Solidariedade

Doe bikes para Zâmbia e contribua com a alfabetização

A bicicleta é o principal e mais popular meio de transporte na Zâmbia, porém quem não tem, muitas vezes precisa caminhar entre 15 e 30 km diariamente para chegar à escola. Campanha beneficiará de mais de 10 mil camponesas(es) sul africanas(os)
Bicicletas por Zâmbia

Da Página do MST

No marco das Jornadas de Lutas do Centenário Paulo Freire, está sendo lançada a campanha internacional de solidariedade “Bicicletas para Zâmbia”, em subsídio a Campanha de Alfabetização e Agroecologia Fred M’membe, na Zâmbia, país da região sul do continente africano.

Desde o início do último mês de maio, a Campanha de Alfabetização e Agroecologia Fred M’membe segue seu curso em três províncias: Lusaka, Eastern e Western. Sua formação é baseada no método “Ler, Falar e Escrever as Palavras e o Mundo”, inspirado no legado Freireano e coordenado pela Brigada Internacionalista do MST Samora Machel e pelo Partido Socialista (Socialist Party).

Em sua fase inicial, as doações das bicicletas beneficiarão mais de 10,5 mil pessoas em apenas 6 meses, contribuindo com o acesso à alfabetização de milhares de  trabalhadoras(es) do campo, onde muitas(os) precisam percorrer dezenas de quilômetros a pé diariamente para chegar até a escola.

A Zâmbia é um país composto por povos de mais de 72 etnias e línguas distintas, com predomínio originário do grupo-étnico Bantu – identidade que compõem comunidades com uma vasta diversidade cultural, presentes em 22 países africanos.

A importância do programa se dá na medida em que mais da metade da população zambiana não está alfabetizada no idioma oficial reconhecido pelo governo, o inglês. Contudo, a alfabetização em inglês é necessária para que a população possa acessar serviços e direitos básicos de saúde, educação e cidadania, dentre outros.

Segundo dados do Inquérito Demográfico e de Saúde de Zâmbia (ZDHS), as mulheres são o grupo com menor acesso à educação formal no país: apenas 10% concluem o ensino médio ou superior, uma diferença de 7% em relação aos homens.

A pobreza agrava o acesso à alfabetização, assim como a falta de acesso à comida. Segundo o Banco Mundial, a Zâmbia possui um índice muito alto de pessoas que vivem abaixo da linha da pobreza. Em 2015, este índice chegava a 54,4% da população, colocando o país entre os 12 piores do mundo.

Por isso, a campanha de alfabetização e de acesso à escola, também está atrelada à formação em agroecologia, por meio da agricultura familiar camponesa. Além das contribuições individuais, a campanha é apoiada por organizações internacionais, como a Why Hunger, dos EUA.

Saiba como doar

Foto Brigada Samora Machel

Banco do Brasil

Agência: 4328-1.
Conta Corrente: 3424-X.
CNPJ: 07.696.592/0001-77.

Associação Brasil Popular

PIX – adm1@brasilpopular.org.br

Confira a página da campanha clicando aqui, e saiba mais!

Campanha de Alfabetização e Agroecologia Fred M’membe

Com o início das formações, foram distribuídos kits de proteção contra o coronavírus junto com os materiais didáticos. As turmas contam com um número limitado de pessoas dentro dos parâmetros de segurança sanitárias necessários para conter o contágio do Covid-19.

Inspirado no método Falar, Ler e Escrever as palavras e o mundo, o projeto se estenderá por todo o país priorizando as regiões onde as taxas de analfabetismo na língua inglesa são mais altas, como é o caso da Província de Western, North West e Luapula onde os índices de analfabetismo entre a população destas regiões chegam a 47,3%. 

O índice de pessoas que não lêem e nem escrevem inglês na Zâmbia chega a 55,3%. Segundo Chanda Hilton Sibote, coordenador nacional da campanha e membro do Partido Socialista zambiano. “Todos os documentos que são realmente do governo, a maioria deles é impressa em língua inglesa. E o inglês sendo a língua oficial então, significa muito para eles [zambianos(as)], porque eles têm que ser capazes de ler os documentos.”

A ênfase em agroecologia é parte do esforço do Partido Socialista em promover uma melhoria na vida da população mais pobre por meio da alimentação saudável e geração de renda. Para tanto, contam com a contribuição da Brigada Internacionalista do MST, que junto com as(os) companheiras(os) do partido local,  realizam oficinas e formações de práticas agroecológicas concomitantes com as aulas de alfabetização.

Parte da classe trabalhadora que vive nas zonas urbanas da Zâmbia se dedica à atividade de extração de minérios, principalmente o cobre, e ao setor de turismo. Porém, mais da metade da população zambiana, cerca de 56%, vivem nas regiões rurais. E é também na agricultura em que se ocupa 73% da força de trabalho do país.

