Alternativas
Curso do Pronera forma trabalhadores para enfrentar desafios da transição energética
Formação envolve os temas da Reforma Agrária e soberania energética de comunidades, na Paraíba

Por Larissa Brito e Paulo Lima*
Da Página do MST
O sol que aquece e o vento que resfria o semiárido brasileiro também estão no centro de uma das maiores disputas políticas e econômicas da atualidade. A corrida mundial por fontes renováveis de energia tem transformado ventos, rios e terras em mercadoria pelas grandes empresas, ampliando conflitos socioambientais e pressionando comunidades camponesas, indígenas e tradicionais.
Mas, para trabalhadores e trabalhadoras da Reforma Agrária, a transição energética precisa significar muito mais do que substituir combustíveis fósseis por painéis solares ou aerogeradores. Ela deve representar um caminho para fortalecer a soberania dos povos, proteger os territórios e produzir energia a serviço da vida.
Foi com esse horizonte que teve início o Curso Superior de Tecnologia em Energias Renováveis, realizado pelo Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (PRONERA), um resultado da parceria entre o Instituto Federal da Paraíba (IFPB), o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) e o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). O curso é realizado no Centro de Formação Elizabeth e João Pedro Teixeira, na Paraíba, e conta com a participação de dez estados brasileiros, e jovens e adultos de áreas de Reforma Agrária e territórios quilombolas.


A experiência é inédita por articular uma formação superior tecnológica com os princípios da Educação do Campo e da Reforma Agrária Popular, preparando trabalhadores e trabalhadoras para compreender os aspectos técnicos, sociais, ambientais e políticos da questão energética.
No segundo semestre deste ano, educandos e educandas do Curso Superior de Tecnologia em Energias Renováveis voltam a se encontrar no Centro de Formação Elizabeth e João Pedro Teixeira, na Paraíba, para dar início à segunda etapa do Tempo Universidade. O curso acontece em regime de alternância, com tempo universidade e tempo comunidade.
Após o primeiro Tempo Comunidade — período em que educandos(as) retornaram aos seus territórios para desenvolver atividades de estudo, pesquisa e intervenção junto às comunidades —, a turma retoma a formação presencial para aprofundar os debates sobre a questão energética, os conflitos territoriais e a construção de tecnologias voltadas às necessidades dos povos do campo.
Mais do que dar continuidade às disciplinas, a segunda etapa representa um novo momento de consolidação da proposta pedagógica do curso, baseada na alternância entre universidade e território, articulando conhecimento científico, saberes populares e organização coletiva.
A formação entra em uma nova etapa
Com o início da segunda etapa do Tempo Universidade, os educandos e educandas irão aprofundar os estudos iniciados no primeiro módulo, ampliando o diálogo entre as bases científicas das energias renováveis, a realidade dos territórios da Reforma Agrária e quilombolas sobre os desafios impostos pela atual transição energética.
A programação prevê disciplinas voltadas às dimensões técnicas, sociais, econômicas e ambientais da produção de energia, além de mesas integradoras, atividades de campo e espaços de planejamento coletivo que articulam ensino, pesquisa e extensão. Paralelamente, a turma socializará as experiências desenvolvidas durante o tempo comunidade, fortalecendo o princípio da alternância, em que a realidade dos territórios também se constitui como espaço de produção de conhecimento.
A segunda etapa também marca o ingresso de novos educandos e educandas por meio do edital de vagas remanescentes. Para garantir sua integração ao processo formativo, foi organizado um percurso pedagógico específico de nivelamento, assegurando que todos possam acompanhar o desenvolvimento do curso sem perder de vista os princípios da Educação do Campo e da construção coletiva do conhecimento.
Energia para fortalecer a Reforma Agrária Popular
Para o MST, a soberania energética passa a integrar os pilares da Reforma Agrária Popular: produzir alimentos saudáveis, recuperar áreas degradadas, garantir acesso à água, fortalecer agroindústrias, ampliar a autonomia produtiva dos assentamentos e enfrentar as mudanças climáticas exige pensar também quem produz energia, para quem ela é produzida e quem controla essa produção.

Neste sentido, o curso busca formar educandos capazes de desenvolver tecnologias sociais adaptadas às diferentes realidades do campo brasileiro, articulando conhecimentos científicos, saberes populares e organização coletiva. A expectativa é que, ao retornar ao tempo comunidade, a turma contribua para fortalecer iniciativas comunitárias de geração de energia, planejamento territorial e desenvolvimento dos assentamentos.
Nordeste no centro da disputa energética
A segunda etapa do curso acontece em um momento em que o Nordeste brasileiro ocupa posição estratégica na reorganização da matriz energética nacional. A região concentra alguns dos maiores potenciais de geração de energia eólica e solar do país e vem recebendo grandes investimentos voltados à expansão dessas fontes renováveis.
Ao mesmo tempo, cresce o debate sobre os impactos desse modelo de desenvolvimento para as populações que vivem nos territórios. Em diferentes estados nordestinos, comunidades camponesas, povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais têm denunciado conflitos relacionados à implantação de grandes empreendimentos, como restrições ao uso da terra, alterações nos modos de vida, impactos ambientais e concentração dos benefícios econômicos.

É nesse contexto que a formação proposta pelo PRONERA busca qualificar trabalhadores e trabalhadoras da Reforma Agrária para compreender criticamente a questão energética e participar da construção de alternativas que tenham condições de conciliar a produção de energia, a soberania alimentar, a preservação ambiental e o fortalecimento dos territórios.
Em um cenário marcado pela crise climática, pela expansão das energias renováveis e pela crescente disputa sobre os bens comuns, formar trabalhadores e trabalhadoras da Reforma Agrária para compreender e intervir nesse processo significa ampliar a capacidade dos povos do campo de participar das decisões sobre o futuro energético do país. Mais do que preparar profissionais, o curso busca formar sujeitos capazes de defender seus territórios, produzir conhecimento a partir da realidade e construir um projeto de soberania energética comprometido com a vida, a justiça social e a preservação da natureza.
*Larissa Padilha de Brito: Articuladora Político Pedagógica do curso de Energias Renováveis pelo PRONERA e Direção Estadual do MST/Paraíba. / Paulo Romário de Lima: coordenação nacional do MST.
**Editado por Solange Engelmann



