Artigo

17 de abril, internacionalizado como Dia Internacional das Lutas Camponesas: Um plantio em memória da luta camponesa mundial!

“Dizem que quando a última árvore morrer, o último homem também morrerá” -
Sawyer Prempeh Samuel

Por Elizabet Cerqueira da Conceição
Da Página do MST

Eu tentei proteger aquela árvore específica, e esta é a minha recompensa. Esta é a história de Sawyer Prempeh Samuel, um jovem recém-formado da Universidade Kwame Nkrumah de Ciência e Tecnologia, em Gana. Ele cumpria seu serviço nacional obrigatório na Comissão Florestal de Gana trabalho que todo graduado de instituição terciária precisa fazer no país.

Durante seu serviço, enquanto cumpria seu dever de proteger o patrimônio florestal do país, ele e sua equipe se depararam com operadores ilegais de motosserra. A confrontação virou violência. Sawyer levou golpes graves na cabeça e na boca. Foi hospitalizado, o caso foi registrado na polícia, os agressores foram presos e soltos em liberdade condicional. Desde setembro de 2023, o caso está parado. A justiça não anda porque alguns “líderes” interferem. Enquanto isso, Sawyer vive com dores de cabeça constantes e uma vida sem justiça.

Ele pede ajuda a quem tem no coração a proteção do meio ambiente e da sustentabilidade para que se mobilize em sua defesa e exija justiça.

A história de Sawyer Prempeh Samuel não é um caso isolado. É a mesma violência de Estado que mata trabalhadores quando eles defendem a terra não como mercadoria, mas como meio de vida. É o mesmo sistema que transforma quem protege a floresta em vítima, enquanto quem destrói sai impune.

Oziel Alves A Ousadia de um Jovem que Virou Semente

Na tarde de 17 de abril de 1996, na Curva do S, um trecho da antiga PA-150, hoje BR-155, em Eldorado do Carajás, Pará, a Polícia Militar do Estado massacrou 19 trabalhadores sem-terra. Entre eles estava Oziel Alves Pereira, um jovem de apenas 17 anos, executado à queima-roupa com um tiro na testa

Oziel não era apenas um número entre os mortos. Era um militante, alguém que carregava a ousadia da juventude na luta pela terra. Sua trajetória de vida, marcada pelo compromisso com a causa dos sem-terra, transformou seu nome em símbolo de resistência. A cada ano, quando o MST rememora o massacre na Curva do S, os trabalhadores sem-terra evocam a memória de Oziel Alves, destacando sua coragem e seu papel na luta

A violência na Curva do S não foi acidente. Foi ação planejada do Estado para defender os interesses dos latifundiários. Os sem-terra marchavam em demanda de terra, trabalho e dignidade. A resposta foi bala. Oziel, aos 17 anos, pagou com a vida o preço de sonhar com um pedaço de terra para plantar e viver.

Mas a semente que Oziel plantou não morreu. Em 2003, o MST criou o Acampamento Pedagógico da Juventude Sem Terra Oziel Alves Pereira, na própria Curva do S, transformando o cenário do massacre em espaço de formação política. Todos os anos, centenas de jovens sem-terra se reúnem ali para estudar, organizar e fortalecer a luta. É o que chamam de “mística”,  a arte de transformar dor em resistência, memória em ação

Neste ano, em 2026, completou 30 anos do massacre e 23 anos do acampamento. A Brigada Nacional Oziel Alves continua sendo lançada na Curva do S, levando o nome do jovem que, aos 17 anos, foi assassinado por defender que a terra é para quem nela trabalha

A história de Oziel Alves não é só brasileira. É a mesma história de jovens que, em todo o mundo, são assassinados pelo crime de querer terra para viver, não para lucrar. É a mesma violência de Estado que repete seu roteiro: primeiro criminaliza quem ocupa, depois mata, depois tenta apagar a memória. Mas a memória de Oziel resiste, brota, floresce e como as árvores que plantamos em sua homenagem.

Foto: J.R. Ripper

Amandla! Ngawethu! O Poder é Nosso!

Na África do Sul, a palavra “Amandla” significa poder em zulu e xhosa e ecoou por décadas como grito de guerra contra o apartheid. Não era apenas uma palavra; era uma convocação, um chamado à resistência que unia o povo nas ruas, nas prisões, nos campos de trabalho forçado. Quando alguém gritava “Amandla!”, a multidão respondia em coro: “Ngawethu!” quer dizer “É nosso!”

