Mulher lutadora

Em homenagem às mulheres, crianças do assentamento Contestado celebram história de Dona Alicinha

Atividade do 8 de março uniu memória, arte e identidade, destacando o papel das mulheres na luta pela terra e formação das novas gerações

Foto: Ana Claudia dos Santos

Por Isabela Cunha e Karina Araújo | setor de Comunicação e Cultura do MST-PR
Da Página do MST

Uma comunidade de Reforma Agrária é feita de muitas coisas: de terra, de cultivo, de luta, de gente, e certamente também é feita da presença e da história das mulheres camponesas. No assentamento Contestado, localizado no município da Lapa, no Paraná, o mês de março foi marcado por uma atividade cheia de belezas: as crianças da Escola Municipal do Campo Contestado foram convidadas para entrar na roda da luta das mulheres e homenagear as lutadoras do povo. E ao lado de nomes como Frida Kahlo, a jogadora Martha, mulheres artistas e lideranças internacionais, estava uma mulher em especial, Alice Barbosa, mais conhecida como Dona Alicinha, uma das matriarcas da comunidade.

O mês de março é sempre um mês de referência para nós, principalmente porque o coletivo [da escola] é composto 100% de mulheres, desde a cozinha, serviço geral, equipe pedagógica, equipe gestora, professores, estagiários”, conta a coordenadora pedagógica Ana Claudia dos Santos.

Para ela, esse coletivo de mulheres assume a tarefa cotidiana de formar as crianças e, no contexto do 8 de março, marcado pela Jornada Nacional de Luta das Mulheres Sem Terra, realizada em todo país, a tarefa ganha uma nova importância: “nós nos desafiamos a ajudar os alunos a pensar sobre o papel da mulher na sociedade”, afirma.  

Segundo a professora, este ano a ideia para as atividades do mês de março veio justamente dessa reflexão, era preciso que as crianças conhecessem importantes nomes de mulheres lutadoras, para que, a partir disso, pudessem pensar sobre os espaços que as meninas e mulheres podem ocupar na sociedade. 

Pincéis na mão para homenagear Alicinha 

A proposta da atividade foi apresentar essas mulheres lutadoras, contando sua história de vida e, em seguida, as turmas pintariam retratos de cada uma delas para apresentar à comunidade na data do 8 de março. “A gente fez um resgate da história, da memória e da importância dessas mulheres. Mas aí, dentro desse contexto, a gente viu a necessidade de também olhar para as mulheres da comunidade local”, conta a coordenadora. 

Para a equipe da escola, a tarefa de pensar nas referências do assentamento Contestado não foi simples, visto que são dezenas de mulheres importantes para a história da comunidade. “Então foi preciso estabelecer um critério: o tempo de permanência na comunidade e a relação com a construção do assentamento”, explicou Ana Cláudia.

Depois de muito diálogo, a Escola entendeu que a matriarca do assentamento e homenageada da comunidade, deveria ser Dona Alicinha, que representa uma vida de luta pela terra, mas também de cuidado com todos. “Dona Alicinha, para a comunidade, é um símbolo de mulher, de luta e resistência, que precisou vencer muitas barreiras”, explica a professora. “Ela nunca mediu esforços para fazer aquilo que ela entende que é o papel dela, que é de cuidar das pessoas, levar o afeto, o amor. Então toda a comunidade tem um carinho muito grande e tem ela como uma mulher de referência”, explica. 

Dona Alicinha, mulher, lutadora que vive no assentamento Contestado. Foto: MST PR

A Dona Alicinha, é uma mulher agricultora que está no Contestado desde a época do acampamento. “Nós ficamos um tempo nos barracos. Depois que saiu o terreno [lote], viemos pra cá. E aqui estamos bem, graças a Deus, estamos plantando a rocinha, de verdura, milho, feijão, devagarzinho tamo indo”, conta a camponesa. 

Além de agricultora, Alicinha também é benzedeira e, na saúde popular, se tornou uma importante referência de cuidado no Contestado. Sua trajetória se confunde com a do próprio assentamento. “Ela ajudou a construir muitas coisas, ajudou a construir a escola…”, conta Vitor Korczak Capitani, de 8 anos, estudante do 3º ano, do ensino fundamental. Ele participou da produção dos retratos e lembra com entusiasmo da manhã de apresentação: “Nós ficamos muito felizes e a Dona Alicinha quase chorou”.

Adrian Olavi Cortes Steklain, de 9 anos, ajudou a pintar o retrato da homenageada: “A parte que mais gostei foi pintar”, diz. Sobre Alicinha, ele resume com simplicidade: “Ela é curandeira, benze… e é minha madrinha”, conta orgulhoso.

Alicinha acredita que a homenagem tem a ver justamente com sua relação com as crianças. “Eu sou querida de criança, sabe? Toda vida as crianças me querem bem”, contou emocionada. Ao longo dos anos, Alicinha cuidou de muitos moradores: “Já benzi muita gente, tirei dor, torei ar, e por isso batizei muitas crianças daqui”.

Surpreendida pelas crianças de quem tanto cuida, ela foi homenageada sem aviso prévio. “Vieram me buscar cedo… pensei ‘o que será?’ Quando cheguei lá, vi que era uma surpresa mesmo”, narrou. 

Escola do campo, escola da vida 

Na escola do assentamento Contestado o trabalho pedagógico vai além do conteúdo formal e se preocupa com a construção da identidade das crianças enquanto parte da luta pela terra.

“A escola é um espaço de manutenção da nossa identidade, da origem dessas crianças, dessa raiz cultural que vem da terra e que está extremamente presente dentro da escola”, explica a professora Ana. Segundo ela, o desafio está em articular essa dimensão histórica e política com o desenvolvimento educacional, alinhando o projeto pedagógico às diretrizes oficiais, como a Lei De Diretrizes e Bases Da Educação Nacional (LDB) e a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), sem perder o vínculo com a realidade do território.

A construção desse processo, no entanto, não é individual. “O que determina não é o meu papel isolado, e sim a construção de uma coletividade”, afirma. A escola, organizada de forma integrada com a comunidade, busca manter vivas as heranças de luta, resistência e existência das famílias assentadas, ao mesmo tempo em que promove a aprendizagem formal das crianças.

As atividades escolares da Escola do Campo na comunidade, visam formar uma nova geração com vínculo, consciência e autoestima. A proposta é incentivar “uma nova leitura de mundo, de relações, de como cooperar, viver em coletivo e respeitar uns aos outros enquanto seres humanos, independente de ser mulher ou homem”. Para a equipe pedagógica, essas práticas como a do 8 de março, tem relação direta com as preocupações da escola, sendo “extremamente importantes e indispensáveis” ao currículo, contribuindo para a formação de sujeitos mais conscientes, solidários e comprometidos com a transformação social.

Para Dona Alicinha, a homenagem foi recebida como um abraço da escola que ela ajudou a construir. “Eu achei de uma beleza, de um amor… porque nunca eu tive dessas coisas”, concluiu a agricultora.

*Editado por Solange Engelmann