Coluna Aromas de Março
Campanha permanente: O MST Contra as Violências
Inspiradas na metamorfose das borboletas, Mulheres Sem Terra convocam o Mutirão de Enfrentamento às Violências, de 20 a 29 de novembro, reafirmando a luta por territórios livres de violência e por novas relações humanas, com igualdade e emancipação.

Por Juliana Silva de Vargas, Danieria Silva e Hanyelle Ohane*
Para Página do MST
A metamorfose das mulheres Sem Terra no enfrentamento às violências
É chegado o mês de novembro e nós, mulheres Sem Terra, estamos atentas e fortes, encampadas em mais uma jornada de enfrentamento às violências contra meninas e mulheres. Neste mês, também recordamos a história de Patria, Minerva e María Teresa Mirabal, três irmãs dominicanas que, em 25 de novembro de 1960, foram assassinadas pela ditadura de Rafael Trujillo, por sua luta contra o regime autoritário. Conhecidas como Las Mariposas, as borboletas tornaram-se símbolo internacional da resistência das mulheres. Em memória de sua luta, o dia 25 de novembro foi instituído como o Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres.
É também inspiradas nessa história de coragem e resistência que escolhemos a metamorfose como expressão da transformação das mulheres Sem Terra no enfrentamento às violências. Assim como as borboletas, nossa transformação não acontece de uma hora para outra. É um processo construído na luta, na organização coletiva, na formação política e na solidariedade entre mulheres. É a transformação do medo em coragem, do silêncio em denúncia, da resistência individual em força coletiva. É a decisão de não aceitar mais que a violência determine nossos caminhos e nossas vidas.
Ao recordar as mulheres que vieram antes de nós, reconhecemos que cada conquista carrega a resistência de muitas que enfrentaram o silenciamento, a opressão e a desigualdade. A violência contra mulheres e meninas não é um acontecimento isolado, tampouco um problema individual ou privado. É expressão de uma sociedade capitalista, patriarcal e racista, que historicamente transforma nossos corpos, nosso trabalho e nossos territórios em espaços de exploração, opressão e controle.
As violências também se transformam ao longo da história e assumem diferentes formas para assegurar a dominação. Não se manifestam somente pela agressão física, psicológica, sexual ou patrimonial, mas também pela violência política, institucional e digital. Durante o período eleitoral de 2026, vimos como ataques, ameaças, perseguições e tentativas de desqualificação nas redes sociais foram utilizados para intimidar mulheres, silenciar suas vozes e limitar sua participação política. Essas são diferentes expressões de uma mesma estrutura de poder que busca controlar nossos corpos, nossas ideias e nossa presença nos espaços públicos.
Enfrentar as violências exige mais do que atuarmos com os sujeitos que a praticam, exige compreender suas raízes, seu papel estruturante na manutenção de um projeto de poder e reconhecer que elas atingem de maneira particular as mulheres trabalhadoras, camponesas, negras, indígenas e LGBTI+.
Nós, mulheres Sem Terra, não aceitamos mais viver sob a condição de vítimas de uma sociedade que insiste em nos oprimir. Somos sujeitos políticos da luta pela terra, pela Reforma Agrária Popular, pela massificação da agroecologia e pela construção do socialismo. Nossa luta é pela transformação da sociedade e, portanto, também pela construção de novas relações humanas, livres do machismo, do racismo, da LGBTfobia e de todas as formas de exploração e opressão.
Mas essa transformação não pode ser uma responsabilidade exclusiva das mulheres. O enfrentamento às violências precisa ser assumido pelo conjunto da sociedade e, especialmente, por todos os sujeitos da nossa organização. Aos homens cabe também romper com o machismo, questionar seus privilégios, rever suas práticas e assumir a responsabilidade pela construção de relações de respeito e igualdade. Não basta dizer que somos contra a violência: é preciso enfrentá-la nas nossas atitudes, nos nossos espaços de convivência e nas relações políticas e organizativas que construímos cotidianamente.
O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra reafirma que não há espaço para violentadores em nossa luta. Defendemos territórios livres de todas as formas de violência, territórios seguros para todes, onde mulheres e meninas possam viver, produzir, estudar, trabalhar, participar e decidir sobre suas próprias vidas. Essa posição precisa se materializar em práticas concretas de prevenção, acolhimento, escuta, proteção e responsabilização. Não podemos permitir que o silenciamento, a omissão ou a impunidade sejam instrumentos de reprodução da violência dentro dos nossos territórios e da nossa organização.
