Modelo em disputa
Como a agropecuária devasta as áreas de floresta e de comunidades tradicionais no Brasil?
Com ações em torno do meio ambiente e denúncia do agronegócio, de 1 a 7 de junho, o MST realizou a Jornada Nacional em Defesa da Natureza e seus Povos; entenda como as pastagens do Agro destroem a natureza e o papel da agroecologia como alternativa concreta

Por Solange Engelmann
Da Página do MST
A abertura de áreas de floresta tem sido uma prática adotada ao longo de décadas para dar lugar à agricultura, agropecuária, construções de centros urbanos, entre outros, mas principalmente para a produção de áreas de monoculturas, que invadem os territórios antes cobertos por diversos tipos de vidas, cultura e espécies. Essa prática se intensifica na década de 1970, com a “Revolução Verde”, e a abertura de novas fronteiras agrícolas pela ditadura militar, o avanço do capital e da mecanização no campo, que inclusive, tem como resultado a expulsão de agricultores a trabalhadores rurais do campo, criando a chamada categoria dos hoje “sem-terra”.
São áreas imensas que abrigavam uma biodiversidade diversa composta por florestas, que passam por um processo de desmatamento, que passa a ser invadidas por uma imensidão de pastagem e outras culturas, que servem, principalmente, ao modelo de produção do agronegócio para encher os bolsos dos proprietários de terras e latifundiários, a partir da exportação de commodities – ou seja, produção de matéria-prima, como carne, soja, milho, cana-de-açúcar para exportação para outros países.
Atualmente, o governo federal tem investido em um maior controle sobre o desmatamento no país, que se encontra em tendência de queda em todos os biomas, principalmente em relação à Amazônia e ao Cerrado, com redução de 37,5% em comparação ao ciclo anterior (agosto de 2024 a maio de 2025), conforme estimativa do sistema Prodes, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Já o MapBiomas, aponta para uma queda de 20,6% do desmatamento do Brasil em 2025, em relação a 2024.

Com isso, o Brasil atingiu em 2025 um marco no monitoramento do desmatamento, em que pela primeira vez desde 2019, a área total de vegetação nativa desmatada ficou abaixo de 1 milhão de hectares em um único ano.

Porém, um estudo da MapBiomas, mostra que entre 1985 e 2024, o país perdeu em média 2,9 milhões de hectares de áreas naturais por ano, alcançando uma redução de 111,7 milhões de hectares. Assim, mesmo com a diminuição no desmatamento, em 2025, a área média desmatada no Brasil foi de 2.698 hectares por dia, cerca de 112 hectares por hora. A título de comparação, é o mesmo que 17 parques do Ibirapuera – o maior parque urbano da cidade de São Paulo, fossem desmatados todos os dias.
Já o Cerrado segue sendo o bioma com a maior área desmatada, chegando a 540.614 hectares devastados em 2025, o que equivale à perda de 1.482 hectares de vegetação nativa por dia. Na Amazônia, o desmatamento foi de 792 hectares por dia, o que equivale à perda de cerca de 5 árvores por segundo.

Nesse cenário, entre 1985 e 2024, a pastagem e a agricultura foram as áreas de terra com maior expansão sob as áreas de vegetação nativa, com 62,7 milhões de hectares para a pastagem e 44 milhões de hectares para a agricultura. Como resultado disso, em 2024, cerca de 65% da área do país estava coberta por vegetação nativa, e 32% ocupada pela agropecuária.

Nesse mesmo intervalo de tempo, ao analisar o percentual de municípios em que a prática da agropecuária com áreas de pastagem ocupa a maior parte de seu território, o percentual subiu de 47% em 1985 para 59% em 2024.
Cinco estados mais DF puxam fila no desmatamento da floresta por áreas de pastagem

Em alguns estados a devastação das áreas de floresta para abertura de pastagem segue em ritmo acelerado. O geógrafo e doutorando no Ineaf/UFPA, Eduardo Carlini explica que, com base nos dados do MapBiomas alguns estados do país da Amazônia, Sudeste, Nordeste e Centro-Oeste vêm puxando a fila do desmatamento.
“Pros estados do Tocantins, São Paulo, Pernambuco, Paraíba e também o Distrito Federal, [entre 2007 e 2024] temos um total de mais de 4 milhões de hectares que foram convertidos em pastagem, 112.000 hectares de formação natural convertidas em soja, 8 mil hectares que foram convertidos em cana e 9 mil hectares, convertidos em citricultura e 64 mil hectares, convertidos em silvicultura. E um pouco mais de 1 mil hectares de formação natural convertidos em áreas de mineração“, resume ele.
O que mais assusta, na visão do geógrafo, são os dados do Tocantins por estar localizado no território da Amazônia Legal e, ao mesmo tempo despontar como estado campeão na destruição de áreas de florestas, justamente em um bioma tão importante para as mudanças climáticas, mas que segue tendo as áreas de mata, dando lugar a imensos campos de pastagem.
“Em relação aos dados de transição de formação natural para pastagem, o Estado do Tocantins desponta. Ele totaliza mais de 3.300.000 hectares de pastagens, mas que nesse período de 2007 a 2024 até eram áreas de formações naturais”, enfatiza Carlini.
O estado do Tocantins integra a área do MATOPIBA, que também abarca os estados do Maranhão, Piauí e Bahia. Com uma área de 73 milhões de hectares, Matopiba é considerado uma das principais regiões de fronteira agrícola do agronegócio brasileiro no século XXI, situada em grande parte no bioma Cerrado. A região foi criada em 2015 e abrange 337 municípios.

