Terra prometida ocupada

Fazenda Annoni, 34 anos: ao lado de Canoas, em Nova Santa Rita, vive família que participou dos eventos que culminaram na primeira fazenda ocupada na luta pela Reforma Agrária no Brasil. Foi em 29/10/1985. Era o início do MST

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Foto: Paulo Pires

Por Jeison Karnal
Da Página do MST**

No interior gaúcho, lá pelos Anos 80, era coisa das mais difíceis achar um “orelhão” por perto. Comprar uma linha da extinta CRT custava uma fortuna, poucas famílias e entidades do campo conseguiam acesso ao tão sonhado telefone fixo. Tempos sem WhatsApp, e-mail, ou qualquer outro tipo de comunicação instantânea viável. Desafio monumental e arriscado articular de forma discreta a marcha de um verdadeiro formigueiro humano vindo de 32 municípios do Norte e Noroeste do Estado, para um único endereço. O destino? Uma propriedade rural de 9,3 mil hectares localizada na região de Pontão, município de Sarandi, no Noroeste do Estado. A ação surpresa envolveria nada menos que 1,5 mil famílias de pequenos agricultores, com horário cronometrado de saída dos caminhões e chegada ao “ponto zero”. As estratégias para enganar a polícia ao longo do trajeto não poderiam falhar ou toda a operação restaria comprometida.
 

É aí que o chope, a mais popular das bebidas fermentadas, acaba tendo um papel nessa história. Em 1985, três dias antes do Dia D, em um Festival de Chope que reunia gente de toda a região no município de Ronda Alta, do lado de Sarandi e a cerca de 370 quilômetros de Novo Hamburgo, líderes do grupo de agricultores definiam os últimos ajustes no plano para o primeiro grande embate da reforma agrária no país: a ocupação da Fazenda Annoni, que completa 34 anos nesta terça-feira, 29.

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Foto: Paulo Pires

O corte na cerca
 

Foram cem horas entre o planejamento da ocupação e o primeiro corte na cerca. A pequena guarnição formada por sete brigadianos, encarregados da segurança pública na cidade, interceptaram os primeiros sem-terra há dois quilômetros da fazenda. Pouco puderam fazer: não paravam de chegar mais e mais caminhões durante toda a madrugada. Pressionados pelo grupo, os PMs cederam à multidão e abriram caminho para que o comboio dominasse a terra prometida pelo Governo Sarney e que esbarrava em disputas judiciais.
 

Encontramos remanescentes e familiares dos protagonistas da mais emblemática ocupação de terras no Estado que hoje vivem em lotes legalmente conferidos pela União, nos assentamentos no município de Nova Santa Rita, ao lado de Canoas. Quase quatro décadas depois daquela ação ousada, como andam, como estão e o que pensam os agricultores que enfrentaram a precariedade da vida sob lonas, encararam a polícia e a lei, dividiram a opinião pública por todo o país e ergueram a bandeira da reforma agrária em nome do que consideravam inalienável: a tão sonhada terra prometida. Em parte do RS havia pequenos agricultores que trabalhavam por um prato de comida em fazendas maiores. O maquinário também substituía a mão-de-obra.
 

Sarney e a Reforma Agrária
 

Sem sucesso, o vice que tomara emprestado a faixa presidencial tentava acalmar os ânimos no campo. José Sarney instituíra, em março de 1985, o Ministério da Reforma e do Desenvolvimento Agrário. Passados alguns meses, em 10 de outubro, assinava o Plano Nacional de Reforma Agrária. A democratização do país deitava um sono intranquilo com o quadro grave de diverticulite do titular, Tancredo Neves (boletins de saúde amenizavam a situação real).
 

Compromissos estratégicos firmados para o Brasil poderiam sofrer uma reviravolta política. Sarney citava Tancredo nos discursos, faziam questão mostrar-se afinado aos desejos do escolhido pelo colegiado eleitoral, em janeiro do mesmo ano. “Quando o presidente Tancredo Neves esteve com o Papa João Paulo II ouviu dele apenas um pedido: a realização da reforma agrária no Brasil”, reafirmava ao lado do ministro Nélson Ribeiro, que tinha bom trânsito na Comissão Pastoral da Terra (CPT), órgão vinculado à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), duas fortes entidades de congregação dos anseios dos pequenos agricultores e os sem-terra.

