Cooperativismo

Encontro em Minas Gerais reforça avanço do cooperativismo do MST

Atividade reuniu representantes de todas as regiões do estado e apontou desafios na gestão, financiamento e ampliação da produção de alimentos

Foto: Eulália Veloso

Por Alí Nacif
Da Página do MST

Entre os dias 26 e 28 de março de 2026, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), por meio do Setor de Produção, Cooperação e Meio Ambiente de Minas Gerais (SPCMA-MG), realizou o IV Encontro das Cooperativas da Reforma Agrária de Minas Gerais. A atividade aconteceu no Recanto Assis, na região da Pampulha, em Belo Horizonte, reunindo representantes de cooperativas de todas as regiões do estado: Norte de Minas, Vale do Jequitinhonha, Vale do Rio Doce, Zona da Mata, Sul de Minas, Região Metropolitana e Triângulo Mineiro.

O encontro foi convocado como parte do processo de organização do sistema cooperativista no estado, com o objetivo de construir alinhamentos estratégicos, fortalecer a produção de alimentos e projetar as tarefas do próximo período. Ao longo de três dias, as cooperativas realizaram debates sobre análise de conjuntura, massificação da agroecologia, ampliação da produção, acesso ao crédito e fortalecimento de ferramentas próprias de financiamento, além de momentos de integração e partilha como a Culinária da Terra e a Assembleia Geral da Cooperativa Camponesa Central de Minas Gerais (Concentra).

Foto: Alí Nacif

Participaram do encontro as seguintes cooperativas:

  • Cooperativa Camponesa da Reforma Agrária de Uberlândia (Coopercampra)
  • Cooperativa Camponesa do Médio Rio Doce (Cooperuatu)
  • Cooperativa Camponesa do Vale do Jequitinhonha (Cooperjequi)
  • Cooperativa Camponesa Veredas da Terra Região Norte de Minas de Montes Claros
  • Cooperativa da Agricultura Camponesa da Região Metropolitana de BH (Cooperana)
  • Cooperativa dos Camponeses Sul Mineiros (Camponesa)
  • Cooperativa Regional de Cooperação Agrícola da Zona da Mata de MG (Cooperarça)
  • Cooperativa da Reforma Agrária e Agricultura Camponesa da Zona da Mata (Coopermatas)
  • Cooperativa de Produção Agroecológica e Cultura Camponesa na Zona da Mata de MG (Coopac)
  • Cooperativa de Produção Agroecológica Raízes da Terra da região Sul de Minas em Campo Belo
  • Cooperativa de Trabalho da Agricultura Camponesa de Minas Gerais (Coopertrac)

Avanço organizativo e construção da Reforma Agrária Popular

O IV Encontro marca um novo momento da organização das cooperativas da Reforma Agrária em Minas Gerais. A última edição havia sido realizada em 2018, quando o estado contava com apenas três cooperativas organizadas. Desde então, como parte de um planejamento estratégico do MST, houve a ampliação para 12 cooperativas, consolidando uma rede em diferentes regiões do estado.

A coordenadora da Concentra e dirigente do SPCMA-MG, Paula Ribeiro, destaca que o encontro cumpriu o papel de reunir essa base organizada para refletir coletivamente sobre os desafios atuais e avançar na construção da Reforma Agrária Popular.

Foto: Alí Nacif

Os debates reafirmaram a necessidade de massificar a agroecologia, organizar as cadeias produtivas e ampliar a produção de alimentos saudáveis. As cooperativas são compreendidas como instrumentos centrais para materializar essas tarefas, articulando produção, organização econômica, formação política e melhoria das condições de vida das famílias assentadas.

Também foi destacado o papel das cooperativas no cumprimento da função social da terra, ao garantir a produção de alimentos para o povo, em contraposição ao modelo do agronegócio, baseado na concentração de terras, no uso intensivo de agrotóxicos e na produção voltada à exportação.

Cooperativismo como estratégia de enfrentamento ao agronegócio

A coordenação nacional do MST reafirmou, durante o encontro, o cooperativismo como eixo estruturante da Reforma Agrária Popular. O coordenador nacional Fábio Nunes aponta que o encontro fortalece a unidade política e organizativa das cooperativas, ao mesmo tempo em que amplia a capacidade de atuação nos territórios.

Foto: Alí Nacif

O processo de intercooperação, articulado pela Concentra, foi destacado como fundamental para impulsionar o desenvolvimento das cooperativas com base na economia solidária. Nesse sentido, o encontro consolidou diretrizes voltadas ao fortalecimento das cadeias produtivas e à ampliação da produção de alimentos em escala.

Os debates também evidenciaram a centralidade da agroecologia, da agroindustrialização e da participação de mulheres e jovens nos espaços de produção e direção, como parte da construção de um novo modelo de desenvolvimento no campo.

Diante de um cenário marcado pela concentração de terra e pela insegurança alimentar, o encontro reafirmou a necessidade de avançar na democratização do acesso à terra e no fortalecimento da agricultura camponesa como base para garantir alimento para o povo brasileiro.


Crédito, políticas públicas e ferramentas próprias

O acesso ao crédito e às políticas públicas foi um dos principais temas debatidos. As cooperativas apontam dificuldades históricas para acessar recursos em instituições financeiras, o que limita o avanço da produção e da agroindustrialização nos assentamentos.