Nos últimos anos a área tem se tornado um dos principais motores do desmatamento, sofrendo a perda da vegetação nativa de floresta para a ocupação de culturas do agronegócio, como a soja, o milho, algodão e a pecuária, que aliado ao uso massivo de agrotóxicos, garantem a exportação desses produtos para outros países, alavancando a expansão econômica às custas da destruição da floresta e direitos das comunidades locais.
Em relação aos tipos de culturas com maior potencial de pressão sobre as áreas de florestas, os dados do MapBiomas apontam que a expansão da agropecuária age como principal vetor, pois o desmatamento associado à expansão da agropecuária responde por mais de 97% de toda a perda de vegetação nativa no Brasil nos últimos sete anos. Ao mesmo tempo, a pressão do avanço das áreas de pastagens responde por 99% da vegetação nativa perdida no Brasil em 2025.
Nesse sentido, a abertura da pastagem e o desmatamento das áreas de florestas são fundamentais para a expansão de áreas produtivas, mas também envolvem o processo da grilagem de terras, ou seja, são práticas usadas até hoje para mascarar a usurpação de terras públicas por latifundiários e, geralmente ocupantes do poder local, como chama atenção o geógrafo Eduardo Carlini.
“Em relação à grilagem de terras, que é o principal motor do desmatamento, sobretudo na Amazônia Legal. Funciona da seguinte forma: o grileiro precisa justificar a posse dele para entrar com o processo de regularização fundiária. E uma das coisas que o grileiro faz é justamente o desmatamento entre todas as outras. Ele vai fazer o cadastro no Incra, uma série de procedimentos, mas também precisa desmatar para comprovar a posse daquela área. Então, quando a gente vê esse movimento de desmatamento na Amazônia, o que nós estamos vendo acontecer é o processo de grilagem em curso”, denuncia.
Outro agravante nesse processo de desmatamento e abertura de áreas para pastagem e monoculturas, na visão de Eduardo, é o modelo de concentração de terras, que garante o predomínio do latifúndio, com amplas áreas de pastagens e monocultura, e uso de agrotóxicos como armas de destruição. “Esse modelo do latifúndio e da monocultura torna possível que o Brasil tenha uma área equivalente à da Alemanha de soja e, portanto, torna o Brasil um dos maiores consumidores de agrotóxicos do mundo. Essa presença massiva dos agrotóxicos tem uma série de desdobramentos: desde a contaminação da população consumidora até o envenenamento dos rios, das águas subterrâneas e dos trabalhadores rurais e, o uso desses agroquímicos como armas em conflitos fundiários para expulsão dessas populações.”
Como alternativa para barrar esse processo de expansão do desmatamento e abertura de pastagens o pesquisador ressalta que o levantamento de dados e pesquisas tem demonstrado a potência das Terras Indígenas (TI) e unidades de conservação como barreiras importantes. E dessa forma, destaca também a importância na resistência das comunidades tradicionais e criação de áreas de assentamentos, reconhecimento por parte dos órgãos governamentais.
“O grileiro sabe que essas terras públicas não podem ser destacadas pro patrimônio privado, então, como grilar é um investimento caro, ele sabe que não pode gastar dinheiro à toa em terras que não podem ser regularizadas futuramente. Aí reside um dos motivos porque é tão importante o Brasil demarcar as Terras Indígenas, assentar, criar assentamentos extrativistas, unidades de conservação de uso sustentável, justamente porque, a partir desse reconhecimento territorial desses povos, isso se configura também como um bloqueio à grilagem e, sobretudo, ao desmatamento.”
