Nota Oficial
Fé não é instrumento da extrema-direita contra a democracia
Frente dos Povos de Terreiro do MST denuncia a instrumentalização eleitoral da religião e reafirma o compromisso com a diversidade, a democracia e os direitos constitucionais

Da Página do MST
A Frente dos Povos de Terreiro e o Coletivo Étnico-Racial Terra, Raça e Classe do MST manifestam solidariedade às comunidades religiosas envolvidas na atual disputa eleitoral e repúdio à instrumentalização política da fé. A controvérsia envolvendo Nossa Senhora Aparecida e as declarações atribuídas à candidatura de Flávio Bolsonaro expõe os riscos de transformar símbolos e a fé do povo brasileiro em instrumentos de disputa eleitoral, atingindo a liberdade religiosa, a pluralidade e o Estado laico como garantias inseparáveis da vida democrática.
A fé pertence à dimensão da consciência, da espiritualidade, da cultura e da vida comunitária. Para milhões de pessoas, ela é fonte de esperança, sentido, solidariedade, cuidado e compromisso com a vida. Por isso, defender a liberdade religiosa não significa afastar a fé da sociedade ou da vida pública. Significa garantir que cada pessoa possa viver sua crença, expressar sua espiritualidade e participar da vida política sem que uma religião seja imposta como verdade oficial ou utilizada para excluir outras.
Flávio Bolsonaro fez acusações graves contra a CNBB que não podem ser lançadas sem provas, especialmente quando a própria entidade afirma não ter produzido, autorizado ou divulgado informações falsas relacionadas ao processo eleitoral. Também repudiamos a declaração de que, em eventual governo, o Brasil seria oficialmente “do Senhor Jesus Cristo”. O Estado brasileiro não pertence a uma igreja, a uma denominação ou a uma interpretação particular da fé. O Brasil pertence ao conjunto de sua população, formada por católicos, evangélicos, povos de terreiro, indígenas, espíritas, judeus, muçulmanos, pessoas de outras tradições religiosas e também por quem não professa religião.
A Constituição assegura a liberdade de consciência e de crença e o livre exercício dos cultos, ao mesmo tempo em que impede o Estado de estabelecer ou manter relações de dependência ou aliança com igrejas. Essa garantia existe não para afastar a espiritualidade da vida social, mas para assegurar que ninguém tenha sua consciência submetida a uma crença oficial. A democracia protege tanto o direito de professar uma fé quanto o direito de não professá-la.
Ao escolher uma fé como suposta identidade oficial da nação, seus representantes rompem com essa pluralidade e abrem caminho para a intolerância contra religiões de matriz africana, comunidades indígenas, mulheres, população LGBTQIA+, trabalhadores/as e todos os grupos considerados inconvenientes ao seu projeto de poder. Nenhuma disputa eleitoral pode transformar a fé de um povo em instrumento de dominação sobre outro. Nenhuma religião deve ser usada para retirar de outras comunidades o direito de existir, celebrar, cultuar e expressar sua espiritualidade.
Nenhuma disputa eleitoral pode servir de licença para perseguir, silenciar ou desumanizar comunidades religiosas. A fé é uma dimensão legítima da experiência humana e, em uma sociedade democrática, pode inspirar valores, vínculos comunitários, ações de solidariedade e formas de participação na vida pública. O que precisa ser enfrentado é sua instrumentalização para produzir medo, intolerância, exclusão ou submissão política.
A defesa da liberdade religiosa precisa ser ampla, coerente e indivisível. A violência contra símbolos católicos não pode ser utilizada para encobrir ou naturalizar a violência cotidiana contra terreiros, mães e pais de santo, sacerdotes, comunidades quilombolas e praticantes de tradições afro-brasileiras. O mesmo Estado laico que deve respeitar a fé cristã precisa proteger o Candomblé, a Umbanda e todas as expressões religiosas. A defesa da liberdade religiosa só é democrática quando vale para todas e todos.
O Movimento dos Trabalhadores Sem Terra reafirma sua disposição de dialogar com todas as comunidades comprometidas com a justiça, a paz, a igualdade racial e a soberania popular. Reconhecemos a fé como parte da vida e da cultura de muitos povos e como espaço de espiritualidade, memória, cuidado, solidariedade e construção comunitária. Nossa luta é para que nenhuma fé seja transformada em instrumento de opressão e para que nenhuma comunidade tenha sua espiritualidade deslegitimada ou perseguida.
Nossa luta continuará nas ruas, nos territórios, nas escolas, nos meios de comunicação e nos espaços de culto, porque a democracia também se constrói quando diferentes formas de crer, celebrar, viver a espiritualidade e compreender o mundo podem coexistir em liberdade, respeito e dignidade.
Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST)



