Meio ambiente

4ª Jornada da Natureza encerra no quilombo João Surá e marca união em defesa do meio ambiente no PR

Neste sábado (06), duas toneladas de sementes da palmeira juçara foram semeadas por um helicóptero da PRF, em Adrianópolis

Foto: Natália Tiemy Yamaguchi

Por Setor de Comunicação e Cultura do MST no Paraná
Da Página do MST

A comunidade quilombola João Surá, em Adrianópolis (PR), recebeu neste sábado (6) o encerramento da 4ª Jornada da Natureza, com a semeadura aérea de duas toneladas de semente da palmeira Juçara. A programação contou com atividades culturais e de educação ambiental e concluiu uma semana de trabalho de reflorestamento massivo da Mata Atlântica, iniciada no dia 1ª de junho.  

Ao longo dos seis dias de Jornada da Natureza, foram semeadas 30 toneladas de sementes da palmeira juçara, jogadas de um helicóptero da Polícia Rodoviária Federal (PRF), e também distribuídas para as famílias participantes. Cerca de 10 mil mudas de árvores nativas também foram plantadas ou distribuídas ao longo dos seis dias de atividades.

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Seu João Martins, morador da comunidade João Surá foi um dos que ajudou na semeadura aérea da juçara. Foto: Natália Tiemy Yamaguchi

Esta é a primeira edição em que comunidades quilombolas participam da Jornada, somando a comunidades camponesas do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e a comunidades indígenas. “A gente conhece todos os passarinhos que se alimentam desse fruto, era uma alegria ver a jacutinga, os tucanos. Hoje aqui pra nós já não tem [esses pássaros]. Então essa semeadura significa trazer vida, e a gente fica feliz de trazer essa semeadura de volta, porque seria muito difícil ter isso de novo”, celebra João Martins Andrade Pereira, 63 anos, morador da comunidade João Surá, que também participou do sobrevoo para a semeadura da palmeira.

As sementes distribuídas em João Surá também vieram da comunidade do MST Dom Tomás Balduíno, de Quedas do Iguaçu, pioneira na semeadura aérea massiva da juçara. Tarcisio Leopoldo, integrante da coordenação nacional do MST e morador da comunidade Dom Tomás, falou sobre o simbolismo do encontro entre os povos, “fazendo essa junção dos povos, os territórios do campo, das águas e da floresta, se organizando e organizando essas atividades, essas grandes ações em defesa da natureza, então é um momento histórico”. 

Ele é um dos coordenadores da Jornada da Natureza, e conta sobre a construção conjunta para unir indígenas, camponeses e quilombolas: “Foram diálogos emocionantes para a construção desse momento. Então, essa jornada está sendo extraordinária, um momento único. E que ela continue com essa união em defesa do território, da natureza e na construção da nova sociedade”, completou. 

Marcos Takeo, da PRF e comandante da operação durante a Jornada, é piloto de aeronave há dez anos e disse ser gratificante a experiência de semear a palmeira e levar pessoas das comunidades para os sobrevoos. “A gente normalmente faz trabalho de resgate aeromédico, fazendo socorro e transporte de vítimas em acidentes, e nessa semana foi um trabalho totalmente diferente, que foi levar pessoas das comunidades. E foi muito gratificante ver a alegria das pessoas, a emoção delas, às vezes, com medo no começo, e depois vendo que é seguro”, narrou o comandante. 

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Foto: Rafael Bertelli
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PRF Marcos Takeo foi o comandante da operação durante a Jornada. Foto: Natália Tiemy Yamaguchi

Takeo é formado em engenharia ambiental, e partilha do sentido de cuidado com a natureza que é intencionalizado na Jornada. “Todos querem a preservação, mas as pessoas precisam do pão na mesa. Fica difícil convencer as pessoas a preservar se você não dá um retorno para elas, e com esse projeto você consegue oferecer um retorno, consegue repovoar a floresta, e preservar ela, tendo um retorno econômico de forma sustentável”, avalia ele. 

Encontro histórico entre quilombolas, indígenas e camponeses Sem Terra

O encerramento da 4ª Jornada se tornou um encontro entre camponeses e camponesas moradoras de comunidades da Reforma Agrária, indígenas das etnias guarani e kaingang e remanescentes quilombolas. 

Além das famílias moradoras da comunidade João Surá, também participaram representantes dos quilombos Sete Barras, Tatupeva, Córrego das Moças, Mamonas, Praia do Peixe, São João, todas localizadas em Adrianópolis; integrantes da Terra Indígena Rio das Cobras, de Nova Laranjeiras; das comunidades do MST, o assentamentos Contestado, da Lapa; o assentamento Emiliano Zapata, de Ponta Grossa; as comunidades Dom Tomás Balduíno e Fernando de Lara, de Quedas do Iguaçu; e o coletivo Marmitas da Terra, de Curitiba. Estavam presentes Nilton Bezerra Guedes, superintendente do Incra-PR; Ralf Albuquerque, superintendente do Ibama-PR, e o deputado estadual Goura (PDT). 

