Jornada de Lutas
Maior Terra Indígena do Paraná semeia 2 toneladas de sementes da palmeira juçara na 4ª Jornada da Natureza
A abertura da 4ª edição ocorreu nesta segunda-feira (1º), em Nova Laranjeiras (PR); A programação segue com atividades até sábado (6)

Por Setor de Comunicação e Cultura do MST no Paraná
Da Página do MST
A maior Terra Indígena (TI) do Paraná recebeu a abertura da 4ª Jornada da Natureza, nesta segunda-feira, 1º de junho, no município de Nova Laranjeiras. As diversas comunidades da TI Rio das Cobras semearam 2 toneladas de sementes de palmeira Juçara, espécie-chave no bioma Mata Atlântica, ameaçada de extinção. Esta edição é realizada a partir da aliança dos povos indígenas, camponeses Sem Terra e Quilombolas, com apoio da Polícia Rodoviária Federal (PRF) para a dispersão aérea das sementes.
Elizandra Fygsanh Freitas, professora de história e integrante da coordenação da TI, foi uma das moradoras que integrou a equipe de sobrevoo e pôde participar da semeadura de dentro do helicóptero. “Foi uma sensação única. Lá de cima a gente consegue perceber o quanto ainda preservamos da nossa natureza. Quando olhamos as áreas vizinhas, vemos que muitas delas foram praticamente desmatadas. Já no nosso território, conseguimos enxergar o resultado do trabalho de proteção que vem sendo realizado ao longo dos anos”, relatou a indígena da etnia Kaingang.

O dia foi marcado por grande força ancestral e riqueza de simbologias da tradição indígena guarani e kaingang. As mulheres da comunidade conduziram a abertura, com cantos e danças tradicionais relacionados à preservação da natureza, à agricultura ancestral e ao papel das mulheres indígenas na conservação das sementes e dos territórios. As apresentações com música e contação de história destacaram a relação histórica dos povos indígenas com a floresta e a importância da transmissão desses saberes às novas gerações.
“A gente canta sobre aquilo que nossos ancestrais faziam, sobre a valorização da agricultura ancestral e dos conhecimentos que herdamos do nosso povo. Também falamos sobre a preservação da natureza e lembramos que somos as raízes desta terra. As mulheres têm uma relação histórica com o cuidado das sementes e da vida”, afirmou Elizandra.



Foto: Juliana Barbosa
Tarcísio Leopoldo é um dos integrantes da coordenação da Jornada e morador da comunidade Dom Tomás Balduíno, em Quedas do Iguaçu, onde a iniciativa começou há quatro anos. Ele enfatiza a importância da unidade entre os povos do campo para realizar a ação massiva pela recuperação ambiental: “Para nós é muito importante fazer a Jornada em parceria com os verdadeiros guardiões da natureza. São os camponeses Sem Terra e os povos originários organizando essas grandes ações em defesa da natureza”, garantiu Leopoldo, que é também membro da coordenação nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).
É também da comunidade Dom Tomás de onde foram colhidas e preparadas as cerca de 30 toneladas de sementes de juçara que são semeadas ao longo desta edição, em diversas comunidades do estado.
Com o lema “Semeando vida para enfrentar a crise climática”, a 4ª Jornada da Natureza segue até o dia 6 de junho com atividades em Quedas do Iguaçu, Rio Bonito do Iguaçu e Adrianópolis, envolvendo comunidades indígenas, quilombolas e áreas de Reforma Agrária em ações de reflorestamento, recuperação ambiental e educação popular.
Jornada da Natureza: trabalho contínuo de preservação ambiental
A semeadura na TI Rio das Cobras faz parte da Jornada da Natureza desde a segunda edição, em 2024. Para Adelar Fagpri Felix Nunes Manduca, liderança Kaingang, presidente da associação Terra Indígena Rio das Cobras (ATIRC), a Jornada tem contribuído para fortalecer as iniciativas de recuperação ambiental que já são desenvolvidas pelas próprias comunidades. Uma das principais ações criadas a partir desta experiência é a Brigada Ancestral, que surgiu da necessidade de acompanhar e proteger o desenvolvimento da palmeira juçara nos territórios indígenas.
“A Brigada Ancestral foi criada na necessidade de acompanhar a juçara. Todo esse trabalho da Jornada influenciou bastante na criação dessa brigada. Ela nasceu para fazer o resgate cultural, das práticas agrícolas tradicionais e dos conhecimentos que os povos indígenas já desenvolviam muito antes da chegada da monocultura aos nossos territórios”, afirmou.


