo o compromisso de que aquela violência não será esquecida e nem normalizada.
Três décadas depois, a conquista da Fazenda Macaxeira permanece como símbolo de resistência organizada. As famílias que ali fincaram bandeiras transformaram conflito em comunidade, ergueram produção onde antes havia abandono e provaram que a Reforma Agrária Popular é construída com persistência, resistência e coragem .
Para Jorge Nery, da direção estadual do MST, a ocupação da fazenda Macaxeira foi um marco histórico na luta pela terra, não só no Pará, mas como em todo o Brasil.

A Macaxeira era um exemplo de como o latifúndio possuía gigantescas extensões de terra no estado do Pará, mas com certeza era possível para o MST, a partir da tática e estratégia de massificação de se fazer grandes acampamentos, conquistar a terra da fazenda para fins da Reforma Agrária”
Jorge Nery, da direção estadual do MST no Pará
Segundo Nery, o MST compreendeu que a conquista daquela terra só seria possível com uma grande ocupação de massas para libertar a Macaxeira das mãos do latifúndio, o que era uma tarefa civilizatória importantíssima naquela região. “Ocupar a fazenda Macaxeira, terra marcada pela violência, pela falta de respeito às leis trabalhistas e pela prática do trabalho escravo, era um sonho dos trabalhadores e trabalhadoras rurais que queriam aquele território como objeto da Reforma Agrária. Nossa ação foi um exemplo de que só a luta organizada trará conquistas concretas para o povo”, afirma Nery.
Laurindo Silva, assentado e sobrevivente, começou a luta pela terra com o MST na década de 90, participou da ocupação da fazenda Macaxeira e também estava na Curva do S quando aconteceu o massacre de Eldorado do Carajás. Mesmo com a conquista da terra, Laurindo declara que a impunidade continua sendo uma ferida que nunca cicatrizou.

“Após a conquista da terra, as famílias do assentamento 17 de abril continuam lutando por melhorias de infraestrutura e por políticas públicas, mas a impunidade em relação ao massacre continua sendo um incentivo à prática da violência no campo. As famílias continuam sendo vítimas tanto da impunidade como da falta de políticas públicas que favoreçam o trabalho na terra e a produção de alimentos. Quase 30 anos depois da ocupação continuamos firmes em nossa luta, mas o massacre de Eldorado continua em nossa memória e temos a certeza de que nossa juventude continuará nosso legado e resistência de nossas famílias”, declara Laurindo.
Dona Maria Zelzuíta também é assentada e sobrevivente. Militante histórica do MST, Zelzuíta afirma que as famílias do assentamento 17 de abril conquistaram a terra, mas que o episódio do massacre, sua impunidade e suas consequências continuam sendo um fator muito negativo na vida das pessoas.
O massacre acabou com o sonho de 21 companheiros que buscavam uma terra para plantar, ter uma casa para morar, dar educação para seus filhos, viver dignamente e, infelizmente, a polícia militar, a mando do Estado, ceifou a vida desses trabalhadores. E também tem os que ficaram mutilados que sofrem com as balas alojadas em seus corpos e, até hoje, parte dessas pessoas não recebeu qualquer indenização por parte do governo e estão morrendo sem assistência alguma“
Maria Zelzuíta ressalta que “nossa luta não terminou com a conquista da tão sonhada terra. Precisamos continuar buscando a reparação para as famílias que sofrem até hoje com as consequências do massacre, que definitivamente seja feita justiça contra todos aqueles que foram responsáveis pelo assassinato de nossos companheiros”, finaliza.
Ao recordar os 30 anos da ocupação da fazenda Macaxeira pelas famílias do MST, a mensagem que ecoa é clara: enquanto houver desigualdade no acesso à terra, haverá luta e a memória dos que tombaram em Eldorado do Carajás seguirá alimentando a resistência no campo paraense. Este marco histórico não é apenas sobre reivindicação de territórios, mas sobre a necessidade de se fazer a Reforma Agrária, construir dignidade, promover a justiça social e a esperança para milhares de famílias camponesas no país.
*Editado por Fernanda Alcântara



