Aromas de Março

O ato sagrado da renovação: o que seria a vida sem transformação e partilha?

Confira a coluna Aromas de Março deste mês

Foto: Arquivo MST

Por Ana Emília Borba – Militante da Frente Paulo Freire – MST no Pará
Da Página do MST

Ao longo da história da humanidade fomos nos apartando da natureza, os homens disseram que era preciso dominá-la para nos desenvolver. Dominamos, reviramos e a possuímos, é verdade que uns muito mais que outros, alijando parte da humanidade da possibilidade de se envolver. Mesmo assim, construímos conhecimento para dela usufruir e transformar nossas vidas e nossos lugares, fazendo histórias.

Esse aprendizado também se constituiu numa regra: era preciso fazer ciclos de renovação… assim, era preciso guardar as sementes, afagar a terra, fazer um novo plantio, manter a rega constante e cuidadosa, observar a germinação, acompanhar atentamente a floração, o fruto e outra vez as sementes, recolher, escolher e novamente guardar zelosamente, para que nas próximas semeaduras fosse possível seguir reinventando a vida. Nesse caminho, separar as melhores sementes, adubar, fortalecer a reza e esperar a melhor lua. Dizem que este aprendizado surgiu das mulheres, com seu corpo-território, onde a vida se locupleta. Guardar sementes, saber cuidar, guardar vida e transformar alimento em comida, transformar terra em território, território em corpo.

Esse corpo-território fincado no chão, como as raízes de umbus, castanheiras e araucárias são múltiplos diversos, lavrados na coletividade das lutas, significados por determinantes. Esse corpo-território é também rebelde, e nos modos e meios de vida se constitui como insurgência.
Lembrei-me do livro A mulher habitada, onde um pé de laranja é o lugar de encontro de Lavinia e Itzá, duas mulheres, dois tempos distantes com os mesmos desejos por um mundo livre de exploração. Itzá, uma indígena guerreira dos tempos da colonização tem na árvore a morada da sua alma, que por sua vez está nos jardins de Lavinia, uma jovem que desperta para militância em plena década de 70, na Nicarágua.

Essa simbiose humanidade-natureza é também fonte de muitos mitos fundadores de povos na América Latina. Em Las memorias del fuego, Eduardo Galeano, nos provoca a olhar nossa história a partir do lugar da resistência e nos conta que os povos Maias (que habitaram parte do México e da Guatemala) dizem que surgimos do milho e, por isso, somos tão fortes e de tantas cores.

O milho, esse alimento sagrado dos povos, tão necessário aos que se assentavam, é consumido cozido, assado, transformado em farinha, aluá ou chicha, ofertando doçura, força e prazer.

No Popol Vuh se diz que o milho é anterior às deusas e para seguir nesta magia; os Maias dizem ‘nossa carne’ para dizer milho. Nas andanças pela América Latina aprendi que “sin maiz, no hay pais” (sem milho, não há país), ou seja ele é identidade e compõe nossos corpos e espiritualidade, alimenta as nossas festas, permitindo um resgate de memórias, a ancestralidade.

Mas, apesar da poesia dita até aqui é preciso um alerta!

Nem tudo são flores, ou melhor dizendo nem tudo são bonecas de milho.

A lógica do capital transformou o milho em commodity, deixou de ser alimento para ser mercadoria. Submeteu os povos à lógica extrativista, expansionista e muitos “istas”… Sua produção como monocultura tem avançado por territórios outrora camponeses, expropriando famílias da terra, envenenando o chão e o alimento outrora sagrado agora é transgênico, não se faz novamente semente e nem sabemos exatamente o que contém. Esse agro do negócio e da morte alarga seus desertos pelo interior do país, transformando os sertões em lugares vazios, onde o curso das águas seca, a terra perde a vitalidade e onde homens e mulheres são abandonados à própria sorte.

Mas, nas rasuras do tempo ainda temos Iñe-e e uma onça que ruge para nos dizer que, mesmo com a história de extermínio que nos cerca, é possível escutar mais longe, ou quem sabe escutar os mais antigos, escutar a voz sagrada da vida que insiste em refazer-se.

Talvez seja na vivência das festividades, ao celebrar a vida e a partilha, que conseguimos conectar o passado e o presente.

As festividades da cultura popular são permeadas de encontros, de memórias, de aprendizados, que transmitidos por gerações, ecoam como afeto, povoam nosso imaginário e nossos sentidos. Junho é reconhecidamente o mês da dádiva. O milho cumpre esse papel de ofertório, espiritual e material, mas é um doar, receber e ao mesmo tempo entregar algo de si. Vivenciar os festejos da colheita e da partilha, da transformação, é o grande aprendizado que move as relações camponesas.

Pelas mãos latinas, indígenas e nordestinadas, essencialmente pelas mãos de mulheres, é que se chega a comida em tempos de festa. Nossas memórias ficam permeadas pelas imagens de cozinhas cheias de gente para debulhar o milho, ralar, mexer as panelas, e lá estão as matriarcas temperando… é uma pitada de sal ou mais um cadinho de açúcar que dá o gosto.

Comida é memória afetiva, transformar alimento em comida envolve muitas pessoas trabalhando, com saberes, tecnologias como os povos indígenas nos ensinaram: o que fazer com o milho, com a mandioca e tantas outras plantas. Isso envolve ciência e ao mesmo tempo transformamos a comida em um ato social, político, conjugado por muitas mãos.

Tal qual a memória coletiva que transcende o tempo e o espaço, a comida é essa possibilidade de narrar a vida por outros caminhos, a partir de outras perspectivas, assim o milho, e consequentemente a mandioca, seriam objetos biográficos que contam a história do mundo.

Ainda nesta partilha da comida e festa quero louvar a todas as mulheres, que festejam o alimento do corpo e da alma, que me atentam para que o cotidiano, mesmo cheio de contradições e sobrecargas, pode ser reinventado e que a luta pela terra é também a luta pelo belo, pelo saboroso e pelo deleite.

*Editado por Fernanda Alcântara