A agricultura em Zâmbia é composta em sua maior parte por pequenas(os) agricultoras(es), que sustentam suas famílias a partir da agricultura de subsistência. Neste contexto, a campanha tem contribuído com estas famílias no avanço da produção de alimentos orgânicos.

Brigada Internacionalista do MST Samora Machel

A Brigada Internacionalista do MST Samora Machel, na Zâmbia tem atuado na África desde 2008, nas frentes de educação, agroecologia e organização das mulheres. Mais recentemente, a partir de novembro de 2020, os esforços de alfabetização da população zambiana tomaram uma dimensão maior com a Campanha de Alfabetização e Agroecologia Fred M´mbembe.

Já neste ano de 2021, o trabalho realizado pela brigada toma forças com a campanha “Bicicletas para Zâmbia”, que tem o desafio de contribuir com o acesso à  alfabetização de milhares de pessoas na língua oficial do país, o inglês, além de levar as práticas agroecológicas para o interior do país, onde vivem a maior parte das(os) trabalhadoras(es) rurais.

Em um primeiro estágio, que terá a duração de três meses, a campanha visa alfabetizar milhares de pessoas nas respectivas regiões onde ocorre. Paxcina Mundia Imikendu, coordenadora local da campanha na província de Western e moradora de uma região dos povos Lozi, onde se fala a língua Silozi, afirma que o número de pessoas não-alfabetizadas em sua região em Inglês é muito alto e que essa iniciativa irá alfabetizar 600 pessoas, divididas em 30 turmas no local.

“A campanha é altamente aceita na região, no sentido de que as pessoas entendem que serão capazes de saber como escrever, ler e falar em inglês, uma vez que essa iniciativa irá reduzir o número de analfabetos em nossa região”, ressalta Paxcina. Para ela, a campanha também é importante porque na mesma medida em que as pessoas vão se alfabetizando se transformam em multiplicadores da agroecologia. Em suas palavras possibilita “treinar uma pessoa (em práticas agroecológicas) para que possa treinar os moradores da região”.

Martha Daka, coordenadora da frente de educação do Socialist Party e coordenadora nacional da Campanha de Alfabetização e Agroecologia, fala sobre a realidade dos territórios que irá acompanhar durante a campanha. “Província do Norte, Província de Muchinga, Província de Luapula. Serão alfabetizadas 1.800 pessoas nestes três territórios. Muitos deles são analfabetos, eles não foram à escola e vivem da agricultura familiar.”

Na província de Eastern, no distrito de Malambo, onde a população pertence ao povo Cunda e fala a língua de mesmo nome, o coordenador local Emmanuel N´mbanda comenta sobre a importância da agroecologia para a população local. Segundo Emmanuel, em Malumbo já existem experiências de agroecologia, porém, a campanha “vai ajudar a mais pessoas botarem a mão na massa, ao mesmo tempo em que as conscientiza a não usar produtos químicos que destroem a terra”.

O desafio da alfabetização das mulheres em Zâmbia

Na Zâmbia não existe ensino totalmente público, as pessoas que ingressam na escola realizam os anos primários do ensino básico custeados pelo Estado, até a sexta ou sétima série, e depois são obrigadas a arcar com várias taxas e custos, que na prática impossibilitam grande parte da população de continuarem estudando.

Somadas a estas barreiras, existe o problema da própria infraestrutura. Em muitas regiões do país as escolas estão muito longe das moradias, obrigando muitas vezes, os estudantes a percorrerem grandes distâncias para chegarem a escola.

No caso das mulheres, a realidade é ainda mais desafiadora se levarmos em conta a divisão sexual do trabalho, ainda segundo dados do ZDHS a taxa de fertilidade no país teve um leve aumento com relação às décadas anteriores. Os registros apontam que as mulheres zambianas têm em média 5 a 6 filhos. Neste cenário, muitas mulheres são obrigadas a abandonar os estudos quando se tornam mães e passam a cuidar da casa e dos filhos.

No que se refere ao acesso das mulheres zambianas a educação formal, Martha diz que, “um dos desafios é a pobreza. Daí as mulheres na Zâmbia deixam de ir à escola, elas tem que pagar integralmente as taxas escolares, mas não têm dinheiro para pagar as taxas.”

O inglês como língua oficial é também uma necessidade para o acesso ao mundo do trabalho e a independência e liberdade das mulheres zambianas, relata Martha. “A outra coisa é a mulher, se ela não sabe ler e escrever, ela não pode se sentir libertada, ela não pode se sentir como se defendesse seus direitos. As mudanças na vida da mulher [que aprende o inglês]; uma é que você consegue se comunicar com todo mundo e a outra é que você melhora também na área da saúde. Ajuda as mulheres a descobrir o que fazer na vida. Você sabe que quando alguém não sabe falar inglês não consegue encontrar emprego […]. Então, realmente ajuda para uma mulher falar inglês, porque ela pode se libertar e ajudar a si mesma e ser capaz de se comunicar com as outras.”

*Com informações da Brigada Internacionalista do MST Samora Machel

**Editado por Fernanda Alcântara