Juventude Sem Terra

Assentamento Contestado recebe a 2ª Etapa da Brigada Nacional Oziel Alves Sul, no PR

As aulas acontecem no Centro Cultural Casarão, na Lapa e contam com 80 educandos/as do MST, que vivem no Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul

Foto: Janaina Santos

Por Equipe de Comunicação da Brigada Nacional Oziel Alves Sul
Da Página do MST

Um casarão de paredes grossas, erguido por mãos negras escravizadas, que serviu de moradia para gerações da família do Barão dos Campos Gerais por mais de 100 anos, desde 1835. Hoje, o patrimônio histórico batizado de Centro Cultural Casarão que é símbolo das transformações e conquistas da luta popular ao longo dos séculos, recebe mais de 80 educandos/as e educadoras/es do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, na 2ª Etapa da Brigada Nacional Oziel Alves Sul.

Esta sala de aula carregada de história faz parte do espaço comunitário do assentamento Contestado, localizado na Lapa, região sul paranaense. O nome da comunidade do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) faz referência ao conflito armado ocorrido na região, que envolveu povos caboclos, posseiros e pequenos proprietários de terras, o governo federal e estadual de Santa Catarina e Paraná – que também foi tema de estudo durante os primeiros dias da etapa. Ao todo, estima-se que mais de 10 mil pessoas perderam suas vidas na Guerra do Contestado, entre 1912 e 1916. 

É neste território marcado pelas lutas populares onde está a Escola Latino Americana de Agroecologia (ELAA), que também acolhe e integra a organização do curso. “É um território que tem essas raízes, e hoje ser ocupado pelas famílias sem Terra é muito importante, uma conquista muito simbólica, para além do Casarão, o território do assentamento é uma grande conquista”, reforçou Amandha Felix, integrante da coordenação da ELAA e da direção estadual do MST, na abertura do curso.

A Brigada Nacional reúne cerca de 700 militantes Sem Terra, em todas as regiões do Brasil, organizados em seis brigadas em todo o país. Mais 100 militantes estão envolvidos na Coordenação Político-pedagógica (CPP), que também estão em formação e fortalecimento de experiências pedagógicas.

Ao todo, serão quatro etapas de dez dias cada, com formatura marcada para acontecer durante o 7º Congresso do MST, em 2024. O curso funciona com a pedagogia da alternância, com tempo escola e tempo comunidade. A primeira etapa da região Sul ocorreu na Escola Milton Santos de Agroecologia (EMS), entre 24 de abril e 3 de maio.

Formação que vai além da sala de aula

Esta segunda etapa terá duração de 11 dias, entre 11 e 21 de julho, com bastante frio e chuva, com é típico desse período do ano na região. O primeiro dia foi dedicado, principalmente à acolhida e organicidade da turma, com a criação dos Núcleos de Base (NBs) e divisão entre equipes e setores de trabalho. A brigada pode conhecer mais sobre a história da comunidade e sobre o funcionamento da Brigada Chico Mendes, responsável por toda a organização da ELAA.  

As crianças filhas de educandas da turma passam o dia em atividade pedagógicas e divertidas na ciranda infantil. Foto: Wellington Lenon 


Com essa forma de organização da turma, todas as educandas/os participam ativamente da realização do curso, seja na preparação das místicas, coordenação das aulas, limpeza e ornamentação dos espaços, além dos momentos de estudo e avaliação nos NBs. 

Já no terceiro dia de encontro, um grande mutirão da turma se somou à brigada permanente da ELAA para a manutenção e cuidados com a agrofloresta e os plantios no entorno da Escola. O mutirão também foi a forma de ampliar a votação na proposta do MST para o Plano Plurianual Participativo (PPA), e para a inscrição da turma no MSTZap, a partir da organização da equipe de comunicação. 

Parte do mutirão foi de limpeza dos canteiros de verduras da ELAA. Foto: Francielli Santos

Reforma agrária é irmã gêmea de democracia

As aulas da 2ª etapa começaram com a análise de conjuntura sobre o MST como força política, com assessoria do companheiro Diego Moreira, integrante da direção nacional do MST pelo Setor de Produção e assentado no Paraná. “Nossa formação histórica é marcada por opressão e por pobreza. O MST é a soma de tudo isso. Soma do povo, nossa identidade, nosso movimento é da miscigenação: povo negro, indígena e de imigrantes pobres […]. A democracia não se consolidará sem a reforma agrária. A reforma agrária é irmã gêmea da democracia”, disse o dirigente, apresentando o MST como a continuidade das lutas históricas por terra e pela democracia no Brasil.

A turma tem a cara da diversidade do povo Sem Terra. Fotos: Aida Teixeira

Já Ricardo Calegari, professor de história e militante do Partido dos Trabalhadores, trabalhou a “História Política do Brasil” e envolveu toda a turma na aula, ao longo do dia 13. “O povo brasileiro e as classes sociais” foram os temas trabalhados por Ricardo Prestes Pazello, professor de direito e militante do Movimento Brasil Popular (MBP), no dia seguinte. 

A partir da teoria do pensador Darci Ribeiro, Pazello apresentou a questão cultural do Brasil, qual a cara da nação, seguindo uma introdução do pensamento brasileiro, com seus antecedentes. Após apresentar as principais revoltas e lutas populares do Brasil, indígenas, negras, camponesas e operárias, o professor provocou a turma: “Nosso desafio permanente é recuperar e escrever as lutas populares”. 

O companheiro Álvaro Anacleto, que integra o coletivo da Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF), trouxe o tema de profunda relevância para o processo de aprendizado crítico, ao tratar das “leis fundamentais do capitalismo – Introdução ao materialismo histórico e dialético”, nos dias 15 e 16. O professor apresentou uma retrospectiva da história, relembrando várias etapas da civilização e seus principais marcos no mundo e na América Latina, provocando a reflexão sobre onde queremos chegar e qual será o caminho. 

A cada manhã, um núcleo de base apresenta a mística com o legado e a memória de lutadores do povo que seguem inspirando a resistência popular. Foto: Ednubia Ghisi 

Lançamento do I Festival de Literatura do MST. Foto: Foto: Janaina Santos

Janaína Strozak, companheira integrante do coletivo Palavras Rebeldes, conduziu a oficina de reflexão e prática da literatura, e despertou o talento e a criatividade da turma. No diálogo com a turma, ela apresentou o papel da literatura na luta de classes e na compreensão da realidade. 

Os Núcleos de Base construíram poemas, cartas, contos e relatos de vida, que emocionaram a turma durante o sarau realizado na noite de sábado, já no clima do “I Festival Literário do MST – Escrevivências Sem Terra: luta e construção”. Cada educando/a ficou com o desafio de aproveitar a grande inspiração e as práticas da Brigada Oziel e participar do Festival. 

A Poesia a seguir é uma produção coletiva do NB Chê Guevara, durante a oficina de literatura: 

A diversidade Sem Terra

Aqui se planta a raiz
Mas também se planta a esperança
Plantamos a nossa cultura
E alimentamos a nossa perseverança
Na lida do dia a dia, plantamos de tudo nesse chão
Resistimos nessa terra, trazendo a história do passado
A nossa inspiração
É a diversidade que forjamos a nossa identidade
Fazendo a rebeldia a luta
E fortalecendo a nossa coletividade
De norte a sul desse grande país
O povo vai se mobilizando
Vem idoso vem criança
Vêm todos que acreditam nesse projeto
Que vem se estruturando
Formamos um movimento
Que dá visibilidade a todo a nosso povo
Que humaniza e restaura
Um Brasil feliz de novo

*Editado por Solange Engelmann