Fotos: Leonardo Henrique
Segundo Adelar, o próprio nome da iniciativa expressa o compromisso com a recuperação dos saberes tradicionais. “Ancestral significa revitalizar e resgatar tudo aquilo que foi perdido ou retirado das populações indígenas. Queremos fortalecer novamente nossas práticas ancestrais e nosso modo próprio de fazer agricultura”, explicou. A TI Rio das Cobras tem 19 mil hectares, formada por mais de 3 mil pessoas indígenas das etnias Guarani e Kaingang.
Para Elizandra, a Jornada também representa um espaço de união entre diferentes povos e comunidades que compartilham objetivos comuns na defesa dos territórios e do meio ambiente. “Nossa luta é uma só. Existem povos indígenas, comunidades quilombolas e diversos movimentos populares, mas todos têm o compromisso de manter a floresta em pé. Quanto mais estivermos unidos, mais conseguiremos conscientizar a juventude e fortalecer o cuidado coletivo com a natureza”, concluiu.
Um ato de abertura da ação contou com caciques da TI, o superintendente do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama-PR), Ralph Albuquerque; Superintendente Geral de Diálogo e Interação Social (SUDIS), Roland Rodolfo Rutyna; integrantes da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (FUNAI), da PRF e do MST.

A Jornada da Natureza é realizada pelo MST, por meio da Associação de Cooperação Agrícola e Reforma Agrária do Paraná (Acap) , em parceria com a Associação de Produtores Orgânicos de Quedas do Iguaçu Produzindo Vidas (Apoqi), Polícia Rodoviária Federal (PRF), Instituto Contestado de Agroecologia (ICA), Cooperativa Central da Reforma Agrária (CCA); Cooperativa de Crédito Rural de Pequenos Agricultores da Reforma Agrária (Crehnor), Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS) – Campus Laranjeiras do Sul; Laboratório Vivan de Sistemas Agroflorestais; Companhia Nacional de Abastecimento (Conab); Instituto Água e Terra; Centro de Desenvolvimento Sustentável e Capacitação em Agroecologia (Ceagro); Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa); Prefeitura Municipal de Quedas do Iguaçu; Fundação Luterana de Diaconia, Programa Capa de Agroecologia, o Instituto de Colonização e Reforma Agrária (Incra), Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e Instituto Água e Terra do Paraná (IAT).
Este ano, a Jornada da Natureza recebe o patrocínio da Caixa Econômica e do Governo Federal.
Confira a programação para os próximos dias:
01/06 – Nova Laranjeiras (TI Rio das Cobras) – Semeadura aérea de 2 toneladas de sementes
8h às 9h – Acolhida e café da manhã.
9h – Abertura da Jornada com apresentação cultural das mulheres indígenas e sobrevoo da semeadura aérea da Palmeira Juçara.
11h30 – Ato político com autoridades.
12h30 – Almoço.
14h – Atividade com as escolas e plantio de mudas.
17h – Feira com produtos locais e atividade cultural com bandas indígenas.
02/06 – Quedas do Iguaçu — Comunidade Dom Tomás Balduíno — semeadura aérea de 10 toneladas de sementes
Principais atividades: dia de campo com monitoramento de áreas; visita à unidade de produção e beneficiamento de juçara e frutas nativas; semeadura aérea de Palmeira Juçara.
9h – Acolhida e credenciamento das autoridades e instituições parceiras.
9h30 – Café da manhã.
11h – Sobrevoo de semeadura de juçara.
12h – Ato político.
13h – Almoço coletivo.
14h – Continuação do sobrevoo e semeadura da palmeira.
17h – Programação cultural.
03/06 – Rio Bonito do Iguaçu — Comunidade Herdeiros da Terra de 1º de Maio — semeadura aérea de 4 toneladas de sementes
Principais atividades: sobrevoo e mutirão de plantio nas áreas que foram afetadas pelo tornado em novembro/25, com ato político e conferência na universidade.
7h30 – Acolhida.
9h00 – Sobrevoo com semeadura aérea.
10h30 – Ato político.
12h30 – Almoço comunitário.
13h30 – Mutirão de plantio — mudas de árvores nativas.
16h30 – Atividades ambientais na UFFS.
19h30 – Conferência sobre a Palmeira Juçara e resultados das pesquisas em torno da semeadura aérea.
04/06/2026 – Rio Bonito do Iguaçu – assentamento Dom Tomás Balduíno
12h – Almoço
13h – Teste a campo da máquina de colheita de açaí – Açaíbot
16h – Café da tarde
Formação ambiental com certificação
05/06/2026 – Guarapuava – Assentamento Nova Geração
10h – Ato político
12h – Almoço
13h – Oficina de proteção de fonte e plantio de árvore na reserva legal atingida pelo tornado
15h – Distribuição de mudas e encerramento.
06/06/2026 – Adrianópolis – Comunidades quilombolas do Vale do Ribeira / Comunidade João Surá – semeadura aérea de 2 toneladas de sementes
Principais atividades: sobrevoo de semeadura de juçara, ato político, troca de sementes, reconhecimento do território.
8h – Acolhida e café da manhã.
9h – Sobrevoo e semeadura da Palmeira Juçara.
11h – Ato político
12h30 – Almoço coletivo
14h – Apresentação cultural da história do Colégio Estadual Diogo Gomes.
15h – Passeio para conhecer a comunidade.
18h – Troca de sementes e mudas
*Editado por Fernanda Alcântara



