Conferência Antifacista

Debate sobre clima e Reforma Agrária em Porto Alegre defende ruptura com capitalismo e agronegócio

Encontro internacional aponta ecossocialismo, agroecologia e soberania alimentar diante da crise ambiental

Mesa “A luta contra o negacionismo climático e pela reforma agrária no contexto da crise ambiental” integrou a 1ª Conferência Internacional Antifascista pela Soberania dos Povos, realizada em Porto Alegre. Foto: Rafa Dotti

Por Marcelo Ferreira
Do Brasil de Fato

O enfrentamento ao negacionismo climático e à crise ambiental passa pela superação do capitalismo, com o ecossocialismo como horizonte político. A avaliação foi compartilhada por diferentes participantes da mesa “A luta contra o negacionismo climático e pela reforma agrária no contexto da crise ambiental”, realizado neste sábado (28), durante a 1ª Conferência Internacional Antifascista pela Soberania dos Povos, em Porto Alegre.

A atividade, no Salão de Atos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), reuniu lideranças de movimentos sociais, pesquisadores e ativistas de diferentes países. Ao longo das intervenções, a crítica ao modelo capitalista foi apresentada como elemento central para compreender o avanço da crise climática e do negacionismo, associando a destruição ambiental à exploração de recursos naturais, à concentração fundiária e às disputas geopolíticas.

“Uma ecologia que não é socialista não tem futuro”

O pensador marxista francês Michael Löwy definiu o conceito que orientou parte do debate: o ecossocialismo. Um dos organizadores do livro Manifesto por uma Revolução Ecossocialista, aprovado no 18º Congresso Mundial da IV Internacional, ele situou a proposta como eixo estratégico da esquerda diante do colapso socioambiental.

Pensador marxista francês Michael Löwy. Foto: Rafa Dotti

Löwy afirmou que “uma ecologia que não é socialista não tem futuro, e que um socialismo que não é ecológico não está à altura dos desafios do século XXI”. Para ele, o ecossocialismo “não é apenas um capítulo do programa”, mas o eixo estruturante de uma alternativa ao capitalismo.

Ao analisar o modelo brasileiro, apontou o agronegócio como vetor de destruição ambiental e base de sustentação de forças de extrema direita, “um modelo agrário nefasto e ligado ao fascismo”. A crítica recaiu sobre o uso intensivo de agrotóxicos, o avanço das monoculturas e o desmatamento.

Diante desse cenário, defendeu uma reforma agrária radical baseada na agricultura camponesa. “Uma agricultura orientada pela soberania alimentar, baseada na agricultura familiar, em cooperativas e na produção orgânica, com o objetivo de alimentar o povo brasileiro”, afirmou, citando experiências do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).

Reforma agrária precisa ser popular

A mediação da mesa ficou a cargo de Lara Rodrigues, dirigente nacional do MST, que destacou o enfrentamento ao negacionismo climático como eixo central da disputa política contemporânea. “Sabemos quem são os nossos inimigos e quem pratica o negacionismo climático, se apropriando dos bens da natureza e promovendo um processo de individualização e de separação da natureza”, disse.

Rodrigues afirmou que a reforma agrária precisa ser popular, como defende o MST, “no sentido de que o povo esteja em paz e seja protagonista desse processo”. Ela afirmou que a crise climática limita a projeção de futuro e impõe a necessidade de mudanças estruturais.

Lara Rodrigues, do MST, foi a mediadora do debate. Foto: Rafa Dotti

Agro e capitalismo intensificam destruição da natureza

O dirigente nacional do MST, João Pedro Stédile, participou por vídeo e apresentou a crise ambiental como expressão de uma crise estrutural do capitalismo. Segundo ele, “o sistema capitalista está em crise e já não consegue organizar a produção para atender às necessidades da população”.

Stédile destacou que o capitalismo utiliza a apropriação dos bens naturais e os conflitos armados como formas de manter a acumulação de capital. Para ele, a crise climática se agrava a cada ano e já se manifesta em eventos extremos.

Ao tratar do caso brasileiro, o dirigente relacionou o avanço das monoculturas às alterações no regime de chuvas e à intensificação de eventos extremos, como as enchentes registradas em diferentes regiões do país. Ele apontou que o modelo baseado em grandes extensões de monocultura, associado ao desmatamento e ao uso intensivo de agrotóxicos, interfere diretamente na dinâmica climática, reduzindo a capacidade de retenção de água no solo e ampliando o risco de desequilíbrios ambientais.

