Agroecologia
Senadores da França visitam cooperativa 100% agroecológica no assentamento Contestado, no PR
Parlamentares franceses conheceram a Cooperativa Terra Livre, a Escola Latino-Americana de Agroecologia e a Unidade Básica de Saúde Chica Pelega

Por Murilo Bernardon
Da Página do MST
Uma comitiva de representantes do Grupo de Amizade França-Brasil conheceu, nesta sexta-feira (24), o assentamento Contestado, na Lapa (PR). A visita teve como principal pauta a prática da agroecologia e a organização popular Sem Terra.
O encontro reuniu a coordenação da comunidade, os senadores franceses Fabien Gay, do Partido Comunista, Daniel Fargeot, sem partido, Florence Pernaudet, da direção de Relações Internacionais do Senado francês, Marceau Ferrand, conselheiro político e adido de imprensa do consulado da França em São Paulo, e o deputado estadual do Paraná, Goura Nataraj, do Partido Democrático Trabalhista (PDT).

Camila Correia, assentada e dirigente da comunidade, conduziu a reunião que discutiu também o modo de produção agroecológico, o funcionamento da Cooperativa Terra Livre, a Unidade Básica de Saúde Chica Pelega, as instâncias pedagógicas, como a Escola Latino Americana de Agroecologia Ana Primavesi (ELAA).
Fabien Gay, eleito pelo bloco Comunista, Republicano, Cidadão e Ecologista e Presidente do Grupo de Amizade França-Brasil, explica que vê um processo de autonomia camponesa: “Fiquei muito interessado na organização da comunidade, desse novo modelo de produção agrícola. Que vocês possam polinizar esse modelo alternativo para a sociedade brasileira.”
“Queremos juntos avançar para o bem viver e é necessário juntarmos nossas forças para o bem comum. É importante entender o fundamento do engajamento de vocês, essa vontade de viver de uma forma diferente”, conta Daniel Fargeot, parlamentar ligado a assuntos econômicos, como aviação civil, energia, indústria e vinho.

Foram discutidas também as diferenças de ordenamento de posse e uso da terra na França e no Brasil – e como a concentração de terras é uma chaga histórica, que atravessa diferentes povos e gerações. A Reforma Agrária Popular, nesse sentido, é uma luta que simboliza a superação dos problemas do capitalismo, através do potencial social da terra. “Escola, água encanada, conhecimento, alimentação, isso para nós é libertação”, afirma Maria Natividade, integrante do Setor do MST, que há 25 anos e referência na saúde popular.

O assentamento Contestado
Com 27 anos, o assentamento Contestado é moradia e terra produtiva para mais de 190 famílias com trabalho cooperado, estudo e cultura. Desde a ocupação, em 1999, pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), aquela terra marcada por conflitos e exploração passou a significar dignidade e libertação – hoje com cooperativa, escola, espaços de lazer, esporte e cultura e de organização popular.
Criada em 2012, a cooperativa Terra Livre conta com 245 sócios espalhados por 12 municípios do Paraná, além de associados em Santa Catarina e Mato Grosso do Sul. A cooperativa distribui alimentos agroecológicos, de 20 a 26 toneladas por semana, ao Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), beneficiando diretamente 103 colégios estaduais de Curitiba.
Também opera a partir da padaria, que produz semanalmente 650 quilos de pães e derivados, destinados a entidades sociais. Ao todo, são 59 produtos alimentícios agroecológicos entregues pela cooperativa.
Antonio Capitani, assentado e presidente da cooperativa, conta que a produção agroecológica respeita a função social da terra, que é a de produzir comida: “Na agroecologia, um hectare de terra alimenta 20 pessoas. No agronegócio, um hectare alimenta um boi”, explica.
Para Carlos Finhler, assentado, agricultor agroecológico e representante da Associação de Cooperação Agrícola e Reforma Agrária do Paraná (ACAP), a lógica da produção, na agroecologia, não é voltada ao lucro: “Não posso produzir apenas soja, vender tudo, e depois ter que comprar comida.”

Ao longo da história, a comunidade também construiu espaços de educação e formação para jovens e adultos no território, que contempla desde a pré-escola (CMEI) até o ensino superior.
A Escola Latino-Americana de Agroecologia (ELAA), que em 2026 celebra 21 anos, oferta cursos de graduação, de formação em agroecologia para agricultores e educandos do Brasil e da América Latina, e completa os níveis de educação oferecidos no território, da Educação Básica ao Ensino Superior.

Recentemente, a comunidade também conquistou a Unidade Básica de Saúde Chica Pelega (UBS), que vem como um complemento à medicina da terra, praticada no território. A Unidade é organizada pelo coletivo de Saúde do MST, que orienta a comunidade a como usar os produtos fitoterápicos, plantas medicinais, além de recuperar e preservar sabedorias ancestrais, muitas vezes privatizadas pela indústria farmacêutica.
*Editado por Fernanda Alcântara