A música foi a alma dessa luta. Canções de liberdade nasciam das favelas, das igrejas, das cadeias. Vuyisile Mini, compositor e sindicalista, foi enforcado em 1964 pelo regime racista. Dizem que ele foi para a morte cantando, transformando a própria execução em ato de resistência. A música consolava quem estava encarcerado, motivava quem estava na linha de frente e criava uma forma subterrânea de comunicação dentro das prisões.

O toyi-toyi, a dança de passos altos, quase uma marcha de guerra, tornou-se uma ferramenta de luta nos anos 1980. Servia para condicionar fisicamente os guerrilheiros e intimidar a polícia do regime. Era dança e resistência ao mesmo tempo. A juventude sul-africana, como Thandi Modise presa aos 19 anos e que passou a segunda metade dos anos 1970 na cadeia carregava nas canções a memória do primeiro amor, da dor da separação, mas também da determinação de acabar com o apartheid

O Massacre de Marikana, em 2012, expôs ao mundo que a violência de Estado não acabou com o apartheid. Trabalhadores organizados da mineração, enquanto exigiam dignidade e salários justos, foram brutalmente reprimidos pela polícia sul-africana. 34 mineiros foram assassinados. Era o mesmo sistema que expulsa, explora e mata, agora com nova roupagem, mas com a mesma lógica de sempre.

A luta de Amandla continua. A juventude sul-africana segue usando a música, a dança e o grito de “Amandla! Ngawethu!” para resistir às desigualdades que persistem. A memória de quem caiu alimenta a resistência de quem segue em pé.

Ao conectar Eldorado dos Carajás, Marikana, Amandla e as lutas em curso pelo continente africano, afirmamos que essas realidades estão profundamente entrelaçadas. É o mesmo sistema que expulsa, explora e viola, mas que também é a mesma resistência que se organiza, denuncia e constrói alternativas.

Igualmente, é essencial destacar o que vem acontecendo em Gana, onde comunidades e movimentos têm denunciado o avanço do desmatamento, a destruição dos territórios e os impactos das mudanças climáticas diretamente ligados à exploração predatória dos recursos naturais. Nesse contexto, a luta pela terra é também uma luta pela preservação ambiental, pela soberania dos povos e pela continuidade da vida.

Foto: Reprodução

Internacionalismo, Solidariedade do Sul Global e Autodeterminação

Impulsionada pela La Via Campesina, essa data reúne ações por diferentes territórios, conectando resistências e denunciando as múltiplas formas de despossessão que atingem os povos do campo.

Também buscamos ampliar a perspectiva sobre o continente africano, trazendo elementos concretos da luta pela terra, que muitas vezes é invisibilizada. A violência contra os trabalhadores não é um fato isolado; ela se manifesta em todos os territórios.

Portanto, o dia Internacional das Lutas Camponesas, celebrado em 17 de abril, não é apenas uma data de lembrança, é uma convocação à solidariedade ativa entre os povos do Sul Global.

Quando plantamos árvores frutíferas na Nossa Área de Experimentação Agroecológica em Zâmbia é em memória de Oziel Alves, de Marikana e de Sawyer Prempeh Samuel, estamos afirmando que a luta pela terra ultrapassa fronteiras e une territórios separados pelo colonialismo, mas conectados pela resistência. O internacionalismo dos trabalhadores e trabalhadoras do campo é o reconhecimento de que nossas dores são as mesmas, nossos algozes são os mesmos, e nossa força está na união das nossas vozes.

A autodeterminação dos povos é o coração dessa luta. Não aceitamos que modelos de desenvolvimento impostos de fora sejam a repressão do Estado, o agronegócio brasileiro, a mineração predatória sul-africana ou a exploração madeireira em Gana definam nosso destino. Quem vive na terra é quem deve decidir seu futuro. Terra para quem nela vive e trabalha!

 O plantio que fazemos na Zâmbia é, portanto, um ato de soberania: afirmamos nosso direito de cultivar, preservar e viver em harmonia com a natureza, recusando a lógica do lucro que destrói florestas, comunidades e vidas. A solidariedade do Sul Global nasce dessa recusa compartilhada e da construção coletiva de outro mundo possível  onde a terra pertença a quem a trabalha e a vida valha mais do que o capital.

Foto: MST

*Editado por Fernanda Alcântara