Nesse contexto, o encontro promoveu diálogo com o Banco do Brasil, o Banco do Nordeste e a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), com foco na ampliação do acesso ao crédito e no fortalecimento de políticas como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA).

Ao mesmo tempo, foi reafirmada a importância da construção de ferramentas próprias da classe trabalhadora. A atuação da Crehnor foi destacada como estratégica para garantir acesso ao crédito adequado à realidade dos assentamentos, possibilitando que os recursos circulem e fortaleçam a produção de alimentos.

A economista e coordenadora da Agência Digital PJ e PF da Crehnor Jaine Amorim ressalta que o crédito é um elemento transversal em todo o processo produtivo, desde o preparo da terra até a comercialização. Iniciativas como o Finapop Mineiro, construído em parceria com a Concentra, apontam caminhos para fortalecer o financiamento da produção agroecológica.

Foto: Alí Nacif

O desafio colocado é ampliar o acesso ao crédito justo, fortalecer as ferramentas próprias e, ao mesmo tempo, garantir o acesso às políticas públicas como direito das famílias assentadas.


Gestão, crédito e organização produtiva na região metropolitana

A partir da atuação no setor financeiro-administrativo da Coopertrac, Everton Abib avalia que o IV Encontro representa um avanço no fortalecimento do sistema cooperativista no estado. A atividade reafirma o acúmulo construído pelo MST na massificação da agroecologia.

Foto: Eulália Veloso

O sistema cooperativista vem avançando a partir da produção de alimentos saudáveis para o conjunto da sociedade, como expressão concreta da agricultura camponesa. Nesse processo, a Concentra cumpre papel estratégico ao consolidar a intercooperação e fortalecer as cooperativas singulares, qualificando os processos de gestão, produção e desenvolvimento.

A intercooperação tem possibilitado avanços no planejamento produtivo, no acesso a políticas públicas e ao crédito, contribuindo para investimentos em infraestrutura, insumos e melhoria da qualidade dos alimentos. Também se expressa no avanço da agroindustrialização, na qualificação do beneficiamento e na construção de processos logísticos compartilhados, ampliando o acesso aos mercados institucionais, públicos e feiras.

O encontro também evidencia desafios. Entre eles, a necessidade de estruturar sistemas integrados de gestão, capazes de articular pessoas, recursos e processos. O fortalecimento das cooperativas passa pelo investimento permanente na formação política e na qualificação técnica da base, garantindo melhores condições de organização e atuação.

No campo do crédito, apesar das dificuldades históricas de acesso, as cooperativas têm avançado com a combinação de políticas públicas, como o Pronaf e o Crédito Instalação, e ferramentas próprias construídas pelo MST, como o Finapop, em parceria com a Concentra e a Crehnor. Esse processo tem possibilitado desde pequenos investimentos produtivos nos lotes até a estruturação das cooperativas, fortalecendo a produção e a gestão coletiva nos territórios.

Logística, mercados e cooperação na região metropolitana

A partir da experiência na região metropolitana, Viktor Marques do Setor de Produção de Minas Gerais avalia que o encontro fortalece a intercooperação entre as cooperativas e contribui para identificar desafios e potencialidades comuns nos assentamentos de Minas Gerais.

Foto: Alí Nacif

Os debates possibilitam a troca de experiências e a construção de estratégias integradas, avançando no planejamento produtivo, no beneficiamento e na comercialização de alimentos. O encontro também se consolida como espaço de sistematização dos desafios enfrentados pelas cooperativas e de construção de um planejamento estratégico coletivo, considerando a diversidade de realidades presentes no estado.

No campo da logística e do acesso a mercados, o encontro contribui para visualizar estratégias integradas entre cooperativas que atuam na região metropolitana. A organização de rotas compartilhadas e a articulação entre diferentes iniciativas ampliam a viabilidade econômica, aumentam o volume de alimentos comercializados e reduzem custos operativos.

Esse processo fortalece a gestão do armazenamento, transporte e distribuição, ampliando a capacidade das cooperativas de acessar mercados e garantir o escoamento da produção.


Unidade, produção e tarefas do próximo período

O IV Encontro reafirma o avanço da organização das cooperativas da Reforma Agrária em Minas Gerais e aponta tarefas para o próximo período. Entre elas, o fortalecimento da intercooperação, a ampliação da produção de alimentos saudáveis, o avanço da agroecologia e a luta pelo acesso às políticas públicas.

O encontro fortalece a unidade do sistema cooperativista e consolida as cooperativas como instrumento de organização da produção e de construção da Reforma Agrária Popular.

Como parte dessa estratégia, o encontro também aponta a importância do fortalecimento da União Nacional das Cooperativas da Reforma Agrária Popular do Brasil (Unicrab) como ferramenta de articulação nacional. A construção da Unicrab amplia a integração entre as cooperativas em todo o país, fortalece a incidência sobre políticas públicas e potencializa a produção de alimentos saudáveis.

A consolidação dessa articulação nacional fortalece a organização da classe trabalhadora no campo, amplia a capacidade produtiva das cooperativas e reafirma o compromisso com a produção de alimentos para o povo brasileiro e com a construção de um projeto popular para a agricultura.

Foto: Alí Nacif
Foto: Alí Nacif

*Editado por Fernanda Alcântara