Outra alternativa concreta para frear a expansão da pastagem, do desmatamento e enfrentar as mudanças climáticas, concentra-se no fortalecimento de um modelo de agricultura baseado em práticas agroecológicas, como resposta para a preservação do meio ambiente, a produção de alimentos saudáveis, gerando vida e saúde, ocupando o vazio da contaminação e das doenças espalhadas pelo modelo do agronegócio.
“A agroecologia se apresenta como uma resistência a esse processo, ao reafirmar as técnicas e tecnologias tradicionais dos povos de cada região, de cada bioma. Nesse sentido, a luta do MST por políticas públicas voltadas ao fortalecimento e implementação da agroecologia não é apenas a proposta de um modelo alternativo para o campo, mas sobretudo, uma proposta civilizatória para toda a sociedade”, carimba Carlini.
Assentamentos do MST: Experiências agroecológicas são alternativa contra avanço de pastagem
Com o esgotamento no modelo de agricultura convencional do agronegócio, que explora os recursos da natureza, gerando o desmatamento e a grilagem, com a abertura da áreas de pastagens e monocultivos, que empobrecem o solo, secam rios e fontes de águas, além de contaminar o meio ambiente e espalhar as doenças e a violência no campo, com o uso de agrotóxicos e defensivos químicos.
Diante disso, nos últimos anos o MST tem apostado na massificação do modelo de produção agroecológico, com foco em processos de formação junto aos camponeses(as), e na busca por saber e conhecimentos e novas tecnologias adaptadas para a agricultura familiar para o enraizamento de experiências de transição entre o convencional, orgânico até a substituição por práticas totalmente agroecológicas nas áreas de Reforma Agrária Popular.
Aliado à produção de alimentos saudáveis o MST desenvolve o Plano Nacional, Plantar Árvores, Produzir Alimentos Saudáveis, com a meta de plantar 100 milhões de árvores em dez anos nas áreas de assentamento e acampamento e demais espaços de Reforma Agrária, como escolas do campo, cooperativas, centros de formação técnica, praças, avenidas e nas cidades, com a intenção de fortalecer a produção de alimentos saudáveis, por meio da Reforma Agrária Popular como um projeto concreto para combater a fome e enfrentar a crise climática, além de denunciar o modelo de destruição do agronegócio e seus impactos ao meio ambiente e à vida no planeta.
Nesse contexto, se insere o desenvolvimento de uma diversidade de práticas agroecológicas por todo o país. Em relação à mitigação no avanço de áreas de pastagem e dos impactos nocivos da agropecuária. A seguir apresentamos duas experiências importantes, com frutos positivos junto às famílias camponesas do MST nos estados do Maranhão e do Paraná.
Sistema Integração Lavoura Pecuária e Floresta (ILPF)
No assentamento Cristina Alves, localizado no município de Itapecuru Mirim (MA), um grupo de 15 famílias assentadas estão desenvolvendo a experiência de produção no Sistema Integração Lavoura Pecuária e Floresta (ILPF). O sistema tem como foco intensificar a produção agrícola em uma única área da agricultura familiar camponesa, com uma diversidade de cultivos, que podem agregar, por exemplo, a produção anualmente de arroz, feijão, que são culturas de lavoura e, após a colheita da lavoura, os camponeses(as) podem colocar os animais no mesmo terreno, de um a dois hectares.

