Mulheres Sem Terra
Após resistência, ocupação nos trilhos da Samarco é suspensa com avanços na pauta ambiental
Em Jornada Nacional de Luta, camponesas conquistam compromisso da mineradora para reflorestar 2 mil hectares nos assentamentos da Bacia do Rio Doce e seguem mobilizadas por justiça

Por Matheus Teixeira
Da Página do MST
Após mais de 24 horas de resistência, coragem e organização, cerca de 700 mulheres do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) decidiram suspender, na manhã desta terça-feira (10), o “trancamento” dos trilhos da Estrada de Ferro Vitória-Minas, no município de Tumiritinga, Minas Gerais.
A desocupação ocorre após avanços concretos na negociação da pauta apresentada pelas camponesas, que cobram justiça e reparação pelos crimes da mineradora Samarco, que completa dez anos desde o rompimento barragem de Fundão.
A ação integra a Jornada Nacional de Luta das Mulheres Sem Terra 2026, realizada entre os dias 8 e 12 de março em todo país, sob o lema “Reforma Agrária Popular: enfrentar as violências, ocupar e organizar!”. E transformou as margens da ferrovia em um território de resistência e denúncia do modelo predatório da mineração. Durante o período de ocupação, as mulheres Sem Terra mantiveram vivo o debate sobre a crise hídrica, a impunidade e o descaso com as famílias atingidas.

Conquista ambiental: 2 mil hectares serão reflorestados
O principal avanço da negociação foi na área ambiental. Após o diálogo com representantes da mineradora, a Samarco se comprometeu a iniciar o reflorestamento de 2 mil hectares de áreas prioritárias nos assentamentos de Reforma Agrária localizados na bacia do Rio Doce. A medida é um passo fundamental para alcançar os 5.700 hectares que já deveriam estar sendo reflorestados, e também atende a uma das principais reivindicações das mulheres Sem Terra, que denunciam o calote da empresa em relação às obrigações ambientais a qual a mesma foi condenada.
Essa vitória é das mulheres que enfrentaram a sede, as madrugadas e a lama para garantir que a vida prevaleça. Conseguimos arrancar da Samarco o compromisso de reflorestar 2 mil hectares nos nossos territórios. É pouco perante o crime que ela comentou, mas é um passo importante. Saímos daqui hoje de cabeça erguida, mas a luta continua até que todos os direitos sejam garantidos”, afirmou Edilene Costa, da direção regional do MST.
A conquista representa uma resposta concreta à luta das camponesas, que há uma década aguardam ações efetivas de reparação em toda a bacia do Rio Doce.

A luta das mulheres também garantiu um avanço importante nas indenizações individuais. Agora, 2 mil famílias Sem Terra que ainda não tinham recebido nenhuma reparação pelo crime, finalmente terão acesso à reparação a que têm direito, uma dívida que se arrasta há dez anos com os trabalhadores/as atingidos na região do Rio Doce e Paraopeba.
A restauração florestal nos 52 assentamentos atingidos pelos crimes da Samarco em Minas Gerais e no Espírito Santo era uma das três pautas centrais da mobilização, que não foram atendidas, junto com a necessidade do restabelecimento do acesso à água potável para as famílias.
Dez anos de impunidade e a luta continua!
A Jornada Nacional de Luta das Mulheres Sem Terra, que começou no último dia 8 de março com atos em todo o país, em Minas Gerais, tem como pano de fundo a denúncia dos dez anos do crime da Samarco, completados em novembro do ano passado. Em 2015, mais de 30 milhões de metros cúbicos de rejeitos foram despejados na bacia do Rio Doce, devastando comunidades inteiras, contaminando nascentes e destruindo modos de vida que levaram gerações para serem construídos.
“A Samarco foi condenada e deveria estar cumprindo uma série de ações e nada ela vem fazendo, essa conquista mostra a força das mulheres, que de forma organizada estão sempre lutando por seus direitos”, afirma Kelly Gomes, da coordenação nacional do Movimento Sem Terra.


O Movimento Sem Terra reafirma seu posicionamento histórico de seguir na luta contra o modelo predatório da mineração, e alerta: “não se trata de recuar, mas de reorganizar as fileiras”. As mulheres Sem Terra deixam claro que, além de retornarem às suas bases, estão preparadas para mobilizar e convocar todos os atingidos da Bacia do Rio Doce a se somarem à resistência, e só arredarão o pé quando a mineradora cumprir, na íntegra, tudo a que foi condenada pela justiça.
“Sabemos muito bem o caminho da casa dessa mineradora e sempre que preciso e necessário para garantir os direitos do povo, nós vamos sim bater na porta quantas vezes for preciso”, complementa a dirigente.
Na contramão do Estado e das mineradoras
Enquanto a Samarco acumula dívidas socioambientais, o MST vem desenvolvendo, por meio do Programa de Agroecologia da Bacia do Rio Doce, ações concretas de restauração ambiental na região. Nos últimos cinco anos, o Movimento já restaurou mais de 2 mil hectares degrados, envolvendo diretamente seis assentamentos, como parte do plano nacional “Plantar Árvores, Produzir Alimentos Saudáveis”, que já plantou mais de 45 milhões de árvores em todo o país desde 2020.
A nova conquista, com o compromisso da mineradora de reflorestar mais 2 mil hectares, é pouco diante dos 5.700 hectares que são prioritários, mas representa um importante passo para somar forças nesse processo.
A pauta da luta pela terra segue aberta e a luta continua
Apesar do avanço na pauta ambiental, as mulheres Sem Terra reafirmam que a luta está longe do fim. A desocupação dos trilhos foi uma decisão política, que reconhece a conquista parcial, mas mantém a mobilização ativa em defesa das demais reivindicações. A indenização individual para as 2 mil famílias e o acesso à água potável seguem como bandeiras urgentes.
Kelly Gomes, da Coordenação Nacional do Movimento, sintetizou o sentimento das mulheres Sem Terra: “Nós estamos felizes, mas não estamos plenamente contempladas, o crime não passa, implementar essas florestas é o mínimo que a Samarco deveria fazer. Por hora estamos contente com a conquista, mas é algo que já deveria estar em curso, a nossa luta continua até que ela cumpra tudo a que foi condenada.”
A Jornada Nacional de Luta das Mulheres Sem Terra segue até o dia 12 de março, com atividades formativas, mobilizações e ações de solidariedade em todo o Brasil. Em abril, o MST também convoca a militância para as memórias dos 30 anos do Massacre de Eldorado do Carajás, em um nova Jornada Nacional de Lutas pela Reforma Agrária.
“Reforma Agrária Popular: enfrentar as violências, ocupar e organizar!”
*Editado por Solange Engelmann



