Arte e memória
Pontes de esperança: parceria projeta monumento em homenagem aos 40 anos do MST em SC
A atividade é uma parceria pedagógica da UFSC, UDESC, MST e movimentos sociais urbanos

Por Gabriela Thomaz
Da Página do MST
Quando o ecopedagogo galês-brasileiro Dan Baron foi convidado a participar da criação do Monumento das Castanheiras Mortas, em Eldorado dos Carajás (PA), o luto pelos 21 trabalhadores rurais Sem Terra assassinados por policiais militares, três anos antes, ainda era palpável. Como uma ferida aberta na terra, o monumento ergueu o mesmo número de castanheiras queimadas, formando o mapa do Brasil e inscrevendo na paisagem a memória do massacre. O 17 de abril foi decretado pela Via Campesina como o Dia Internacional de Luta pela Terra.
Trinta anos depois, a luta pela terra não é apenas pela sua democratização, mas sobretudo pela sua preservação. A oficina ministrada por Dan Baron, no último sábado (28), em Florianópolis, em Santa Catarina, faz parte do projeto Pontes de Esperança, e surge de uma pergunta urgente: como cultivar esperança diante do desespero, da desconfiança e do isolamento social impostos pela atual conjuntura?
O encontro é o segundo de um ciclo de quatro oficinas que também acontecem na Escola 25 de Maio, em Fraiburgo, e no assentamento de mesmo nome em Abelardo Luz. Entre os dias 13 e 25 de maio — dia que marca o aniversário do MST no estado — os participantes irão acampar no local definido para a instalação de um novo monumento. A obra celebrará os 40 anos do movimento em Santa Catarina e a parceria pedagógica e agroecológica construída com a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e a Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC).


“O Pontes de Esperança tem no coração a celebração do projeto agroecológico do MST como expressão de 40 anos de colaboração”, afirmou Dan. E complementa: “Ele nasce da convergência entre diferentes lutas e propõe cultivar esperança em tempos desafiadores.”
Memórias em disputas
O projeto surge em um momento em que o estado de Santa Catarina é palco de muitas disputas pela memória institucional. A tese do marco temporal é uma delas e a retirada de homenagens a João David Ferreira Lima, interventor da ditadura militar que dava nome ao campus, é outra.
Para Paulo Capela, da UFSC, a construção coletiva do movimento é também uma homenagem “a todos os professores que têm ensinado mais perto da nossa população”, fortalecendo vínculos entre universidade e comunidade.
Irma Brunetto, da direção estadual do MST, lembrou a participação de estudantes na conquista do primeiro assentamento do estado, o 25 de Maio, que será um dos locais visitados pelo projeto. Para ela, a parceria entre o Movimento e a universidade é estratégica. “Nós enfrentamos o latifúndio, o agronegócio e o Judiciário, mas vocês disputam as ideias”, afirmou, dirigindo-se a educadores e estudantes.
Metodologias para cultivar esperança
Além de uma incursão pelo câmpus da UFSC para sugestões sobre o local ideal em que será instalado o monumento, a oficina provocou uma reflexão sobre os processos históricos e sociais a partir da noção de tempo em espiral, rompendo com a ideia de progresso linear e destacando as relações entre memória, terra e futuro.
A lembrança de Patrícia Mentchu Isaton, ainda pequena, no acampamento em Abelardo Luz, é do cesto de taquara trançado, que seus pais usavam para plantar. À noite, bem lavado e sequinho, o cesto era pendurado às vigas do barraco, abrigando a bebê em cima da cama. Entre o medo do despejo e a esperança por dias melhores, os pais embalavam seu sono. Durante a oficina, a representação do objeto serviu para relembrar a trajetória da família na luta pela Reforma Agrária, em Santa Catarina.
As histórias pessoais se desdobram nos relatos coletivos e Dan lembra outra colaboração no estado: o mosaico eco-pedagógico Terra e Liberdade, na Escola Agrícola 25 de Maio, em Fraiburgo. Idealizado pela escola e com a comunidade, o monumento levou dois anos para ser concluído e contou uma história de formação e transformação ecosocial.
Em 2004, o mosaico Terra é Vida (2002) foi reconhecido pela UNESCO como obra de referência.
Do desespero à ousadia da imaginação
Se o Monumento das Castanheiras Mortas marcou a memória de uma ferida, o novo monumento proposto pelo projeto Pontes de Esperança pretende marcar um tempo de travessia.
Do desespero à esperança, tivemos a ousadia de imaginar”, disse Dan.
Num tempo de crises climáticas, ataques à democracia e fragmentação social, a aposta do projeto é que a arte, a agroecologia e as pedagogias libertadoras possam entrelaçar passado e futuro, transformando memória em cuidado e monumento em esperança.
*Editado por Solange Engelmann