Capim Annoni: uma praga no pampa gaúcho

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Fotos históricas de arquivo cedidas pelo MST: fotógrafos Karine Emerich e José Leal

Conforme a doutora Simone Lopes Dickel, que pesquisou o impasse jurídico em torno da desapropriação da fazenda, desde os Anos 70 a Família Annoni e a União discutem o tema. “A Fazenda Annoni compreendia uma área de mais de 16 mil hectares. Em 1960, para que a fazenda não fosse desapropriada, a área foi subdividida, passando-a para o nome de seus filhos e netos”, menciona em artigo apresentado em 2015, em Florianópolis. “A pecuária era a atividade predominante, com destaque para a criação de gado de corte. No pasto foi introduzido o famoso ‘Capim Annoni’, que apareceu para ser uma solução para a alimentação do gado e acabou virando um grande problema.”
 

Noite de Lua Cheia

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Fotos históricas de arquivo cedidas pelo MST: fotógrafos Karine Emerich e José Leal

Noite de lua cheia, 29 de outubro de 1985. A ocupação da fazenda se daria entre 4h30 e 6h. Eram dois locais de encontro: um perto da Annoni e outro entre a comunidade de Encruzilhada Natalino e Sarandi. Pouco antes da uma da madrugada naquela terça-feira, o rapazote de nome Marli Castro, de 29 anos, partiu num dos caminhões lonados para varar a madrugada na estrada até uma encruzilhada nas voltas da Annoni. A caçamba apinhada de gente (e de víveres) balançava como um navio na tempestade.

Um grupo de 60 famílias saía de Tenente Portela, três horas de viagem, escondido sob as coberturas dos veículos. Alguns trechos de “picada” sem ligar os faróis. O veículo desviava por dentro de lavouras. Havia códigos para todos os veículos se reconhecerem na escuridão: três sinais de luz para identificar quem era “companheiro”. Ramos verdes pelo caminho sinalizando que estavam perto, no caminho certo. Às duas horas seria desencadeada a ação surpresa que mudaria a posse do “latifúndio”.
 

1992

Foi o ano em que as primeiras famílias foram oficialmente assentadas nas terras da Fazenda Annoni pelo Instituto Nacional da Reforma Agrária, o INCRA. Dos 450 que receberam lotes, 423 mantém atividade rural na área.
 

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Foto: Paulo Pires

Um pedaço de terra, uma chance de vida
 

Cerca de 180 quilômetros distante de Marli, em outro caminhão com mais 22 famílias, estava a jovem Clarisse de Mattos, 19 anos na época. Deixava a cidade de Santo Ângelo para trás em sete horas de viagem na companhia do pai e da mãe em busca de uma vida nova sobre as terras da Annoni. Em ‘questão’ na Justiça desde 1972 por conta de dívidas da família Annoni com o Estado, com tamanho equivalente a nove campos de futebol, a fazenda nem se comparava ao pedaço de chão que os dois dispunham na sua terra natal. O que tiravam dava para se alimentar e vender o pouco excedente.
 

“Éramos onze irmãos para trabalhar em 11 hectares em Tenente Portela,” recorda o agricultor Marli, hoje com 63 anos. Morador de Nova Santa Rita, ao lado de Canoas, ocupa um cargo político e planta hortaliças em 22 hectares no assentamento Itapuí, o dobro do que possuía. “Sou da localidade de Burro Magro, não havia luz elétrica e só conheci televisão aos 17 anos.”
 

Marcas da terra

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Foto: Paulo Pires

Geni Reginaldo de Mattos, 80, é uma vovó que cozinha bem e cuida com amor do marido, Euclides de Mattos, 83, acamado em decorrência do Alzheimer. Os olhos azuis ainda guardam o passado de luta pela terra. Aos 10, ela começou na roça. O casal esteve na Annoni em 1985 e conquistou o direito de um pedaço de chão anos depois.

* Fotos de Paulo Pires e texto de Jeison Karnal (jeison.karnal@gmail.com)

Fotos históricas de arquivo cedidas pelo MST: fotógrafos Karine Emerich e José Leal

Edição de Rodrigo Becker

** Esta é a primeira parte do especial Fazenda Annoni, 34 anos. Confira a segunda parte aqui