“No Brasil, das emissões de gases de efeito estufa, 25% vêm do desmatamento no Cerrado, no Pantanal e na Amazônia; outros 25% vêm do transporte individual, baseado em gasolina e diesel; e 50% vêm da atividade pecuária intensiva, associada ao agronegócio. Isso evidencia o peso do modelo agropecuário dominante na crise climática”, afirmou.

Como alternativas, defendeu desmatamento zero, expansão da agroecologia e mudanças no sistema de transporte, “com sistemas públicos de qualidade e baixa emissão de poluentes”. Para ele, “não é possível garantir vida saudável e alimentação adequada dentro do capitalismo”. Finalizou convocando a esquerda brasileira a apresentar um programa consistente para enfrentar as mudanças climáticas.

Racismo ambiental: impactos recaem sobre populações vulneráveis

A presidenta da Confederação Nacional dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares (Contag), Vânia Marques Pinto, destacou a concentração fundiária como entrave à justiça climática. Segundo ela, “apenas 23% das terras agricultáveis estão ocupadas por agricultores e agricultoras familiares, camponeses e camponesas. Os outros 77% estão sob o monopólio do latifúndio”.

Presidenta da Confederação Nacional dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares (Contag), Vânia Marques Pinto. Foto: Rafa Dotti

Marques Pinto contrapôs o agronegócio à agricultura familiar. Afirmou que “a agricultura familiar é um campo com gente, com pessoas”, enquanto o agronegócio representa produção em larga escala, com pouca mão de obra. “Ainda assim, o modelo dominante é vendido como o ‘agro’, com suas campanhas de propaganda — ‘agro é tech, agro é pop’ — que disputam também a narrativa sobre qual modelo de produção deve prevalecer no país.”

Ela também criticou o modelo baseado em monocultivos e uso intensivo de agrotóxicos, que “contamina e afeta o meio ambiente e a saúde das pessoas”. Nesse contexto, ressaltou que esses impactos não atingem todos os territórios da mesma forma, incidindo de maneira mais dura sobre populações periféricas, indígenas e comunidades negras, o que configura racismo ambiental.

A dirigente defendeu que a solução climática também precisa acabar com os subsídios aos combustíveis fósseis. Para isso, entre as estratégias está o combate ao negacionismo e ao avanço da extrema direita. Nesse sentido, afirmou que “derrotar o fascismo é fundamental para avançar no combate ao negacionismo climático”.

Situação na África é parte do sistema de exploração de terras e povos

Representando a Attac/CADTM Marrocos (Associação para a Taxação das Transações financeiras e pela Ação Cidadã / Comitê para a Anulação das Dívidas Ilegítimas), Omar Aziki trouxe uma perspectiva internacional, destacando os impactos da crise climática na África. Segundo ele, há regiões onde populações inteiras sequer têm garantido o direito básico à alimentação e, mesmo em países com certa estabilidade política, como Marrocos, Egito e Tunísia, há forte dependência alimentar.

Omar Aziki e membro da Attac/CADTM Marrocos (Associação para a Taxação das Transações financeiras e pela Ação Cidadã / Comitê para a Anulação das Dívidas Ilegítimas).Foto: Rafa Dotti

“O continente africano enfrenta um intenso processo de apropriação de terras por parte de empresas multinacionais e por políticas impostas por instituições como o Banco Mundial e o FMI”, disse.

Aziki relacionou a crise ambiental às guerras e os conflitos geopolíticos. “Estamos acompanhando o que acontece no Oriente Médio, região que é núcleo do capitalismo fóssil global”, afirmou, citando destruição de recursos naturais e impactos ambientais das guerras, com “destruição de terras, de recursos hídricos e emissão de gases tóxicos que afetam toda a região”.

Ele defendeu a reconstrução de um movimento internacional em torno da soberania alimentar, da recuperação de terras e da proteção dos recursos hídricos, diante de uma crise marcada pela escassez de água, pela crise alimentar e pela crise sistêmica do capitalismo. “Que esta conferência seja o início de um grande movimento de luta contra o fascismo e pela construção de uma nova solidariedade entre os povos, capaz de reconstruir as lutas pela soberania alimentar, pela agricultura e pela recuperação de nossas fontes de água e de vida”, finalizou, lembrando que Porto Alegre “foi, historicamente, um bastião do internacionalismo e do movimento altermundialista”.