É a partir desse entendimento que convocamos a campanha permanente “MST Contra as Violências”, que tem por objetivo mobilizar o conjunto do nosso Movimento, dos territórios aos espaços organizativos, a enfrentar as violências e construir no cotidiano a emancipação humana tão almejada por nosso projeto de Reforma Agrária Popular. Como um primeiro passo desta Campanha, convocamos um grande MUTIRÃO DE ENFRENTAMENTO ÀS VIOLÊNCIAS, que acontecerá entre os dias 20 e 29 de novembro de 2026.
E o que significa esse mutirão? Significa colocar essa tarefa no centro da nossa organização e mobilizar o conjunto do Movimento para construir ações concretas nos lugares onde a vida Sem Terra acontece. É um chamado para que cada assentamento, acampamento, escola, cooperativa, setor, coletivo e instância de direção se envolva nessa construção. Não se trata apenas de realizar atividades em novembro, mas de fortalecer uma prática permanente de prevenção, formação, diálogo, escuta, acolhimento para o enfrentamento às violências.
Esse mutirão envolverá mulheres e homens, jovens, crianças, idosos(as), educadoras(es), dirigentes e todos os sujeitos da nossa organização. É tempo de abrir espaços de conversa, identificar as situações de violência presentes nos nossos territórios, fortalecer a organização das mulheres, construir caminhos de acolhimento e encaminhamento e assumir com coragem e ternura a responsabilidade pela transformação das relações que reproduzem o machismo, o racismo e muitas outras formas de opressão. Não basta dizer que somos contra a violência. Precisamos construir, coletivamente, condições para que nenhuma pessoa tenha que enfrentar sozinha uma situação de violência e nos construir como uma organização segura para todos os sujeitos.
A construção de novas relações humanas emancipadas exige o posicionamento firme e permanente de todas as instâncias, pessoas e territórios do MST. Não construiremos a Reforma Agrária Popular reproduzindo as mesmas relações de opressão que combatemos na sociedade. Não haverá agroecologia verdadeiramente popular enquanto as mulheres continuarem submetidas à violência e à desigualdade. Não construiremos o socialismo sem enfrentar o patriarcado e o racismo que nos impedem de ser e amar, que limitam nossas possibilidades como seres humanos.
Neste 25 de novembro, que a memória das irmãs Mirabal nos inspire a seguir transformando indignação em organização e resistência em luta coletiva. Que a metamorfose das mulheres Sem Terra não seja apenas uma imagem bonita, mas a expressão de um processo real de transformação das nossas vidas, das nossas relações e dos nossos territórios. Defender a vida das mulheres é defender o projeto de sociedade que queremos construir.
Nenhuma pessoa deve viver com medo, subjugada ou oprimida. Queremos territórios onde todas, todos e todes possam viver com liberdade, dignidade e alegria.
Seguiremos em luta para que a terra, o trabalho e a vida sejam espaços de emancipação, de fartura e afetos.
Com violência não se constrói agroecologia! Não há Reforma Agrária Popular sem mulheres livres! Enfrentar as violências é tarefa de todas e todos os Sem Terra!
*Juliana Silva de Vargas
Camponesa, assentada da reforma agrária no Assentamento Conquista da Luta, no município de Itacurubi (RS). Defensora Popular do Campo, integra a Direção Estadual do MST no Rio Grande do Sul e a Executiva Nacional do Setor de Gênero do MST, representando a Região Sul.
Danieria Silva
Camponesa, assentada da reforma agrária no Assentamento Vale da Vitória, no município de São Mateus (ES) e educadora popular. Defensora Popular do Campo, integra a Direção Estadual do MST no Espírito Santo, pelo Setor de Gênero, e a Executiva Nacional do Setor de Gênero do MST, representando a Região Sudeste.
Hanyelle Ohane
Camponesa, assentada da reforma agrária no Assentamento Luiza Ferreira, em São Lourenço da Mata (PE). Comunicadora popular e agente da Economia Solidária Popular, integra a Executiva Nacional do Setor de Gênero do MST, representando a Região Nordeste.
**Editado por Leonardo Correia