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Foto: Rafael Bertelli
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Adolescentes e jovens fizeram a abertura da atividade. Foto: Natália Tiemy Yamaguchi

As estruturas do Colégio Estadual Quilombola Diogo Ramos foram o espaço que recebeu as atividades do dia. Adolescentes e jovens da comunidade apresentaram uma peça de teatro sobre o sentido da educação para a comunidade, para preservação da memória e do modo de vida do povo quilombola. 

O almoço foi preparado em fogão à lenha e uma fornalha, construídos com método tradicional à base de argila. Preparado em mutirão pela comunidade, os alimentos foram oferecidos gratuitamente a todas as pessoas participantes. Arroz, feijão, vaca atolada, frango, carne de porco, farofa, couve garantiram o colorido do prato.

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O almoço foi preparado em fogão à lenha e uma fornalha. Fotos: Adriana Gonçalves

Elizandra Fygsanh Freitas, professora de história e integrante da coordenação da Terra Indígena Rio das Cobras, também viajou por mais de 10 horas desde Nova Laranjeiras até Adrianópolis para participar do encerramento da Jornada. Ela reforça a importância da união dos povos para enfrentar a crise ambiental.

“Nós não podemos fechar os olhos para essa realidade e é por isso que estamos marcando presença na Jornada da Natureza, porque semear é um ato muito importante que tem que ser passado de geração em geração. É muito importante a união dos povos. Juntar as comunidades, povos Sem Terra, quilombolas. Talvez a nossa forma de organização seja diferente, mas a nossa causa é uma só, que é para manter a floresta em pé, é pelos nossos territórios, precisamos de Reforma Agrária e igualmente de demarcação de terras indígenas”.  

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Indígenas kaingang e guarani da Terra Indígena Rio das Cobras, de Nova Laranjeiras, e de comunidades do MST em Quedas do Iguaçu participaram da atividade em Adrianópolis. Foto: Rafael Bertelli 

Contexto histórico da comunidade João Surá

A placa na entrada da comunidade João Surá apresenta aos visitantes o tempo de luta e resistência do povo dali. “Sejam bem vindos ao quilombo João Surá, (re)existindo desde 1807”. A história, compartilhada de geração em geração, é de que a comunidade foi formada por pessoas escravizadas vindas de áreas mineradoras de Apiaí e Iporanga, municípios localizados em São Paulo. O rio Ribeira de Iguape margeia toda a comunidade e demarca a divisa entre os estados do Paraná e São Paulo, assim como outras dezenas de quilombos na região. 

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Foto: Rafael Bertelli

Hoje, 58 famílias vivem na comunidade. A luta pela titulação da comunidade já dura mais de 20 anos. “O nosso sonho é conquistar a nossa terra para que a gente possa ter mais condições de nossas famílias permanecerem aqui, principalmente para trabalhar protegendo a nossa natureza”, conclui Cassiane Aparecida de Matos, diretora do Colégio Estadual Quilombola, que participou da semeadura desde o helicóptero. 

Resumos da 4ª Jornada da Natureza

Está foi a maior edição da Jornada da Natureza no esttado, realizada anualmente desde 2023, na semana do Dia Mundial do Meio Ambiente, 5 de junho. A ação passou pelas comunidades Terra Indígena Rio das Cobras, em Nova Laranjeiras; comunidade Dom Tomás Balduíno, em Queda do Iguaçu; comunidade Herdeiros da Terra de Primeiro de Maio, em Rio Bonito do Iguaçu; assentamento Nova Geração, em Guarapuava; acampamento Fidel Castro, em Centenário do Sul; acampamentos Manoel Jacinto e Herdeiros da Luta de Porecatu, em Porecatu; acampamento Zilda Arns, em Florestópolis. 

A Jornada da Natureza é realizada pelo MST, por meio da Associação de Cooperação Agrícola e Reforma Agrária do Paraná (Acap),em parceria com a Associação de Produtores Orgânicos de Quedas do Iguaçu Produzindo Vidas (Apoqi), PRF, Instituto Contestado de Agroecologia (ICA), Cooperativa Central da Reforma Agrária (CCA); Cooperativa de Crédito Rural de Pequenos Agricultores da Reforma Agrária (Crehnor), Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS) – Campus Laranjeiras do Sul; Laboratório Vivan de Sistemas Agroflorestais; Companhia Nacional de Abastecimento (Conab); Instituto Água e Terra; Centro de Desenvolvimento Sustentável e Capacitação em Agroecologia (Ceagro); Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa); Prefeitura Municipal de Quedas do Iguaçu; Fundação Luterana de Diaconia,Programa Capa de Agroecologia, o Instituto de Colonização e Reforma Agrária (Incra), Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e Instituto Água e Terra da Paraná (IAT).

Este ano, a Jornada da Natureza recebe o patrocínio da CAIXA e do Governo do Brasil, “Tem patrocínio CAIXA, Tem Governo do Brasil”. 

*Editado por Solange Engelmann