“Não há transição energética no capitalismo”

Representante do Fórum Amazônico, Zé Corrêa afirmou que a crise ambiental deve ser compreendida como parte de uma “catástrofe capitalista”. Segundo ele, há uma relação direta entre o modelo de acumulação e a degradação ambiental. “Não estamos diante apenas de uma crise ambiental. Vivemos uma emergência climática e uma catástrofe capitalista”, afirmou.

Zé Corrêa, representante do Fórum Amazônico. Foto: Rafa Dotti

Corrêa destacou a aceleração do aquecimento global e alertou para a proximidade de pontos de não retorno nos sistemas naturais. “Essa aceleração é o elemento mais dramático da crise, porque reduz cada vez mais as condições de reversão e aciona processos irreversíveis”, disse. Para ele, o cenário atual indica o esgotamento das estratégias baseadas em reformas graduais.

O dirigente também apontou a crise do modelo de globalização e defendeu maior autonomia dos povos na organização econômica. Criticou a dependência de cadeias produtivas internacionais e afirmou que a reorganização das economias deve considerar soberania alimentar, energética e tecnológica.

Ao tratar das alternativas, defendeu a superação do modelo energético baseado em combustíveis fósseis e a transformação da agricultura. “Não há transição energética no capitalismo”, afirmou. Corrêa também alertou para o risco de colapso da Amazônia e defendeu medidas como desmatamento zero, controle da expansão da pecuária e manutenção da moratória da soja.

Debatedores atacam modelo do agronegócio e cobram ruptura nas políticas públicas

Após as exposições, a mesa recebeu dois debatedores. Annie Hsiou, do Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior Público do Brasil (Andes-SN) e professora da Universidade de São Paulo (USP), defendeu a incorporação do ecossocialismo como diretriz política diante da crise climática. Para ela, o projeto responde a demandas concretas da população e precisa se traduzir em políticas públicas.

Annie Hsiou, do Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior Público do Brasil (Andes-SN). Foto: Rafa Dotti

Hsiou citou a enchente recente no Rio Grande do Sul e criticou a instalação de grandes empreendimentos em áreas vulneráveis, como o projeto de um data center em Eldorado do Sul. Defendeu a ampliação de políticas de emergência climática, com ações de adaptação, assistência social e atuação também nas cidades, onde se concentra a maior parte da população.

Jairo Bolter, dirigente sindical e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), analisou a crise a partir do meio rural, a partir da vivência como filho de pequenos agricultores. Apontou o envelhecimento do campo, a ausência de sucessão nas propriedades e os impactos do modelo produtivo baseado em agrotóxicos e monoculturas.

“As propriedades rurais não têm mais sucessão. O meio ambiente que foi destruído pelo capital, hoje passa a ser um problema, inclusive para o capital. As matas foram destruídas, os banhados foram secos, os insetos e as plantas não tem mais. Os herbicidas e os herbicidas estão deixando o território sem vida. Está cada vez mais caro a produção agrícola. Não se faz mais só produção jogando a semente na terra”, disse.

Jairo Bolter, dirigente sindical e professor da UFRGS. Foto: Rafa Dotti

Bolter criticou o direcionamento das políticas públicas. “Não podemos mais jogar dinheiro em mais do mesmo, como em transgênicos”, afirmou, ao defender o apoio à produção de alimentos e práticas sustentáveis. Para ele, a sobrevivência do campo depende da transformação dos meios de produção e da valorização, pelo governo, da agricultura familiar voltada à alimentação da população.

“Um novo tempo pode chegar”

O encerramento da mesa reforçou a convergência das análises apresentadas ao longo do debate. Vânia Marques Pinto afirmou que “não dá para pensar em uma saída que não passe por uma reforma agrária ampla e massiva”.

Michael Löwy reiterou que o ecossocialismo é um horizonte construído a partir das lutas. “E como podemos iniciar essa luta? Desenvolvendo a convergência entre as mobilizações sociais e as mobilizações ecológicas”, afirmou.

Ao encerrar a atividade, Lara Rodrigues sintetizou o tom da conferência ao afirmar: “Um novo tempo pode chegar, um tempo ecossocialista, justo, solidário, internacionalista, antifascista, socialista e, principalmente, feminista”.

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Editado por: Katia Marko