A engenheira agrônoma, Regina Costa, que presta assistência técnica ao sistema ILPF, ressalta que depois da retirada da lavoura nesse sistema, a principal orientação para aproveitar a vegetação na área “é colocar bovinos ou caprinos. A nossa intenção é que sejam colocados os caprinos, porque a quantidade de animais é bem maior, em uma área.”
Em relação às vantagens desse sistema, Regina destaca que torna possível a otimização de solos, com o consórcio de diversas culturas, ao mesmo tempo em que promove a recuperação da natureza. “Você pode produzir, ter uma diversidade de vários cultivos em uma área pequena. A outra vantagem é que você produz sem agredir o meio ambiente, pois na implantação do sistema ILPF você pode aproveitar uma área que existe e que possui árvores ou pode inserir outras variedades também. Na implantação das árvores, você tem uma ciclagem de nutrientes muito grande e é uma forma de produzir, sem agredir o meio ambiente”, explica ela.

Joaquim Bezerra Costa, pesquisador da EMBRAPA – MA, também aponta a vantagem da preservação de espécies nativas, a redução da temperatura e o estoque de carbono.
“A questão da redução da temperatura ambiente, principalmente quando você tem animal no sistema, então melhora a ambiência dos animais, em até dez graus de diferença de um ano, de um ambiente em pleno sol, com ambiente com árvore. Além da questão do aumento da biodiversidade, se você puder deixar as espécies nativas, melhor ainda. E tem a questão do estoque de carbono: você deixa a árvore no sistema e ela consegue estocar muito mais carbono do que uma pastagem, por exemplo, comparando aos sistemas pecuários. Então a árvore vai estocar o carbono, e mitigar a questão dos efeitos das mudanças climáticas.”
Outras vantagens importantes desse sistema também são observadas, em relação ao aumento da produtividade e diversidade de culturas e renda, rompendo com a monocultura e a dependência do mercado. “Em relação à produção de alimentos, a gente tem visto o aumento da produtividade, porque você tem um sistema mais balanceado e mais produção em uma mesma área e, ao mesmo tempo, diversifica a renda. Isso também vai impactar de forma direta nas condições de vida das famílias. Você sai de um único produto, normalmente quando está em monocultivo, para pelo menos de três a seis produtos que vai produzir. Então você tem essa diversificação de renda e fica menos a mercê do mercado”, resume Joaquim.
O assentamento Cristina Alves possui 19 anos de consolidação, como fruto da história de luta coletiva do MST. A conquista do local é o resultado de dois processos de luta pela terra, promovidos pelo Movimento entre 2001 e 2007, na Região Norte Maranhense e está organizado em duas vilas, a vila 17 de abril e Cabanagem, local em que vivem 113 famílias assentadas.
Comunidade agroflorestal José Lutzenberger
No caso do Paraná, localizado no município de Antonina (situado a 90 km de Curitiba), o MST instalou a comunidade agroflorestal José Lutzenberger, a partir de 2004, com a ocupação de uma fazenda devastada pela pecuária extensiva de búfalo e por crimes ambientais, como o desvio do leito do Rio Pequeno, que atravessa o território.

Como o município está inserido na Área de Proteção Ambiental (APA) de Guaraqueçaba, além de fazer parte da Reserva de Mata Atlântica. A área se encontra em um território de preservação ambiental permanente. Entendendo a importância disso, após a ocupação, as 22 famílias do MST, que passaram a viver no local, optaram pela produção a partir de um sistema agroflorestal. Semelhante ao que as comunidades tradicionais da região desenvolvem para a produção de subsistência e preservação da Mata Atlântica, porém trabalhando a terra de forma coletiva.
“Nós adotamos o sistema florestal manejado, ou seja, a produção de produtos para consumo interno e com espécies nativas também. Para esse consórcio, tanto faz o processo de recuperar o solo, de produzir a alimentação para as famílias, e o excedente a gente comercializa. Com essa experiência do sistema florestal, melhoramos muito a questão das condições ambientais da área, porque colocou uma cobertura florestal em cima diversa. Com isso, tivemos também a recuperação do solo e começamos a ter um solo mais poroso, com mais ventilação, ou seja, com melhor dreno para a questão das chuvas”, explica o coordenador da comunidade, Jonas de Souza.
Em relação à biodiversidade, Jonas comemora os frutos de mais de 20 anos de luta e resistência no território. “Essa questão da biodiversidade trouxe muitos pontos positivos, com vários tipos de espécies de fauna para dentro do território. Inclusive, os mamíferos até os maiores. Hoje a gente tem uma relação dentro da comunidade com a anta, com a onça. Tem as aves igual o jacu, a jacutinga e animais ameaçados de extinção. A introdução da palmeira juçara, da palmeira pupunha, dos cítricos, de algumas espécies de plantas nativas da Mata Atlântica, que a gente começa a resgatar”, relata.

O trabalho e as práticas sócio-políticas da comunidade também mudaram a visão da sociedade local sobre o MST, ao mesmo tempo em que também garante comida saudável para as crianças das escolas na região, através do abastecimento por meio de programas governamentais como o PNAE e PAA, destaca Jonas. “Nós não temos nenhum problema de relação com a sociedade, eles entendem e compreendem a importância do nosso trabalho aqui. E a gente coloca na mesa das crianças um alimento seguro, saudável. Que a gente também atende as escolas com parte da nossa produção.”
Nesse sentido, o camponês resume como experiências de sistemas agroecológicos similares representam alternativas concretas, no contexto da Reforma Agrária para enfrentar a devastação do modelo do agronegócio, causado pelo desmatamento da floresta, as áreas de pastagens e os monocultivos sem fim, garantindo a diversidade de alimentos, diversidade na biodiversidade e na fauna, bem como de renda e vida no campo.
“Para nós, a área é simbólica para a região do litoral e para mostrar como o sistema agroflorestal é importante para a Reforma Agrária e no reconhecimento dos territórios das comunidades tradicionais. Hoje nós temos água boa, sem nenhum tipo de contaminação, porque todas as nossas práticas são agroecológicas, sem usar defensivos químicos. As famílias têm renda, têm as condições de trabalho adequado. Toda a nossa prática é voltada para a restauração do meio ambiente e da Mata Atlântica, com a produção de alimentos saudáveis”, conclui Jonas.
*Editado por Fernanda Alcântara



